Desporto

Mundial. Se for pelo penteado, o Brasil já está lançado para o hexa

O cabelo de Neymar na estreia do Brasil nesta edição do Campeonato do Mundo dominou a atenção mediática. O visual ‘arrojado’ do avançado canarinho foi imediatamente comparado ao que Ronaldo apresentou em 2002 e que acabaria por ter um papel decisivo na conquista do penta pelo Escrete

Um campeonato do mundo em futebol é, garantidamente, um dos eventos mais mediáticos do desporto à escala global. Trinta e dois países - desde 1998 e por agora, pois há planos da FIFA para alargar a competição a 48 - participam e todos os outros acompanham com uma atenção imensa a par e passo o desenrolar da competição.

Pelas televisões, computadores, tablets e demais ‘gadgets’ que entretanto surgiram e revolucionaram a vida da população, entram todos os dias os jogadores que cumprem o sonho de uma vida: representar o seu país na maior prova de seleções do mundo. Ora, numa era tão mediatizada e dominada pelo culto da imagem, é fácil perceber que esta componente ganha especial importância para os atletas, que fazem por caprichar neste aspeto.

Além das tatuagens, que começaram a tornar-se uma tendência no início do milénio e hoje são quase essenciais - raros são os atletas que não apresentam pelo menos uma nos braços ou nas pernas -, outro fator que permite a um futebolista marcar a diferença no que respeita à questão estética é o cabelo. Neste caso, o que fazem com ele: os penteados. Este aspeto não se manifesta apenas nos tempos mais recentes, bem entendido: desde os primórdios dos Mundiais é possível encontrar tendências bastante vincadas em relação à forma como os atletas apresentavam o cabelo na competição. Nos últimos anos, porém, a individualidade começou a suplantar o coletivo... até nesta questão específica.

 

O afro e os mullets

Nos primeiros 24 anos, entre 1930 e 1954, a maioria dos atletas adotavam o ‘look’ das estrelas pop da altura, tanto do cinema como da música (de James Dean a Elvis Presley): cabelo carregado de brilhantina e puxado para trás ou com risco - ao lado ou ao meio. A partir da edição de 1958 e durante a década de 60, o estilo polido e impecavelmente penteado deu lugar a um visual mais prático, com os cabelos curtos mas sem recurso a qualquer tipo de produto: bastava uma penteadela subtil para o lado ou para trás.

Tudo começou a mudar verdadeiramente nos anos 70. A proliferação do estilo ‘afro’, com fartas cabeleiras, mas também as ‘hairbands’ do rock ditaram as tendências nos Mundiais de 1974 e 1978, ainda com algumas reminiscências na década de 80, embora já com muito menor força.

No México 86 e principalmente no Itália 90 (também com alguns eternos entusiastas do estilo ainda a manterem-no vivo para o Mundial 94, nos Estados Unidos), vingaram acima de tudo os incomparáveis - e inqualificáveis - ‘mullets’, também notabilizados principalmente na música (David Bowie, Rod Stewart ou Paul McCartney foram alguns dos principais ‘embaixadores’ do estilo).

A partir daí, os cortes deixaram de ser uma característica tão coletiva e adotaram uma enorme quota-parte de individualidade, com cada jogador a incorporar o seu próprio estilo. Como é óbvio, porém, houve sempre penteados específicos que acabaram por ganhar vida e entrar no quotidiano - por altura do Mundial 98, em plena era do apogeu das ‘boysband’ como Backstreet Boys, Take That ou NSync, os cortes ‘à tigela’ bateram recordes. Quatro anos depois, foi o moicano de David Beckham a ocupar a linha da frente e a ditar a tendência para os anos seguintes.

 

Neymar como Ronaldo

Obviamente, é impossível abordar o Mundial 2002 sem falar do corte ‘à Cascão’ de Ronaldo Fenómeno: o astro do ataque brasileiro apresentou-se com grande parte do cabelo rapado, como habitual, mas com um pequeno tufo à frente. O penteado surpreendeu e foi motivo de troça a nível mundial; anos mais tarde, o ex-atacante explicou o que pretendia com um corte tão inusitado. «Continuava com muitas dores [joelho direito], estava apenas a 60 por cento e só se falava dos meus problemas físicos. Quando apareci com aquele corte de cabelo, todos pararam de falar da lesão. Não foi o meu melhor momento, admito. Foi muito estranho, mas foi uma forma de mudar de assunto», revelou há pouco tempo. E resultou em pleno: o Brasil foi campeão mundial pela quinta vez e Ronaldo, com oito golos na prova, foi o grande obreiro do título.

E a verdade é que, apesar de bizarro - e quase ridículo -, aquele corte tornou-se moda no Brasil: milhares (milhões?) de jovens resolveram imitar o ídolo e adotar o penteado. Entre eles, Neymar. «O corte de cabelo era legal, eu fiz também. Todos cortámos o cabelo igual ao do Ronaldo», contou recentemente em entrevista a Gerard Piqué, seu ex-colega no Barcelona.

E é de Neymar que mais se tem falado neste Mundial devido a esse aspeto. Hoje a figura maior do futebol brasileiro, o menino nascido na Vila Belmiro dominou a atenção mediática ao aparecer na estreia canarinha na Rússia, frente à Suíça, com um penteado... quase inenarrável: cabelo pintado de loiro semi-ondulado. A melhor descrição terá sido feita por Eric Cantona: ao seu estilo, o irreverente antigo avançado francês publicou uma fotografia sua com... esparguete a cobrir-lhe a cabeça e uma legenda sugestiva: «Estilo Neymar... Spaghetti al dente!»

O cabelo de Neymar fez, obviamente, as delícias das redes sociais: foi o assunto mais falado desse dia - e dos seguintes -, com as reações a variarem entre a troça e as comparações com o caso de... Ronaldo. «O hexa vem» tornou-se a hashtag mais utilizada pelos internautas brasileiros, como que ganhando de súbito um alento extra para a vitória final no Mundial. Curiosamente, esse jogo correu especialmente mal a Neymar, que optou por apresentar um penteado mais ‘conservador’ para o segundo encontro, com a Costa Rica, onde foi melhor e até marcou, fechando a vitória por 2-0.

 

A brilhantina à James Dean

Nas primeiras décadas de Mundiais (30 e 50), o estilo dominante era baseado no utilizado pelas estrelas pop da altura, tanto do cinema (onde James Dean era a principal referência) como da música (Elvis Presley): cabelo carregado de brilhantina e puxado para trás ou com risco - ao lado ou ao meio.

 

O ‘afro’ dominava nos anos 70

A partir dos anos 70, o estilo ‘afro’, muito em voga na altura com a proliferação da música soul e disco (cujos maiores intérpretes eram de raça negra), ganhou adeptos um pouco por todo o mundo. O alemão Paul Breitner foi dos maiores porta-estandartes do movimento, aliando a barba ao cabelo - diz-se que chegou a ter problemas de pele por ter uma barba tão espessa.

 

Cabelos longos como as ‘hairbands’ da moda

A Argentina de 1978 ficou na história por ter ganho o Mundial pela primeira vez, mas também pelo estilo adotado pela maioria dos seus jogadores: cabelos longos e desgrenhados, à semelhança do que se verificava então com as bandas de rock - as chamadas ‘hairbands’, como Aerosmith, Kiss, AC/DC ou Led Zeppelin.

 

O famigerado ‘mullet’

Nos anos 80, uma das modas capilares mais seguidas foi a dos ‘mullets’, um tipo de corte que deixa o cabelo mais volumoso no topo e nos cantos inferiores. Rod Stewart ou David Bowie deram-lhe uma expressão mediática nas artes e Chris Waddle, prolífico avançado inglês, transportou-o para os palcos do Itália 90.

 

O budismo criou Il Codino Divino

Roberto Baggio foi provavelmente um dos melhores futebolistas italianos de sempre. E teve, provavelmente, um dos piores penteados também. Em 1994, depois de se converter ao budismo, o 10 italiano começou a usar um rabo de cavalo... estranho, com tranças que pareciam claramente estar fora do seu habitat capilar normal. E assim se tornou ‘Il Codino (rabo-de-cavalo) Divino’.

 

Como Valderrama, só David Luiz

Falar de penteados que fizeram furor em Mundiais e não falar de Carlos Valderrama era quase um crime. Um dos melhores colombianos de sempre, o criativo cafetero marcou a história da prova com o seu cabelo cacheado em 1990, 1994 e 1998. Este estilo só viria a ter um sucessor em 2014, pela cabeça de David Luiz.

 

A majestosa tarântula de Taribo West

Possivelmente o mais desconcertante penteado de sempre apresentado em Mundiais. Em 1998, o nigeriano Taribo West chegou a França com tranças verdes que formavam uma espécie de tarântula por cima da cabeça. Quatro anos depois, já com menos cabelo, o aranhiço estava reduzido a dois totós.

 

Ronaldo ‘à Cascão’ para desviar atenções

Após três épocas de quase inatividade, devido a duas lesões gravíssimas no joelho direito, Ronaldo Fenómeno chegou ao primeiro Mundial asiático com um corte de cabelo incompreensível. O penteado foi motivo de troça, mas foi pensado ao pormenor para desviar as atenções dos problemas físicos. Resultou em pleno.

 

Beckham... é Beckham

Quando se fala de futebol e moda, o nome de David Beckham é o primeiro que surge à baila. E nos Mundiais não podia ser diferente: em 1998, apresentou-se com um corte ao melhor estilo das ‘boysband’ que então ditavam as tendências. Quatro anos depois, adotou um corte moicano que viria a tornar-se moda durante largos anos - em 2014, Vidal e Raul Meireles ainda eram orgulhosos representantes do movimento.

 

O ultra-nacionalista Dirar

Não conhecemos as convicções políticas de Nabil Dirar, mas ninguém pode duvidar da sua paixão pelo seu país-natal. Neste Mundial, na Rússia, o antigo jogador de Leonardo Jardim no Monaco adotou um penteado moderno, mas com uma nuance significativa: a bandeira de Marrocos desenhada (e pintada) no cabelo por cima da orelha direita. Se a moda pega...