Opiniao

«A vossa inveja faz a minha fama»

Esta frase, que encontrei no Beato, em Lisboa, faz lembrar tempos antigos, em que os artistas lançavam farpas e eram alvos de outras na praça pública. Dizer «A vossa inveja faz a minha fama» é uma forma de dizer que as pessoas, por inveja, falam dos outros e, assim, ao contrário do objetivo, dão-lhes ainda mais fama, mais importância.

A inveja é um sentimento tão negativo que parece quase impossível contribuir para o que quer que seja de positivo. E, ainda, como diz Fernando Pessoa: «Não só quem nos odeia ou nos inveja / Nos limita e oprime; quem nos ama / Não menos nos limita».

Hoje em dia, atingir a fama é um dos grandes objetivos de vida dos mais novos (e, mesmo, de menos novos), ideal de sucesso e de uma vida realizada. No entanto, conquistar a fama a qualquer custo é ideal de vida muito pouco dignificante. Se pensarmos nos cantores jovens, que fazem constantemente disparates só para estarem sempre nas notícias, percebemos facilmente que o caminho da fama talvez não seja o mais correto.

E o que significa efetivamente ter fama? Atualmente, uma pessoa é famosa só porque falam dela nas revistas, nos jornais, na televisão, enquanto, há algum tempo, as pessoas eram famosas por feitos impressionantes, tanto nas ciências como na arte. Quem são os famosos do passado? Einstein, Camões, Fernando Pessoa, Darwin, Infante Dom Henrique… – todos eles pessoas que ficaram na história pelas conquistas, pelas descobertas ou pelos feitos inigualáveis. Ora, no presente, os famosos já não são pessoas de feitos grandiosos, mas, antes, cantores cujas músicas e vida são muito conhecidos, atores de cinema que vemos em filmes ou em séries e cuja vida pessoal acompanhamos; futebolistas cujo percurso profissional e pessoal vamos vendo na televisão e na imprensa.

Talvez a fama, hoje, seja mais efémera, mais passageira. Muitos são os «famosos» que o são durante algum tempo e, depois, caem no esquecimento, como se já não importassem, como se deles já não precisássemos, porque já «vampirizámos» o suficiente a intimidade deles.

Para o público, é quase indiferente quem é o famoso, desde que possamos saciar o nosso anseio sanguessuga por nos alimentarmos daquela vida brilhante e glamorosa ou daquela vida infeliz e triste, que nos permite libertar os nossos sentimentos de compaixão. Porém, para os próprios, cujas vidas assentam, muitas vezes, em pilares frágeis, em personalidades pouco sólidas, tanto a fama como a passageira ilusão desta podem ser altamente desestruturantes. E vários são os exemplos de pessoas que não souberam lidar com a fama.

E estas duas entidades abstratas – o nós e o eles – são, no fundo, o reverso da mesma medalha, porque, tanto uns como outros são pessoas que transportam o peso das suas vidas, das vivências, da busca incessante para se encontrarem. Talvez aquilo que falte a todos seja o caminho para o qual aponta Tolentino Mendonça: «habitar a vida de um outro modo». E explicita: «É simplesmente caminhar com um outro passo nas estradas que já percorremos a cada dia. É abrir a janela quotidiana, mas lentamente, na consciência de que a estamos a abrir. É reaprender uma outra qualidade para uma quotidianidade talvez demasiado abandonada às rotinas e aos seus automatismos. E, no fundo, saborear o gosto das coisas mais simples». É, pois, tentar desembaraçar os fios da vida que teimam em se embaraçar.

 

Maria Eugénia Leitão

Escrito em parceria com o blogue da Letrário, Translation Services