Sociedade

ERC recebeu uma queixa contra “Prós e Contras” da vacinação

Reguladora para a comunicação social vai apreciar queixa que visou episódio da semana passada


A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) vai avaliar o programa “Prós e Contras”, da RTP, emitido na semana passada, e que discutiu se as vacinas devem ou não ser obrigatórias, tendo como mote o surto de sarampo detetado, no início de março, no norte do país. Questionada sobre se teriam chegado queixas sobre a participação de um terapeuta em biomagnetismo no programa e se haveria alguma intervenção, a reguladora esclareceu ter recebido uma participação a propósito do programa que “será apreciada pelos serviços da ERC, nos termos habituais”.

No programa, o terapeuta disse não fazer parte do movimento antivacinas, defendendo antes uma “vacinação diferente”. Falou de efeitos adversos, negados pelos outros intervenientes. Um dos pontos que suscitou foi por que motivo é preciso fazer em simultâneo a vacinação contra sarampo, papeira e rubéola. Transmitiu também a ideia de que o vírus usado na vacina do sarampo é desenvolvido em células “de abortos humanos de 12 semanas”, colocando a questão no plano “ético-religioso”.

Margarida Menezes-Ferreira, perita do Infarmed e da Agência Europeia do Medicamento, ressalva que não viu o programa, mas diz que a ideia de que são feitos abortos para produzir vacinas é descabida, sendo necessário perceber o fabrico. 

A especialista explicou ao i que qualquer produção de vacinas tem de recorrer a células para multiplicar o vírus e atenuar a sua virulência. No caso dos vírus do sarampo e da papeira, são usadas células embrionárias de pinto. Porém, o vírus da rubéola não se desenvolve em células de galinha. Nesse sentido, o vírus foi isolado nos anos 60 em tecido fetal de uma gravidez interrompida por causa de rubéola e foi criada uma linhagem celular a partir desse vírus selvagem isolado e células de um embrião excedentário. “O uso de tecido fetal está regulamentado”, sublinha Menezes-Ferreira. 

Quanto à questão de as vacinas serem administradas em simultâneo, a especialista sublinha que, sendo doenças altamente contagiosas e com um calendário idêntico, é benéfico juntar as três. “São doenças altamente transmissíveis por via respiratória e só não existem mais porque há uma elevada cobertura vacinal e, com isso, uma boa proteção de grupo”, diz. “Precisamos todos de todas. Eu, como mulher, posso precisar mais da da rubéola, pois posso ter um aborto quando estiver grávida. A papeira pode causar esterilidade nos homens.” 

O surto de sarampo parece estar a estabilizar: estão confirmados 86 casos, não há novos doentes e só seis não estão curados. Ontem, no parlamento, a diretora-geral da Saúde anunciou que pode ser precisa uma terceira dose da vacina para reforçar a imunização. Esta é uma possibilidade que está a ser estudada por diversos especialistas, disse Graça Freitas. Hoje, as crianças recebem duas doses da vacina, a primeira aos 12 meses e a segunda aos cinco anos.