Câmara dos comuns

Uma proposta política

No próximo ciclo político, os dois maiores partidos portugueses estarão mais próximos. Depois da polarização que a ‘geringonça’ trouxe à Assembleia em 2015, a aproximação entre PS e PSD não era exatamente expectável ou óbvia. No entanto, essa aproximação é já uma realidade. Tanto no aspecto interno - com Rui Rio a comunicar mais com António Costa do que com o seu próprio grupo parlamentar - como no aspecto ideológico e programático. 

 Em 2019, socialistas e sociais-democratas defenderão igualmente três coisas: a responsabilidade orçamental, o que não era nada óbvio há quatro anos, o combate à corrupção, o que não era nada óbvio há oito anos, e o habitual Estado social. A responsabilidade orçamental, a que em tempos chamámos ‘austeridade’, foi generalizada como bom-senso. De Centeno a quem quer que trate de Finanças no PSD, o rigor passou a ser regra. Ou seja, deu-se uma uniformização positiva entre os dois partidos. No que diz respeito ao combate à corrupção, ambos o defenderão porque ambos necessitam desesperadamente de descolarem do estigma antes que a credibilidade partidária fique entregue ao Bloco de Esquerda e eventuais réplicas populistas. Se PS e PSD passaram a viver igualmente para o défice em nome da sobrevivência económica do país, matarão naturalmente qualquer aparência de corrupção em nome da sua própria sobrevivência. No fundo, outra uniformização positiva entre ambos.

Daqui a um ano, então, os dois partidos de poder terão pela primeira vez em comum esses dois princípios saudáveis: as contas certas e os cadastros limpos. O ponto, todavia, não é apenas o que PS e PSD terão em comum em 2019 mas o que conseguirão não ter em comum em 2019. Face à colagem institucional de Rio à liderança de Costa e à colagem orçamental de Costa às metas de Bruxelas, o que separará realmente o partido de Governo e o partido de Oposição? Muito pouco. Talvez pouco demais. 

A partir do momento em que há uma comunhão de prioridades e de spin tão intensa entre as duas maiores forças políticas, qualquer novo protagonista (ou eventual sucessor...) terá necessariamente de trazer ideias que se destaquem com evidência e concretização. Não faz sentido falar em ‘novos líderes’ sem falar nessas novas ideias. Ora, antes de fazer diferente tem-se a missão de não dizer o mesmo. O nível de exigência de quem ambiciona aparecer é tão maior quanto for a uniformização daqueles que estão hoje na cadeira. Num quadro de consensos, a diferença tem de ser verdadeiramente boa para valer a pena redesenhar a paisagem. Mas só a diferença verdadeiramente boa tornará a gerar uma alternativa - e, com ela, a alternância.