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Já não é desporto

A violência e as sucessivas suspeitas de corrupção transformaram o desporto num palco de agressividade e desconfiança. Perdeu-se o ‘espírito desportivo’ e o desportivismo. 

Os recentes acontecimentos de violência no centro de estágio do Sporting não permitem que se continue a fazer de conta que não existe um problema crescente no desporto em Portugal para o qual, por interesses económicos, políticos ou mediáticos, todos têm fugido de encarar e resolver.

A subversão do espírito desportivo verifica-se demasiadas vezes logo nos escalões de formação. Com frequência se observam treinos para fazer faltas dissimuladas nas competições, se verificam ambientes de agressividade na assistência às competições, muitas vezes protagonizadas pelos familiares dos jovens praticantes. Quando a ‘escola’ de atitudes incorretas começa na formação, a consequência é evidente e está hoje à vista de todos.

O fator económico tem vindo a ganhar importância nos clubes e nas diversas modalidades desportivas, seja através dos ordenados milionários pagos a atletas, pela profissionalização dos clubes, pela publicidade, pelos direitos de transmissão ou, mais recentemente, pelas apostas. O desporto tem vindo a transformar-se num negócio com um peso económico que condiciona tudo o resto. Hoje, em diversas modalidades, os interesses económicos sobrepõem-se ao interesse puramente desportivo.

A influência económica nas competições desportivas transformou desporto e tornou-o ainda mais exposto a fenómenos de corrupção e ao condicionamento dos resultados desportivos. Neste momento sobram suspeitas de corrupção e viciação de resultados e falta uma ação eficaz da justiça sobre estes fenómenos que permita libertar o desporto da imagem de suspeição permanente.

Os comentários desportivos que monopolizam a comunicação social, especialmente nas televisões, ocupam demasiado tempo e centram-se quase exclusivamente na discussão de ‘casos’ e não na análise da performance desportiva ou nas competições. Hoje, a generalidade dos programas de televisão dedicados ao comentário desportivo são palcos de agressividade e até de violência verbal. As televisões têm um papel social relevante, mas em matéria de desporto não têm sido um bom exemplo.

O poder político e o Estado enquanto regulador e impulsionador do desporto como fator de formação, meio de práticas saudáveis e até como promotor lazer têm falhado. A autorregulação parece não bastar e infelizmente alguns agentes políticos são condicionados pelos interesses dos meios clubísticos ou económicos a estes ligados. 

Alguns dirigentes desportivos têm tido comportamentos incorretos que promovem condutas censuráveis. A responsabilidade destes protagonistas decorre da confiança dos respetivos associados para a promoção dos interesses do clube mas não a qualquer custo.

O ambiente que envolve uma parte dos fenómenos desportivos revelou-se de forma brutal com o episódio de violência no centro de estágio do Sporting. Perante este facto é insustentável não tomar medidas que tornem claro que o crime não compensa, seja na violência, seja nas suspeitas de corrupção no deporto que têm de ser alvo de combate.

A contaminação ao desporto em geral e à sociedade de práticas criminosas tem de ser travada, mas depende do empenho de todos: dos políticos que devem assumir o papel de garantir a regulação, da justiça que tem de assegurar a legalidade, da comunicação social que não deve ser amplificadora de agressividade, dos clubes que têm de respeitar a prática desportiva com lealdade e dos cidadãos em geral, mas dos associados dos clubes em particular que têm de ser mais exigentes. Tem de se assumir que há pessoas e práticas intoleráveis na atividade desportiva que não podem permanecer.