Falar baixinho

Todos precisamos de dormir

Sou muito tolerante e flexível em praticamente tudo, exceto na hora de dormir. As casas com crianças transbordam vida e alegria, mas também são mais exigentes e cansativas. O tempo de sono é aquele em que nos revitalizamos para o novo dia. E ainda antes disso, quando os mais pequenos vão para a cama, é fundamental que os mais velhos aproveitem para ter algum tempo de tranquilidade. Por isso me preocupa tanto ouvir amigos dizerem que ficam a adormecer os filhos e que acabam por adormecer com eles, ou que terminam a noite com a cama cheia.

Quando digo que sou implacável na hora de dormir não me refiro à hora em si. Durante a escola é importante deitar cedo, o que à partida se traduz em mais horas de sono. Mas sem essa obrigação, ou se se proporciona adiar a hora de deitar, não me parece que haja problema algum. As crianças são tanto mais flexíveis e práticas quanto nós formos também e adaptam-se naturalmente às mudanças e sem qualquer prejuízo. O problema é quando a hora de ir para a cama se transforma em horas de ir para a cama. E a hora do sono se transforma em muitas horas acordados. Aqui sim, tem de haver firmeza e pouca flexibilidade, para o bem de todos.

Os pais insistem que o problema dos sonos tem a ver com as crianças e que há umas mais fáceis do que outras ou que é uma questão de sorte. Naturalmente as crianças não são todas iguais e, tal como os adultos, há umas que gostam mais de dormir do que outras. Mas o adormecer sozinho, dormir a noite inteira e respeitar a hora de ir para a cama tem sobretudo a ver com hábitos, segurança e disciplina.

Tudo começa no berço, embora até uma certa altura seja natural o bebé adormecer no colo ou a mamar sem haver consequências mais tarde. A questão é quando não se promove também a independência e caso os bebés tendam a acordar demasiadas vezes ou em não adormecerem sozinhos os pais não tentem contrariar. É natural e essencial uma criança adormecer sozinha. Sentir segurança suficiente para o fazer e para dormir a noite toda sem ter de procurar o conforto dos pais ou voltar a adormecer sem ajuda caso acorde. Muitas vezes os pais ficam com os filhos no quarto horas a fio até que estes adormeçam, já cansadíssimos, entrando numa rotina que se torna cada vez mais difícil de quebrar. Acontece que enquanto os pais estão no quarto os filhos mantêm-se acordados em vez de entrarem naturalmente no sono que depois também não é tão profundo nem retemperador. Outras vezes, já cansados, os pais levam os filhos para a cama e então aí é o princípio do fim. Não há nada mais seguro e confortável do que a cama dos pais e, ao descobrirem este paraíso, dificilmente a sua cama voltará a ser a primeira escolha.

Sei bem como às vezes parece difícil contrariar hábitos que parecem tão enraizados, mas é importante ter paciência, criar rotinas e acreditar que as crianças conseguirão seguir o seu caminho do sono sozinhas e em segurança, que será também um sono mais profundo e importante para a sua independência. E para isso não é preciso, nem se deve, deixar as crianças a chorar até ficarem roxas - como algumas pessoas defendem. Devemos sim prepará-las para o sono, guiá-las com carinho, compreensão, bom-senso e firmeza. Por outro lado, para quem ainda não criou esses hábitos, que se tornam prisões para todos, é importante que não os promovam ou alimentem. Para que a hora de dormir não se transforme numa tortura, quando tem tudo para ser precisamente o contrário.