Economia

Madeira. Turistas em fuga

Costa exigiu que fossem feitos estudos por causa dos limites de vento aplicados ao aeroporto. Nada aconteceu. A perder turistas e receitas, o Governo Regional quer solução imediata.

Em 2016, o setor do turismo na Madeira cresceu de uma forma que levou os empresários do setor a acreditar que se perspetivava um desempenho igual no decorrer de 2017 e 2018. No entanto, o ano passado terminou com más notícias: o aeroporto da Madeira foi o único no país a registar uma descida no número de movimentos de aviões (tanto nas partidas como chegada). Com madeirenses e turistas a ter o avião como único meio de transporte regular para outras regiões e países, o Governo Regional da Madeira garante que não pode continuar a braços com os cancelamentos de voos provocados pelas condições meteorológicas e endureceu a posição: os limites de vento do aeroporto têm de ser revistos já para o ano e devem passar a ser recomendações. 

As reivindicações foram feitas à Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC) e passam por duas fases. Os limites têm de ser revistos nos próximos meses. Até lá, devem, no imediato, deixar de ser «obrigatórios/mandatórios» e passar a «alertas».

De acordo com as contas feitas pelo Governo Regional, o número de operações afetadas por ventos superiores aos que estão estipulados tem aumentado muito nos últimos três anos. Só nos primeiros meses deste ano, o condicionamento neste aeroporto foi «praticamente igual a todo o ano de 2017».

Além de estar a afetar quem mora na Madeira, a situação tem afetado e muito a atividade turística, o principal pilar da economia da região, correspondendo a 25% do produto interno bruto.

Na base deste endurecer de posições está também o facto de há muito se esperar uma posição da ANAC. Recorde-se que, em maio, António Costa esteve na Madeira e não escondeu ser necessário melhorar as condições técnicas deste aeroporto. Para isso, ficava claro que teriam de ser exigidos ao regulador estudos com a «prontidão possível».

No entanto, a situação parece continuar a arrastar-se e, de acordo com o Governo Regional, o tempo apenas acentua as penalizações para a região.

A verdade é que, ainda que esta guerra seja já muito antiga, tem vindo a piorar com o aumento de cancelamentos nos voos, com as perdas no turismo e ainda com a posição de alguns especialistas. 

De acordo com pilotos com muita experiência de aterrar no aeroporto do Funchal, os limites de vento não só não se justificam como a região «tem estado a ser castigada com uma decisão burocrática».

Na Comissão Especializada Permanente de Economia, Finanças e Turismo sobre a Avaliação da Operacionalidade do Aeroporto Internacional da Madeira - Cristiano Ronaldo, Timóteo Costa, também instrutor e examinador, garante que «os ventos têm influência quando realmente estão a afetar e não é por estar no papel». À semelhança de muitos outros profissionais do setor, Timóteo Costa defende que «50 a 70% dos aviões que andam às voltas e vão embora, e nem sequer tentam aterrar, aterrariam em plena segurança». Um dos argumentos mais usados por quem defende a rápida alteração das regras é que o limite obrigatório data de 1964 e tem vindo a manter-se inalterado apesar das sucessivas expansões do aeroporto e das novas tecnologias entretanto introduzidas.

Miguel Albuquerque foi dos primeiros a fazer o verniz estalar. Quando no início do ano se multiplicaram cancelamentos de voos com destino à Madeira, o chefe do executivo criticou o preço dos bilhetes e os cancelamentos regulares. «Pedir mais de 600 euros para fazer 900 km é demais», defende Miguel Albuquerque, acrescentando que o clima está longe de ser o único problema de quem quer fazer ligações entre o Continente e os arquipélagos e há quem fale em situações que parecem ser de «terceiro mundo».

Os madeirenses assistem a cada vez mais cancelamentos, a imprensa local aponta para situações de overbooking - em que estudantes chegaram a ser expulsos de aviões por falta de lugares - e há até relatos de atletas e empresários a andar de um lado para o outro à espera de um voo disponível. 

Para o Governo Regional é cada vez mais imperativo perceber que os madeirenses não têm apoio «a nível marítimo» e, «se há dinheiro para meter nos bancos, tem de haver para isto».

Recorde-se que, recentemente, os alarmes dispararam quando se ficou a saber que a Madeira estava a perder quota nos dois principais mercados emissores de turistas. De acordo com a ANA - Aeroportos, a região entrou em 2018 com um travão no setor do turismo, que serve de base à região. Em apenas um mês, a Região Autónoma perdeu 25% no mercado alemão e 15% no britânico. Para travar esta tendência, o Governo aprovou um plano de um milhão de euros para uma campanha de promoção «agressiva» para o Algarve e Madeira. No entanto, para os madeirenses a solução fica aquém do necessário - querem soluções imediatas para o aeroporto.