Páteo das Cantigas

A polémica que deu jeito ao Bloco…

Houve tempo em que o PCP tinha, em exclusivo, o ‘alvará’ para atribuir o estatuto de ‘reaccionário’ ou ‘fascista’ a quem melhor entendesse, por não se identificar com a ortodoxia vigente ou não demonstrar fervor revolucionário. A leitura, breve que seja, dos jornais da época é elucidativa. Sabe-se no que deu.

Com o desaparecimento dos partidos comunistas na Europa, o PCP conseguiu sobreviver, acantonado no aparelho sindical e em alguns ramais do Alentejo (onde já foi mais influente), e especializou-se na organização de ‘eventos’, desde greves a manifestações de rua, até à organização anual da Festa do Avante!, a bem do robustecimento dos cofres do partido.   

O que não estava nas previsões do PCP era o aparecimento de uma concorrência mais engenhosa e modernaça a disputar-lhe o ‘alvará’ e a assentar praça nas televisões e noutros veículos mediáticos.

 Os ‘neocomunistas’, como já são identificados, em pouco se distinguem programaticamente do ‘velho’ PCP. Mas gozam dos favores dos media e usam um discurso que entra bem nos sectores jovens mais politizados e não assusta a burguesia instalada - que é, aliás, a sua marca de origem, sem vestígios de mãos calejadas... 

Dantes, e pressentindo o perigo, o PCP aliviava-se tratando com medido desdém por ‘grupelhos’ os partidos que se fundiram no Bloco de Esquerda. Porém, quando este deixou de ser o ‘partido do táxi’ - em disputa ombro a ombro com o CDS, à direita - e ultrapassou em votos o PCP, o ‘caldo entornou-se’.

É certo que o bloco não tem influência sindical nem autárquica - e não se confunde com ‘gente da ferrugem’ -, nem consegue melhor do que um acampamento esotérico, a léguas de distância da Festa do Avante!.

Em contrapartida, apresenta-se com «caras larocas (Jerónimo de Sousa dixit…), dirigentes de colarinho aberto (ao estilo do grego Tsipras), e com pergaminhos académicos blindados, sem exames ao domingo ou equivalências com ranchos folclóricos. 

Não obstante, o Bloco anda num desassossego, mal refeito da história da ‘casinha’ em Alfama do seu ex-vereador Robles, com promessas de lucros milionários, e das confirmadas inclinações de Catarina Martins pelo turismo rural, co-financiada pelos mesmos fundos europeus que execra no seu discurso soberanista paroquial.

À míngua de enraizamento social fora dos circuitos urbanos, a sobrevivência do Bloco no espaço público depende da visibilidade que conseguir nos media. Precisa de aparecer regularmente para fazer ‘prova de vida’, o que nem sequer é problemático, atendendo à permeabilidade das redacções à ‘esquerda chique’.

O rocambolesco episódio surgido à volta do convite da Web Summit a Marine Le Pen para intervir no certame (como o fizera, anteriormente, com outros demagogos internacionais encartados, sem que ninguém se escandalizasse) foi um dos ‘pontos de fuga’ do Bloco aos embaraços das tentações ‘capitalistas’ de alguns dos seus membros. 

A Web Summit é uma ‘feira tecnológica’ - muito ao estilo do Rock in Rio em versão internet - que montou tenda em Lisboa, apoiada em boa parte por dinheiros públicos.

O convite, posteriormente retirado, foi ouro sobre azul para o Bloco desviar as atenções do ‘sarilho’ de Alfama - e para travar o alastramento das investigações jornalísticas às realidades patrimoniais dos seus membros mais proeminentes. 

Mas Marine Le Pen tem uma ‘marca’ forte que a extrema-esquerda inveja, até porque o seu movimento herdou, em larga medida, muitos militantes comunistas, desiludidos com a extinção do Partido Comunista francês. 

Os extremos tocam-se e convergem, por exemplo, no ódio à Europa e ao euro - em nome de um soberanismo de opereta - ou à NATO, enquanto convivem bem com regimes autoritários. São devotos do populismo, servindo-se de várias ‘causas fracturantes’.

Conhece-se o desfecho da história. O Governo e o Município lisboeta fingiram que não era nada com eles, e o organizador do evento, à cautela, preferiu dar o dito por não dito para não comprometer o chorudo contrato «em que estão investidos 3,9 milhões de euros durante estes três anos», segundo o bem informado Bloco. 

Foi tão caricata a renúncia como insólito o desatino bloquista. Claro que o recuo de Paddy Cosgrave, o iluminado irlandês organizador da Web Summit, matou o evento mas salvou o tesouro...  

Doravante, aconselha-se ao astuto CEO, para evitar maçadas, que submeta previamente a lista de oradores convidados ao ‘visto’ do Bloco, além do Município e do Governo, que financiam.

Le Pen tem razões para estar divertida. Mas o Bloco respira de alívio. A história da ‘casinha’ de Alfama esfumou-se no palco mediático. Segue-se a regionalização encapotada, a reboque do PS e do PSD de Rui Rio...