Internacional

As primeiras horas de Lula na cadeia

Numa cela descrita como espartana, Lula da Silva tem passado as primeiras horas de prisão como um preso comum… ou quase, porque à porta da Cadeia de Curitiba está montada toda uma estrutura de apoio ao ex-Presidente que mostra que Lula não é só mais um presidiário.

Quando Lula da Silva chegou à Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, não quis comer. A primeira refeição foi tomada já no domingo de manhã. Lula acordou bem cedo e, segundo a BBC Brasil, comeu pão e bebé café às 7h45.

Nesse dia, a Polícia Federal autorizou que fosse instalada uma televisão na sua cela para poder ver o jogo do seu clube. O Corinthians jogava com o Palmeiras na final do Campeonato Paulista e, embora a assesoria de imprensa da Justiça Federal do Paraná não o confirme, a BBC Brasil garante que Lula assitiu à partida graças a uma autorização do juiz Sérgio Moro para ter um televisor no quarto.

O aparelho terá ficado na parede por cima da cama onde Lula da Silva dorme. O espaço não é muito. A cela onde o ex-Presidente do Brasil está tem três metros por cinco. São 15 metros quadrados. O espaço suficiente para uma cama de solteiro, uma cadeira, uma mesa, um armário embutido na parede e uma casa de banho com chuveiro, lavatório e sanita.

Sem ar condicionado 

Há duas janelas que dão para o exterior, mas foram cobertas com uma película escura para evitar qualquer interação com o que se passa fora da cela. A visão que Lula tem do exterior também não é muita. As janelas são do tipo basculante e podem ser abertas, mas apenas permitem uma visão parcial do que se passa fora da cela.

Apesar de a cela ter uma casa de banho separada do resto do quatro, esse será o único privilégio do antigo governante. Não há luxos na cela que foi especialmente preparada para o receber 15 dias antes da sua detenção. O espaço não tem ar condicionado nem frigorífico.

Segundo a imprensa brasileira, os guardas prisionais que têm acesso a Lula da Silva estão mesmo proibidos de prestar qualquer informação sobre o ex-Presidente. Não podem sequer revelar se está a dormir ou acordado.

Fica por saber, por exemplo, se reagiu de alguma forma às manifestações organizadas à porta da prisão, onde rapidamente se instalou toda uma infraestrutura de protesto, que inclui casas de banho portáteis, barracas de comida, eventos culturais e um centro de informação para distribuir água e comida.

Mesmo assim, a Folha de São Paulo dá alguns pormenores sobre a vida do presidiário mais famoso do Brasil.

Carne assada, arroz com feijão e macarrão

O primeiro almoço que comeu na prisão foi servido às 11h30.

Antes de ver o jogo da sua equipa de futebol, ainda teve a visita do advogado, Cristiano Zanin.

A visita terá sido autorizada pessoalmente por Sérgio Moro, porque não é habitual um preso receber visitas durante do fim de semana e terá sido justificada “por causa das circunstâncias especiais”.

Eram 17h30 quando a empresa de catering que fornece a prisão chegou ao edifício com o jantar. Não se sabe o que comeu ao almoço, mas a Folha de São Paulo assegura que a ementa do jantar era composta por carne assada, arroz com feijão, macarrão e chuchu.

Foram as primeiras 24 horas do antigo Presidente na prisão, como as relata o jornal Folha de São Paulo. Será só primeiro dia dos 12 anos e um mês de prisão que Lula da Silva terá de cumprir caso a sentença – que ainda não transitou em julgado – seja confirmada pelo Supremo Tribunal.

'Já não sou um ser humano, sou uma ideia'

Apesar de tudo, o advogado de Lula continua confiante. E as manifestações de apoio não devem abrandar.

“Já não sou um ser humano, sou uma ideia”, dizia o político de 72 anos no último discurso antes de se entregar às autoridades. Uma ideia não pode ser aprisionada. Um ser humano, sim. Por isso, Lula está na cadeia, mas a luta não esmorece entre os apoiantes do PT que questionam a forma como o antigo governante foi preso antes de esgotados todos os recursos judiciais e com base em sentenças que se fundaram nas convicções do juízes e não em provas.

“Todos vocês vão virar Lula. Eles têm de saber que a morte de um combatente não pára a revolução”, disse o político. Os seus seguidores estão a seguir-lhe as indicações. O Brasil está dividido e espera para ver o que se vai passar a seguir.