Sociedade

O mistério da cadeira da queda de Salazar

A cadeira que está na posse do Colégio Militar pode não ser aquela de onde o ditador caiu. E há diferentes versões da história: uns referem que a cadeira se partiu e foi atirada ao mar pela governanta e outros afirmam mesmo que a cadeira nunca existiu. A que o SOL fotografou fazia parte da mobília do Forte de Sto. António. Mas não terá sido essa a da queda.


Como publicado na edição anterior, fonte do Exército afirmou ao SOL que a cadeira na fotografia acima - que está atualmente nas instalações do Colégio Militar - era a cadeira que fazia parte da mobília de Salazar presente no Forte de Santo António da Barra, no Estoril. Mas será que é a cadeira de onde Salazar caiu? Há quem diga que não.

A dúvida surge logo no tipo de cadeira. Vários autores referem que Salazar caiu de uma cadeira de lona, como as dos realizadores dos filmes. A cadeira que está agora na posse do Colégio Militar não corresponde a essa descrição.

Além disso, há a possibilidade da cadeira ter ficado partida na sequência da queda do ditador. Joaquim Vieira publicou em 2010 um livro chamado A Governanta, onde conta a história de Maria de Jesus Caetano Freire, a governanta de António de Oliveira Salazar. Na obra, o jornalista relata que, a 10 de setembro de 1968 - pouco mais de um mês depois da queda de Salazar da cadeira -, Maria de Jesus afirmou ao Diário de Notícias que a cadeira se «desconjuntou» durante a queda. O facto de Salazar ter «o hábito de se deixar cair nas cadeiras, em vez de se sentar» - como conta Américo Tomás, o último Presidente do Estado Novo, no seu livro Últimas décadas - pode ter provocado a quebra da cadeira.

Por outro lado, um livro de Fernando Dacosta intitulado Máscaras de Salazar refere que, dois dias depois do acidente, a governanta que acompanhou o ditador durante mais de 40 anos, «furiosa», partiu a cadeira e atirou-a ao mar. Há mesmo quem fale da existência de um manuscrito da governanta, onde a famosa Dona Maria contará que decidiu desfazer-se da cadeira, mandando-a ao mar.

A obra de Fernando Dacosta refere ainda que a cadeira nunca foi encontrada, apesar de todos os esforços feitos por uma equipa de investigadores. 

E se não houver cadeira?

A cadeira de lona ficou conhecida por ter conseguido derrubar Salazar - o que a Oposição não conseguiu fazer - e tê-lo levado a abandonar o poder após de 40 anos. Mas há quem defenda que a história é falsa e que a tal cadeira nunca existiu.

O barbeiro de Salazar, Manuel Marques, contava que o antigo chefe do Conselho não caiu de uma cadeira, mas sim que tombou desamparado no chão. «Salazar não se apercebeu, nessa manhã, que a cadeira, onde se deveria instalar, se encontrava fora do sítio. O dr. Salazar era muito educado, mas muito cabeça no ar», lembrava, segundo contou Fernando Dacosta, numa entrevista à Visão em 1998.

Outra testemunha, a última criada de Salazar, Rosália Araújo, afirmou à TSF no passado dia 2 de agosto que não se lembra de ninguém ter falado em nehuma queda. «Depois, mais tarde, é que ouvi essa versão, porque eu nunca me lembro de alguém dizer que ele tinha caído da cadeira. As cadeiras que havia lá no corredor eram cadeiras de verga, assim como as mesas», contou, afirmando que o presidente do Governo nem nunca se sentava nas cadeiras.

Já Jorge Queiroga, realizador da série televisiva A Vida Privada de Salazar, defende - como é retratado na série - que afinal Salazar caiu na banheira e que a queda da cadeira não aconteceu. O realizador afirma que se baseou numa investigação «séria e profunda» do roteirista Pedro Marta Santos e do jornalista António Costa Santos. «Além de muita pesquisa cruzada, baseámo-nos no relato de uma pessoa, ainda hoje viva, que assistiu a tudo e que acompanhou Salazar da casa de banho até à cama, mas que pediu para não ser revelada, o que nós respeitámos», contou Jorge Queiroga ao Diário de Notícias em 2009.

A história da queda de Salazar da cadeira de lona, madeira, ou qualquer outro tipo de material, parece ser um mistério que continua, e continuará, por desvendar.

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