O mundo em calções

A confusão do homem simples

Nos Olivais Sul da minha adolescência havia um Muller. Assim só Muller e sem o trema, como o outro, o alemão. Vendo bem, até devia ser apenas Muler, mas deixa estar o duplo éle que só lhe fica bem. Nas refregas do nosso campo relvado da Avenida Cidade de Luanda, o Muller era um jogador à parte, daqueles que fazia coisas que mais ninguém era capaz. Eu, que só sabia fazer golos e era adepto do ‘futebol à ingalesa’, sempre ao primeiro toque e com remates de moinho e pontapés de bicicleta, adorava ver jogar o Muller mas não lhe invejava a perícia: o meu futebol era outro, mesmo quando disputado no cimento armado do Maracangalha, onde o Facadas fazia defesas arrepiantes para os cotovelos, e o Lizé ensaiava o seu pé canhão, ou no pelado abaulado do Inferno de Branca Lucas, dos Caveirinhas, que exigia uma perícia especial para marcar cantos já que da zona da bandeirola a gente olhava para a área e parecia estar a ser vítima de uma qualquer curva loxodrómica.

O Muller não era Muller autêntico, era Rui Ribeiro, e ainda é embora eu já não o veja há anos, a última vez que estivemos juntos foi em Samora Correia, para jogar futebol, claro, na nossa vida houve sempre futebol. Pouco importa, agora.

Falei do Muller a propósito do Müller, Gerd Müller, que não sabe nem quem é o Muller nem quem é o Müller, ou seja, ele próprio, perdido nos labirintos da memória e da doença que aos poucos lhe foi embaciando o cérebro, tirando-lhe a luz dos olhos, transformando-os em buracos mortiços pelos quais não entram esvoaçando os pássaros das lembranças.

Müller, o Gerd Müller, não sabe nem quem é nem quem foi.

Eu sei, como muitos de vocês: o ponta-de-lança mais prático da história da Humanidade. Se o Muller dos Olivais Sul adorava poder tourear os que jogavam contra ele, de preferência com bolas por debaixo das pernas, o Müller de Munique, do Bayern, preferia a simplicidade irritante do golo. Acho que não deve ter marcado um único golo de pontapé de bicicleta durante toda a sua carreira e, para mim, ainda de adolescente para cima, o pontapé de bicicleta era o movimento que todos deveríamos estudar e praticar com o afinco de quem se aplicava no aparecimento dos cristais de sódio à custa do bico de Bunsen nas aulas de físico-química (o Carlos Pinhão nunca deixaria existir uma disciplina assim cacofónica - si-co-qui...).

Para ele, o caminho mais curto para o golo era o remate sem floreados. Apenas remate. E a cada remate a inevitabilidade do golo, expressão nítida da sua própria filosofia. Enquanto admirávamos Beckenbauer e a sua elegância de cavaleiro teutónico, conduzindo a bola como ela não estivesse lá, colada aos seus pés, de cabeça erguida como se o seu orgulho de Nibelungo não lhe permitisse dobrar a cerviz perante quem quer que fosse, esquecíamo-nos de Müller e procurávamos os restantes aglutinadores desse donaire, como Bonhof, Netzer ou Grabowski. 

Müller era simplesmente à parte.

Não entrava nesse carrossel airoso como os requebros arquitetónicos de Neuschwanstein, de Luís II da Baviera, sonhador de Wagner e Lohengrin, o Cavaleiro do Cisne. Mas Beckenbauer não tinha dúvidas: «Tudo o que ganhámos naqueles anos maravilhosos deveu-se a Müller. Ele era o concretizador da qualidade do nosso jogo. Foi o jogador mais importante de toda a história do Bayern de Munique».

De repente, tudo acabou. E tudo é tudo mesmo, sem nada pelo meio.

Gerd Müller sentiu que depois do golo marcado à Holanda na final do Campeonato do Mundo dde 1974, em Munique, virando de pernas para o ar um jogo que começara com quinze toques de bola entre holandeses e um penálti apontado por Neeskens, que já dera ao futebol tudo o que ele precisava ou merecia. O meu amigo Jorge Palma cantaria a propósito: «O que lá vai já deu o que tinha a dar/quem ganhou, ganhou e usou-se disso/quem perdeu há-de ter mais cartas para dar».

Müller achou que não tinha mais cartas para dar. Dizem que se tornou um mestre do jogo de subbuteo, esse futebol de mesa que não dava lugar a fintas. Mas tornou-se basicamente um halterocopista, membro conhecido das milhares de cervejarias de Munique. O álcool foi-se instalando nos interstícios do cérebro, intrometeu-se nas sinapses, apagou-lhe as luzes uma a uma.

«A dependência é uma besta».

Em seguida, o silêncio.

Nunca mais se falou de Gerd Müller. A família calou-se em seu redor.

Acordará todos os dias perdido por entre as teias de aranha brilhantes dos golos que foi esquecendo. Tornou-se confuso o homem simples. Para ele havia a bola e o remate. E não gostava da bola, ao contrário dos outros. Mal ela lhe chegava aos pés, despachava-a para dentro da baliza com uma urgência absurda de se ver livre da responsabilidade de a tratar bem. Era só golo e nada mais.

afonso.melo@newsplex.pt