Opiniao

Isabel dos Santos: o mundo mudou no espaço de uma semana

No mundo da política e dos negócios, por vezes, há surpresas. Ninguém esperaria por certo uma resposta tão contundente de Isabel dos Santos à conferência de imprensa de Carlos Saturnino, mas a verdade é que a anterior presidente do conselho de administração da Sonangol não encomendou recados a terceiros, nem deixou sem resposta as graves acusações proferidas na semana passada.

Num detalhado comunicado, disponível para consulta pública, e numa entrevista sem precedentes ao Jornal de Negócios, sentindo ter sido alvo de grave difamação, algo a que promete dar a devida sequência nos tribunais, Isabel dos Santos refuta uma por uma as acusações proferidas por Carlos Saturnino.

Muito claramente, algo mudou por estes dias. A estratégia de comunicação, para começar, que passou de uma linha de orientação de baixo perfil para uma de maior visibilidade, chamando a própria Isabel dos Santos à linha da frente da batalha pela defesa da sua reputação.

Mas mudou, seguramente, mais do que isso. A conferência de imprensa de Carlos Saturnino foi reveladora de uma empresária angolana a perder capacidade de dissuasão, algo associado, como é evidente, a uma percepção de crescente perda de poder e influência em Angola. Se assim não fosse, por mais protegido que possa estar por terceiros, o actual presidente do conselho de administração da Sonangol não arriscaria certamente afrontar Isabel dos Santos de forma tão directa e pública.

A resposta de Isabel dos Santos foi, de certo modo, o traçar na areia de uma linha vermelha que visa repor a sua capacidade de dissuasão, se necessário recorrendo a uma estratégia de tit-for-tat. Mudou também, por isso, a sua estratégia global, muito para além da componente comunicacional propriamente dita. A partir de agora, a guerra está declarada e assumida ao mais alto nível.

Isabel dos Santos sinalizou que não tolerará mais atentados à sua honra e que estará disponível para jogar duro com Carlos Saturnino. Mais importante, estará disponível para entrar em rota de colisão com quem esconde a mão por detrás do presidente do conselho de administração da Sonangol, seja o presidente de Angola, João Lourenço, que a exonerou e que nomeou Carlos Saturnino em seu lugar, seja o anterior vice-presidente angolano e antigo presidente do conselho de administração da Sonangol, Manuel Vicente, que tem vindo a reconquistar crescente influência no novo contexto político pós-José Eduardo dos Santos.

Alguém notou em tempos que sabemos como uma guerra começa, mas nunca como termina. Há uma dose de risco em tudo isto que não é despicienda e ninguém sabe, seguramente, como terminará este braço de ferro. É possível que as coisas ainda piorem mais. É possível que, entre factos verdadeiros e manobras de desinformação, venha a ser lavada muita roupa suja na comunicação social angolana e portuguesa que são, neste contexto, um espaço contínuo.

Uma coisa é certa. A partir de agora, Carlos Saturnino e os seus aliados sabem que não ficarão sem resposta, doa a quem doer. Se é para jogar duro, pois bem, Isabel dos Santos disse presente e aceitou o repto. Resta saber se o actual presidente do conselho de administração da Sonangol e os seus aliados, analisados os prós e o contras, sabendo o que sabe agora, se estará interessado em prosseguir por esse caminho. Veremos a seu tempo. Para já a bola está do seu lado. Depois do detalhado comunicado de Isabel dos Santos e da sua entrevista explosiva, Carlos Saturnino tem explicações para dar.

 

Investigador, Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança (IPRIS)