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Um peixe chamado Gigi

O restaurante abriu em 1984, mas Gigi está à sua frente há 33 anos. Um local que é o cartão de visita do empreendimento mais caro do país: a Quinta do Lago.

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Tudo começou com a ponte de madeira. André Jordan, o criador da Quinta do Lago, sabia que para vender o novo complexo turístico teria que conseguir que as pessoas chegassem à praia. Daí a construção da ponte. Depois era preciso criar um apoio de praia que vendesse além dos sumos e outras bebidas alguma comida, tendo então Jordan desenhado o projeto que entregou depois ao arquiteto brasileiro Osmar de Castro. «Queria um projeto rústico mas de qualidade», recorda Jordan. E assim nasceu o pavilhão também conhecido por nave, com capacidade para 85 pessoas sentadas.

Um ano antes, com a inauguração da discoteca ou boîte, como se dizia na altura, Pátio, na Casa Velha, Jordan convidou o seu amigo Manecas Moceleck para ficar à frente dos destinos da casa de diversão noturna. Uns músicos chilenos que fugiram da ditadura de Pinochet encontraram refúgio na boîte do empresário polaco, também ele um exilado político quando a sua família fugiu ao nazismo.

Depois, segundo Jordan, os chilenos ofereceram-se para ficar com o pavilhão de praia onde apostaram tudo nos ceviches, corria o ano de 1984. Aqui entra o famoso Bernardo Reino, vulgo Gigi. «Os chilenos faziam o melhor ceviche do mundo, nomeadamente o de corvina. Eu, à época, parava no Passos, mas como não gostava de multidões comecei a frequentar o restaurante deles. Só que na altura o ceviche não era moda nem conceito e os chilenos acabaram por sair».

Jordan recorre então a Manecas Moceleck, que convida Gigi para o acompanhar. «Na altura só fazíamos comida para bêbedos. Salada de atum com feijão frade, saladas tropicais e também tínhamos um costeletão». «O restaurante não era a praia do Manecas e, por isso, no ano seguinte ficou só o Gigi, depois de um amigo comum, o Filipe Vieira da Rocha, me ter sugerido o seu nome», recorda o homem que deu vida à Quinta do Lago.

Em 28 de maio de 1986 Bernardo Reino começa então a vender marisco e peixe grelhado, num figurino já idêntico ao atual, tornando-se rapidamente um sucesso entre estrangeiros e portugueses. «O Gigi tem uma grande popularidade: não fala nenhuma língua estrangeira mas comunica com eles com a sua personalidade. É adorado pela qualidade que põe em tudo», diz Jordan. E acrescenta: «A Quinta do Lago tem casas que valem 20 milhões de euros, mas a coisa mais importante da Quinta é o Gigi. Ele é o símbolo da qualidade e da sofisticação. Recordo-me de dois episódios bem demonstrativos disso. O Umberto Agnelli [pai do atual presidente da Juventus, Andrea] ainda vinha no avião e ligava, através do rádio do piloto, para o restaurante do Gigi a encomendar o almoço. Mal aterrava deslocava-se logo para o restaurante e só depois ia a casa». Gigi recorda-se disso e de andar com Andrea ao colo. «O outro episódio», diz André Jordan, «foi quando a neta de Franco, Carmen Martínez-Bordiú [que anunciou recentemente que vai abandonar Espanha para vir viver para Portugal] foi ao restaurante com o seu novo marido, Jean-Marie Rossi, um antiquário francês. Carmen falava, falava e o marido não dizia nada. Até que no final de almoço, que teve todas as grandes iguarias de peixe e de mariscos, se virou para mim e disse, olhando para a paisagem: ‘Isto é o cúmulo da civilização’». 

Pelo Gigi passaram muitas celebridades da Fórmula 1, de Ayrton Senna a Nigel Mansell, da economia, Karl Auto Pull, da monarquia, Carolina do Mónaco, ou da música como Mark Knopfler. «Sempre mantive a privacidade dos clientes que por aqui passaram e passam», diz Gigi. 

Mas afinal o que tem de tão especial um restaurante onde as mesas de madeira são corridas, os toalhetes são de plástico e os empregados são de uma grande simplicidade e eficácia? Para vários clientes ouvidos o segredo passa por dois aspetos: o carisma de Gigi, a qualidade dos carabineiros, camarões, amêijoas, lavagantes e lagostas, além do melhor peixe, quase tudo da costa algarvia. E agora também os ceviches que arruinaram os chilenos.

Ah! Em 1985, o pavilhão que dá guarida ao restaurante estava cercado por areia das dunas. Hoje, está rodeado de uma imensa horta onde há pessegueiros, videiras e couves galegas, entre outras iguarias hortícolas. «Os meus grelhadores adoram refrescar-se na sombra das árvores e, por isso, fizeram um verdadeiro oásis», remata Gigi. Para o ano, o restaurante muda de poiso, recua uns metros, mas vai manter o mesmo espírito de sempre.