Cultura

Lisbon Gallery. Não é arte, senhores, mas podia

Prometido é devido, e a bienal pode ter chegado ao fim, mas a Experimenta não. A prova está no rés-do-chão do Palácio do Príncipe Real, onde Guta Moura Guedes acaba de inaugurar a primeira galeria de design e arquitetura de Lisboa — a Lisbon Gallery

No final da conversa, damos com a fotógrafa inadvertidamente sentada numa peça, à entrada da galeria. Um banco de cortiça do japonês Naoto Fukasawa, explica Guta Moura Guedes assim que nos aproximamos. Momento de pânico — para a fotógrafa — mas breve, que rapidamente será Guta Moura Guedes a sentar-se a seu lado. “Uma galeria de design e arquitetura não é uma galeria de arte”, sorri. “Aqui podemos tocar nas peças, são feitas para isso.” Para a inauguração da Lisbon Gallery – Design & Architecture, a curadora optou uma coleção que, entre a arquitetura e o design de produto, ajuda a contar partes do que foram os 18 anos de história da bienal ExperimentaDesign, cujo fim foi anunciado em setembro com a promessa de que isso não seria o fim da atividade da associação que a criou.

A prova começa já aqui, na abertura da primeira galeria de design e arquitetura de Lisboa, no rés-do-chão do Palácio do Príncipe Real. “Foi um pouco o olhar para trás e perceber, dos projetos a que tínhamos estado ligados, que peças estariam neste momento disponíveis para ser apresentadas aqui e também um outro fator, que é eu ter trabalhado tantos anos com o Miguel Vieira Batista e com o Fernando Brízio, que são membros da associação também. Fizemos um trabalho com eles para ver que peças deles que não tinham estado ligadas à Experimenta faria sentido estarem aqui.” Por exemplo, os bancos “Bísaro” e “Pata Negra”, de Fernando Brízio, ou um conjunto de contentores de cerâmica desenhados por Miguel Vieira Batista. “Este é o trabalho que agora iremos fazer com outros designers. Perceber, dentro do trabalho que têm, o que se coaduna com o perfil da galeria.”

Regressemos ao “Cork Bench” de Naoto Fukasawa, apresentado na mesma edição da Experimenta que o “Cork Kit” de Amanda Levete, a arquiteta britânica que assinou o projeto do MAAT — um conjunto de estruturas modulares que tanto constroem uma pequena mesa de apoio ou um banco como uma grande parede divisória, também em cortiça, embora não pareça. Será esse, em conjunto com a pedra, a madeira, o ferro, o vidro, um dos materiais “matriciais” para as peças apresentadas na Lisbon Gallery. E nada disto é acaso.

Pedra, madeira, ferro “Um tema que nos interessa muito é a questão da sustentabilidade e tenho uma atração muito forte por materiais que têm um certo peso. Por serem ou como a pedra, que tem milhões de anos e são únicos, ou como a madeira, que é também de uma enorme diversidade e é natural, orgânica. Não quer dizer que deixemos necessariamente de lado os plásticos, mas confesso que não é o que me interessa. Interessa-me muito, sim, uma outra dimensão que são os materiais inteligentes, ligados às novas tecnologias, mas com uma preocupação de sustentabilidade sempre. Se corresponderem aos critérios de serem sustentáveis, recicláveis e tiverem realmente novas dimensões tecnológicas vamos interessar-nos por isso”, explica a diretora artística da galeria e curadora, ao lado de Joana Morais e Miguel Côrte-Real, que a acompanharam ao longo de anos, na Experimenta.

Como esta ideia de abrir em Lisboa uma galeria de design e arquitetura, que não é de agora, vem de há muito. “Lembro-me da primeira vez que levei design português a Milão, em 1998, e de quando começámos a trabalhar com a indústria nacional, a fazer peças para depois a mostrar no âmbito cultural, de exposição, sem intuito comercial. O efeito imediato – para lá de o público gostar imenso das exposições e daquilo que estávamos a fazer – era ‘onde é que podemos comprar?’ Havia sempre essa ideia: o conceito de exposição é interessante mas os objetos também são, porque estamos a trabalhar em design, design de objetos que são de uso, de consumo. A cada edição da bienal, a cada projeto que fazíamos no estrangeiro, isto acontecia. Mas é uma decisão que tem de se tomar com todos os cuidados porque requer um investimento grande e um trabalho contínuo, porque uma galeria de design e arquitetura é como se fosse uma galeria de arte.”

E o momento que pareceu certo a Guta Moura Guedes foi este. Dada por terminada a bienal ExperimentaDesign e encontrado o espaço certo: o Palácio do Príncipe Real, recentemente comprado por um grupo de investidores e que entrará dentro de seis meses em obras de reabilitação, com um projeto do arquiteto João Luís Carrilho da Graça. Durante esse tempo, a Lisbon Gallery continuará a funcionar online, mas a reabertura no mesmo espaço está garantida. “Vamos trabalhar muito no nosso site numa perspetiva de venda também. Quando entrar em obras fechamos o espaço, claro, mas os sócios têm interesse em ter no palácio um projeto com uma vertente internacional e que dê massa crítica ao próprio palácio.”

Como num jantar de amigos À entrada da galeria, salta à vista um conjunto de placas penduradas em várias filas de ganchos. Como os casacos dos convidados à entrada de um jantar de amigos numa casa. Naoto Fukasawa, Claudia Moreira Salles, Fernando Brízio, Estudio Campana, Michael Anastassiades, Amanda Levete, Jasper Morrison, os autores das peças que encontraremos expostas lá dentro, apenas alguns daqueles que são — e serão — representados pela galeria, numa “pool de designers e arquitetos internacionais” com quem a Experimenta trabalhou ao longo dos anos e que continuará a ser alargada, agora pelo trabalho da Lisbon Gallery. “Esta galeria tem um caráter internacional e operamos no mercado global. Não há muitas galerias de arquitetura e design no mundo, mas existem algumas em Beirute, Milão, Londres, Paris, Nova Iorque, que conheço bem, algumas extraordinárias, com um trabalho muito continuado. Aqui o que vamos tentar fazer é diferenciar esta galeria das restantes através de um profundo investimento na área da investigação entre indústria e design e arquitetura.” Guta Moura Guedes refere-se à indústria portuguesa, claro. “Vamos concentrar-nos nisso, a par de uma ideia de recuperação de algum artesanato, da manualidade. Todas as peças que estamos a apresentar têm nalguma das suas fases uma relação com a mão, com o artesanato.”

A partir dos próximos meses, a Lisbon Gallery começará a acolher, paralelamente a uma seleção de objetos da coleção da Experimenta, exposições. Individuais ou coletivas, como tiverem que ser, que longe vão as obrigações de calendário que exigia a organização de uma bienal, e não circunscritas apenas ao design de produto. “Queremos trabalhar também com design gráfico, com design digital e com outras dimensões da arquitetura”, diz Guta Moura Guedes, revelando, sem adiantar nomes de autores, que a primeira exposição da Lisbon Gallery será dedicada ao design gráfico. “Já há alguns projetos em curso. Os nomes dos autores que estão ali na parede são os que representam estas peças, no site vai estar disponível a lista dessa pool e vai ficando clara qual é a rede com que estamos a trabalhar. Em grupo. Um dos papéis interessantes de um galerista é precisamente conseguir encontrar as pessoas certas, fazê-las trabalhar em conjunto para depois desse conjunto conseguir selecionar as peças certas. Essa atenção é muito importante e é o que determina o perfil de um sítio.”