Desporto

Sousa Cintra. Regresso a um clube que lhe deu momentos de glória e de desgraça

Tornou-se uma figura pública a partir do momento em que assumiu a presidência do Sporting Clube de Portugal. Durante os seus três mandatos, e apesar de muito investimento, a equipa de futebol do Sporting só conquistou um troféu, a Taça de Portugal de 1995/96, e, mesmo assim, com a final da competição a realizar-se numa altura em que já era Santana Lopes o presidente 

Mais de 20 anos depois, José Sousa Cintra regressa ao Sporting, ainda que seja temporariamente. O empresário vai assumir por apenas dois meses o cargo de presidente da SAD do clube leonino, ou seja, até às eleições de 8 de setembro. Apelidado por Bruno de Carvalho como o «homem de tremoço», Sousa Cintra já prometeu deixar o trabalho porque «após as eleições virá outra direção». Afasta uma candidatura ao clube e explica: «Já fiz três mandatos e achei que era uma obrigação minha dar este contributo ao Sporting. O que quero é entregar à nova direção uma coisa em condições. Há tanta coisa a tratar em cima da hora, mas a vontade é grande», tem referido ao longo da última semana. 
Mas é certo que o seu regresso surgiu numa altura em que o Sporting enfrenta um momento difícil. O mesmo tinha acontecido em 1989 quando chegou ao clube onde esteve seis anos. Nessa altura, o  Sporting vivia uma enorme crise financeira e não só não havia dinheiro para pagar salários como também não havia para pagar as contas da eletricidade. O clube não chegou a ser recuperado totalmente pelas suas mãos, mas, pelo menos, investiu nas modalidades e nos jogadores para o futebol. Ganhou apenas um título, a Taça de Portugal em 1995, mas já não era presidente. Acabou por ser Pedro Santana Lopes a erguer o troféu depois de ter assumido a presidência.

Do seu mandato ainda perdura na memória de muitos a contratação de Bobby Robson em 1992 e com ele também chegou a Alvalade um jovem português, com funções de tradutor: José Mourinho  que, mais tarde, se tornaria o braço direito de Robson quando este foi treinar o Futebol Clube do Porto, ganhando maior protagonismo no Barcelona. 
Quase um ano depois, Sousa Cintra aproveitou os ordenados em atraso do Benfica e levou para a Alvalade os jogadores Paulo Sousa e Pacheco. Uma decisão que levou os adeptos sportinguistas a levarem-no aos ombros até à tribuna. «Esta é uma brilhante vitória do Sporting que deixa o Benfica de mão estendida», disse, na altura. 

Para a história ficou também a inauguração em 1994 do Museu do Sporting. Sempre viu o futebol como uma paixão clubista e como uma satisfação pessoal onde não se ganha nada. 

Mas o apoio à sua presidência rapidamente chegou ao fim. Primeiro com a saída de Figo para o Barcelona com o jogador a culpá-lo por não ter acompanhado a oferta e depois com a ideia de transformar o clube num grupo de notáveis onde Cintra não tinha lugar. 

Agora, de volta ao Sporting, promete reforços e não abdica do título. Depois de uma tentativa falhada em trazer de volta Jorge Jesus, anunciou no passado fim de semana José Peseiro para treinador dos leões. «A ambição de José Peseiro é também a minha, que é a do Sporting ser campeão esta época. É claro que se ele não tiver ‘matéria-prima’ à altura das exigências do Sporting será difícil, mas vamos contratar reforços de qualidade e apresentar-nos à altura dos rivais e da luta pelo título», prometeu aos sportinguistas, no dia em que o clube celebrou 112 anos.

Quem é Sousa Cintra?

Um empresário ‘versátil’: é desta forma que José de Sousa Cintra é visto pela maioria dos empresários  que partilharam com ele alguns negócios ou apenas vivências.  A sua última aventura no mundo dos negócios foi anunciada em setembro de 2015, quando a sua empresa Portfuel – Petróleos de Portugal obteve permissão por parte do executivo para iniciar a prospeção de petróleo e gás natural no onshore (em terra) algarvio, nas zonas de Aljezur e de Tavira, na sua primeira incursão na pesquisa de hidrocarbonetos. Mas no ano passado foi surpreendido com a notícia de que  o Governo  ia rescindir os contratos para prospeção e exploração de petróleo no Algarve. 

Quando soube da notícia, teceu duras críticas ao Executivo: «Estão a brincar com os empresários e com as empresas. Eu tenho vários contratos para cumprir, tenho pessoas a trabalhar, tenho vários compromissos, e o secretário de Estado não quer saber disto para nada. É alérgico à iniciativa privada? É alérgico aos empresários? Não dá para entender», afirmou, na altura.

Mas a verdade é que o seu percurso começou cedo. Numa entrevista confessou que era um homem que trabalhava de noite e de dia e que nem tempo tinha para dormir. «Também não preciso de dormir muito, apenas cerca de quatro a cinco horas por noite. Deito-me com os problemas, levanto-me com eles. Sou um escravo do trabalho, de manhã à noite, sem parar. Até mesmo de carro, do escritório para a fábrica, aproveito para trabalhar e dito para um gravador o que preciso de fazer. Tirando o almoço e o jantar, trabalho cerca de 16 horas por dia. E levanto-me muito cedo, pelas sete da manhã», revelou numa entrevista dada ao Correio da Manhã em 2003.

José de Sousa Cintra nasceu no Algarve, no seio de uma família humilde da aldeia de Raposeira, em Vila do Bispo, em outubro de 1944. Mas cedo trocou os livros da escola para receber uns ‘trocos’ na venda dos caracóis, onde batia porta a porta de balde em punho. Nessa altura ninguém acreditaria que iria ter um papel de relevo no mundo dos negócios, apesar de muitos terem representado verdadeiros fracassos.

Nas férias da escola chegou a trabalhar na Pousada Infante de Sagres e foi aí que a sua sorte mudou. Conheceu D. Manuel, conde de Caria, homem de negócios com interesses nas águas engarrafadas e na hotelaria, que costumava fazer férias naquela unidade hoteleira. O conde acabou por deixar um cartão com os seus contactos para o caso de Sousa Cintra precisar de alguma coisa – um cartão que mudou a sua vida. Aos 15 anos veio para Lisboa com um objetivo simples: pedir emprego ao aristocrata. Foi trabalhar como ascensorista no Hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade e, a partir daí, tudo mudou.

Aos 16 anos entrou como voluntário para a Marinha, mas nessa altura já tinha feito os conhecimentos certos. E, com ou sem cunha, foi parar à especialidade de transmissões e colocado na Estação Radionaval de Sagres, a poucos quilómetros da sua terra natal. Saiu de lá quatro anos depois. Pelo meio casou-se com uma professora de Lagos e, cumprido o tempo de tropa, nasceu o filho Miguel. No entanto, o casamento durou pouco tempo.

Sousa Cintra comprou ao conde de Caria a Vidago Pedras Salgadas no princípio dos anos 80 e anunciou um investimento de um milhão de contos numa cerimónia muito mediática em Trás-os-Montes.

O negócio seria vendido, já nos anos 90, ao grupo Jerónimo Martins. Cintra vira-se então para o imobiliário, uma área que conhecia muito bem desde o 25 de Abril de 1974, primeiro como intermediário entre pequenos proprietários na Costa Vicentina e grandes investidores. Mas só depois da revolução é que começou a ver a sua fortuna a crescer.

Como? Muitos proprietários de terrenos refugiaram-se no Brasil e tentavam desfazer-se de tudo a qualquer preço. E é aí que entra Cintra. Comprava esses terrenos quase ao desbarato para os vender, mais tarde, a preços muito mais altos.

A par dos negócios imobiliários, alargou então o império das águas – e chega às Pedras Salgadas, cuja empresa tinha terrenos e hotéis, que vendeu por 12 milhões de contos, nos finais da década de 90, ao grupo Jerónimo Martins – um negócio que, mais tarde, lhe trouxe verdadeiras dores de cabeça ao ter de enfrentar a barra do tribunal. Nessa altura, já apresentava uma das maiores fortunas de Portugal. E já tinha assumido entretanto o cargo de presidente da assembleia-geral da Associação Industrial Portuguesa (AIP).

Mais tarde, o empresário veio admitir que, em todas as atividades que desenvolveu, tinha paixões distintas. «No imobiliário ganha-se mais. A indústria é uma luta com mais trabalho, maior dedicação e responsabilidade. Hoje em dia, para vencer nos negócios, é preciso ter coragem. No setor das cervejas, muito importante para a nossa economia, fiz um investimento de 15 milhões de contos, mas com um grande orgulho e satisfação pessoal. Eu tenho dado a minha quota parte para o país. Tive coragem de dar um contributo tão grande num momento particularmente difícil», referiu nessa mesma entrevista.

Apesar da riqueza, nessa altura, Sousa Cintra pouco ou nada era conhecido junto do tecido empresarial português. Acabou por se tornar uma figura pública a partir do momento em que assumiu a presidência do Sporting Clube de Portugal. 

Negócio da cerveja

Depois de abandonar a presidência do Sporting voltou a dedicar-se em exclusivo à atividade de empresário. Em 1998, no Brasil, fundou a Drink In, que se iniciou na produção de cerveja com uma fábrica em São Paulo, a que se seguiu outra no Rio de Janeiro. Em dois anos tornou-se o quarto maior produtor de cerveja do Brasil e quis ser líder das águas neste mercado. O negócio acabou por ser vendido em 2007. Mas também lhe trouxe dissabores.

O certo é que o sucesso chegou a ser tão grande que o fez apostar no mercado português com a marca Cintra. Investiu 75 milhões de euros na criação de uma fábrica em Santarém, em 2002, mas, sem alcançar vendas capazes de escoar a produção, acabaria por vender o negócio em 2006 à Iberpartners, cujos acionistas eram Jorge Armindo, Vasco Pereira Coutinho, Esmeralda Dourado, António Bernardo, a família Amorim e Estela Barbot.

Pelo meio passa pela barra do tribunal. É acusado de inside trading no processo da oferta pública de aquisição (OPA) da Jerónimo Martins à Vidago Melgaço Pedras Salgadas. Em causa estava a venda da Vidago e a ação avançou pelas mãos do Banco Privado Português (BPP), mas Sousa Cintra acabou por ganhar o processo, em 2004. A ação cível reclamava uma indemnização de 1,8 milhões de euros que, com juros, implicaria uma verba a pagar de 2,5 milhões de euros, e alegava que Sousa Cintra teria já um acordo de venda com a Jerónimo Martins que viria a culminar numa OPA por parte desta sobre a Vidago.

O processo interposto em meados de 1999 foi contra cinco elementos do conselho de administração (CA) da Vidago, a título individual: José Sousa Cintra, enquanto presidente da empresa, e os vogais Miguel Cintra, Paulo Morgado, Luís Leyva e Ângelo Correia. A Portuguese Smaller Companies Fund do BPP acusou Sousa Cintra de que já estaria, à data de aquisição das ações por si detidas, a negociar com a Jerónimo Martins (JM) a sua venda. A 9 de novembro de 1996, Sousa Cintra e Soares dos Santos (presidente da JM) chegaram a acordo para a venda, e a sessão especial de bolsa da OPA sobre a Vidago ocorreu em 23 de janeiro de 1997.

Durante a ação em tribunal foi alvo de fortes críticas por parte do empresário Joe Berardo e de Paulo Morgado, diretor-geral e administrador da Vidago entre 1995 e 1998. Paulo Morgado negou ter sido o interlocutor da Vidago no negócio com a JM, reconhecendo, contudo, ter defendido a ideia da necessidade de realizar uma parceria com um grupo distribuidor para aumentar as vendas das águas. Paulo Morgado afirmou que «vários membros do conselho de administração da Vidago queriam que Miguel Sousa Cintra se envolvesse mais na empresa», já que seria uma forma de ultrapassar a «aleatoriedade» do pai. «A relação entre pai e filho era formal. Por vezes, Miguel sabia tanto ou menos que os outros» membros do conselho de administração da Vidago, salientou.

Já o presidente da Metalgest, Joe Berardo, que em julho de 1996 vendeu a posição na empresa por, alegadamente, Sousa Cintra lhe ter garantido que o negócio da Vidago iria permanecer na família, afirmou em tribunal sentir-se «prejudicado pelo teatro que José Sousa Cintra fez».

A Metalgest alega que se desfez, com prejuízo, de 9% que detinha na Vidago, e por isso interpôs uma ação cível contra o empresário, pedindo uma indemnização de 1,3 milhões de euros.

Mas o desfecho desta operação também não foi feliz para a empresa de distribuição que, em 2011, se viu numa situação de aperto e foi obrigada a desfazer-se do negócio das águas.

Já em 2012, um tribunal brasileiro condenou o antigo presidente do Sporting a pagar 20,4 milhões de euros de indemnização à empresa Petrópolis. Na sequência deste processo, um tribunal português ordenou o arresto dos bens.

Na altura, Sousa Cintra dizia sentir-se «totalmente tranquilo» e «completamente descansado» quanto ao desfecho do caso.

O caso remonta a 2008, ano em que Sousa Cintra foi condenado, por um tribunal arbitral brasileiro, a pagar 25 milhões de dólares, cerca de 20,4 milhões de euros, à Petrópolis. Considerando que fora por culpa da empresa que não se verificara o negócio de venda da fábrica de cerveja Cintra no Brasil, o empresário requereu o cumprimento da cláusula penal do contrato, que impunha uma indemnização de 25 milhões de dólares à parte incumpridora.

O facto de o ex-presidente do Sporting ter criado uma Fundação Sousa Cintra, em 2010, para a qual passou todos os seus bens, incluindo casa e recheio, foi usado como argumento pela Petrópolis de que o empresário tentava dispersar os bens para evitar pagar a indemnização. À data da legalização da fundação, o seu património estava avaliado em cerca de 20 milhões de euros.

Mais polémicas

Os problemas de Sousa Cintra não ficaram limitados apenas à barra dos tribunais. O empresário também enfrentou conflitos com o poder local quando decidiu cortar o acesso à praia do Tonel, em Sagres, colocando um portão no caminho público. A Câmara de Vila do Bispo chegou a autorizar a obra, mas acabou por recuar após protestos populares. Aliás, as divergências começaram ainda antes, quando mandou fechar o acesso público ao mar na Pedra da Bala, onde tinha mandado construir uma casa que foi embargada por não respeitar os condicionamentos do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

Estes investimentos chegaram a ser alvo de fortes críticas por parte dos seus conterrâneos, que o acusaram de comprar tudo, mas de mais tarde deixar ao abandono. Um dos casos mais polémicos foi o da urbanização das Esparregueiras, situada ao lado da estrada de acesso ao cabo de São Vicente. O loteamento, com cerca de duas centenas de fogos, beneficiou de um alvará dos anos de 1980, mas esteve abandonado.

O mesmo caminho teve o lagar da cooperativa Cartoil, em Ferreira do Alentejo. Foi apresentado em 2011 como o segundo maior lagar do mundo, representando um investimento de 16 milhões de euros, mas um desentendimento entre Sousa Cintra e o seu sócio, Carlos Olavo, levou ao abandono do projeto. Na altura, justificou este desfecho: «Fui enganado e não meto lá mais dinheiro.» Um argumento diferente do seu sócio: de acordo com Olavo, Sousa Cintra, quatro meses depois de ter assinado os documentos para entrar na empresa, quis desistir e pediu que lhe entregassem três milhões de euros. «Disse-lhe que não tinha o dinheiro no imediato e, a partir daí, recusou assinar cheques para pagar aos fornecedores», revelou.

Estreia no negócio dos combustíveis 

Depois de ter investido nas mais variadas atividades, foi a vez do mercado de combustíveis, ao criar a rede de postos de abastecimento Cipol. Atualmente conta com 80 postos de venda em todo o país e chegou a anunciar a ambição de se transformar numa rede de gasolineiras low-cost. Em 2015 volta a ser notícia quando anunciou que ia avançar na pesquisa de petróleo no Algarve, que acabou agora de forma inesperada.

Já no ano passado, o Governo decidiu suspender, com efeitos imediatos, os trabalhos de captação de água que a Domus Verde, uma empresa de Sousa Cintra, estava a realizar em Aljezur para o desenvolvimento de um projeto de agricultura biológica. A decisão surgiu no seguimento de uma inspeção extraordinária da Inspeção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (IGAMAOT), da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e da GNR. Em causa estaria a quantidade de água que estava a ser retirada e que excedia aquela que tinha sido aprovada pela Associação Portuguesa do Ambiente. A verdade é que esta ação de fiscalização surgiu depois de ter dado entrada uma queixa crime contra os trabalhos que estavam a ser realizados.