Internacional

Síria. Assad enfrenta de novo a mão americana

Donald Trumpo pode repetir a receita do ano passado e atingir alguns alvos do regime. O impacto será reduzido.

O presidente norte-americano fez soar um tiro de alarme e anunciou que entre hoje e amanhã vai retaliar contra o aparente ataque químico lançado no fim de semana contra um dos últimos domínios rebeldes sírios nos arredores de Damasco. O mundo conta com mais um bombardeamento americano, mas a Casa Branca não abre a cortina para além das ameaças de Donald Trump, que esta segunda-feira, por coincidência, recebeu as chefias militares norte-americanas em Washington. “Estamos a falar da humanidade e este tipo de coisas não podem acontecer impunemente”, afirmou o presidente. “Vamos tomar uma decisão muito, muito rápido, provavelmente ao fim do dia de hoje. Não podemos permitir atrocidades deste género”, prosseguiu. “Neste momento, não excluo nada”, lançou, ao seu lado, o secretário de Defesa, Jim Mattis.

Donald Trump retaliou uma vez já contra um ataque químico de Bashar há um ano, também em abril, disparando 59 mísseis Tomahawk contra a base aérea de onde se pensa que caças sírios descolaram com bombas de cloro. Nesse mês morreram asfixiados mais de 70 sírios no centro do país. Neste fim de semana, em Duma, um enclave rebelde próximo de Ghuta oriental, a norte de Damasco, morreram pelo menos 42 pessoas. Desconhece-se o tipo de arma usada, mas os cadáveres asfixiados e com espuma na boca sugerem de novo o cloro. Os destroços da bomba foram esta segunda-feira recolhidos por um veículo blindado russo. O Kremlin assegura que não houve ataque químico, tal como negou as bombas de cloro de 2016 e as de sarin em 2013, ano em que, com uma só ofensiva, Assad matou mais de mil pessoas no bastião rebelde.

Enquanto esta segunda Trump acenava com um novo ataque à distância contra o regime de Assad e o Kremlin concluía que as fotografias de famílias inteiras asfixiadas são “fake news”, a guerra civil síria lidava com mais uma ramificação da violência regional. A base aérea síria T4/Tiyas, muito próxima da fronteira com o Líbano e nos arredores da importante cidade de Homs, foi atingida com uma salva de mísseis disparados por dois caças desconhecidos. Num primeiro momento, as televisões do regime culparam os Estados Unidos, pensando que o bombardeamento seria a sua retaliação ao ataque químico. Horas depois, porém, a imagem tornou-se mais nítida: o ataque matou 14 pessoas e foi quase certamente levado a cabo por caças israelitas, que em fevereiro atacaram a mesma base aérea por acolher os drones iranianos que de tempos a tempos visitam a fronteira com Israel. “Temos uma regra simples: se alguém tenta atacar-nos, erguemo-nos e atacamo-lo”,disse o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, sem mencionar o raide da madrugada.

Fuga e medo

Os Estados Unidos têm duas fragatas de mísseis no Mediterrâneo que em poucas horas podem manobrar contra alvos do regime sírio. Se escolher fazê-lo, Donald Trump estará a repetir a receita do ano passado, pela qual foi invulgarmente aplaudido no mundo. De pouco adiantará. Os mísseis do ano passado destruíram alguns caças sírios, danificaram ferramentas de sonar e abastecimento, mas, em poucos dias, o regime já se havia recomposto da ofensiva. É pouco provável que o presidente americano escolha uma retaliação muito mais dura. Afinal de contas, Donald Trump disse apenas na semana passada que pretendia ordenar a retirada das forças especiais americanas na Síria com rapidez. “Quero chamar as nossas tropas de volta e concentrar-me em corrigir o que está mal aqui em casa”, afirmou, surpreendendo os aliados e inimigos no terreno.

O líder americano voltou atrás dias depois, mas não há agora como negar que, levando a sua avante, Trump estará fora da Síria. Atacar com severidade o regime de Assad obrigá-lo-ia a fazer o contrário: comprometer-se com uma escalada na guerra. Para além do mais, as armas químicas deste fim de semana já produziram o efeito desejado em Damasco. Horas depois do ataque, no domingo, o derradeiro grupo armado de Duma anunciou um acordo de cessar--fogo e retirada com o governo sírio. Alguns dos seus combatentes começaram a partir esta segunda para o norte do país, acompanhados das famílias. Muitos ficaram para trás, tentando sarar as feridas com Assad. Nos arredores de Damasco restará apenas uma bolsa de resistência, num dos bairros de Ghuta oriental. Mesmo essa cairá em breve. “Partirei amanhã, se Deus quiser, porque a nossa missão acabou”, dizia ao “Guardian” um dos médicos de Duma. “Digo graças a Deus por a chacina ter acabado.”