Opiniao

O ‘Despétócio’

O Mundial vai começar e o ‘Despétócio’ reforça a marcha, mobilizando substantivos interesses económicos e políticos em diferentes espaços de rendibilidade 

Começamos a viver um tempo especial de alargamento da presença mediática do futebol a nível mundial, ganhando concomitante centralidade na comunicação privada entre cidadãos das mais diversas latitudes (nem que seja somente para negarem tal relevância).O Mundial vai começar.  

Embora gerando sempre controvérsias, o futebol mobiliza uma quantidade tão elevada de gente que nenhuma outra atividade lúdica ou cultural é capaz de agregar. No mesmo tom, várias fontes sustentam que a  origem do futebol teve lugar nas escolas da burguesia britânica que compuseram as suas primeiras regras, as quais visavam a estruturação de mecanismos de controlo dos naturais impulsos da juventude, difundindo, em simultâneo, valores básicos da convivência entre os seres humanos como o são a boa conduta, a honestidade, a lealdade nas disputas, o cavalheirismo e o respeito pelo próximo, realidade que conduziu a que em 1863 fossem criadas pelo International Board (instituição inspiradora da fundação da FIFA em 1904) um conjunto de regras limitadas em número, de reduzida  complexidade, de fácil compreensão e apreensão que, associadas à simplicidade dos equipamentos requeridos e facilidade de prática do jogo, produziram um ambiente de difusão rápida deste desporto e sua consequente popularização.

Acresce que o futebol sempre proporcionou e proporciona aos empresários dos mais diferentes setores de atividade a ele associadas um negócio global de proporções gigantescas, oferecendo ao cidadão comum formas de extravasar as suas características emocionais mais profundas. 

Por ser uma mistura inusitada de antinomias, o futebol capta a paixão de muita gente. No futebol percebe-se, de maneira excecional e talvez única, como a importância do coletivo é subtilmente misturada com os rasgos de génio individual. O que é inquestionável é que um Mundial de Futebol atrai mais público, mais audiência televisivas, mais leitores, mais dinheiro e mais prestígio que qualquer outra atividade produtora de espetáculos e de emoções.

Mas então qual será o verdadeiro segredo do Futebol? No fundo, pode afirmar-se que o segredo se traduz na sua condição de ‘Despétócio’ (isto é, um desporto atrativo, com origem numa ética irrepreensível que se transformou num grandioso negócio que explora o ócio dos adeptos) beneficiando duma popularidade singular e de uma pujança económica particular que se intercetam na confluência de uma grande multiplicidade de fatores. É um desporto de regras simples e esteticamente cativante onde ninguém perde autoridade para opinar; gera momentos de rara emoção; ostenta regras de aplicação universal amplamente organizadas e conhecidas; atrai mercados incomensuráveis para diferentes atividades económicas; apresenta cidadãos comuns como grandes protagonistas do jogo; abre as portas do sonho aos jovens; exibe capacidade de multiplicação infinita de acesso ao jogo e a todas as envolventes que o rodeiam; patenteia uma enorme visibilidade em diferentes competições; mostra robustas potencialidades de crescimento futuro; usufrui de mercados de racionalidade limitada, onde a dimensão emocional é fortemente expandida por uma potente máquina de comunicação; exibe uma feição de elevada ética que o torna também atraente enquanto fonte de valores. O Mundial vai começar e o ‘Despétócio’ reforça a marcha, mobilizando substantivos interesses económicos e políticos em diferentes espaços de rendibilidade e com visibilidade asseguradas.