Opiniao

O que dirá Centeno?

Finalmente a Grécia celebrou o fim do resgate, após oito anos de troika. Graças a estes ‘exploradores’, foi possível salvar a Grécia da falência e evitar uma Venezuela na Europa. Foram injetados cerca de 290 mil milhões de euros em 2010 - os quais a esquerda, nunca agradecida e sempre reivindicativa, queria ver perdoados, total ou parcialmente. 

Claro que, nestes momentos especiais, a esquerda bloquista - que já considera Tsypras um burguês traidor, ainda por cima feliz com o facto de a Grécia ter reconquistado a sua soberania económica -- só se lembra de salientar os terríveis sacrifícios e provações que o povo grego atravessou nestes anos. 

O caos que se evitou com a intervenção da troika não interessa ser relembrado! 

 

No meio deste charivari, entre discursos inflamados e indignados com o discurso de Centeno, tenho uma dúvida: terá Varoufakis, expoente máximo dessa ‘esquerda caviar’, aberto uma garrafa de champagne a celebrar tamanho feito (porque o é mesmo!), entre acérrimas críticas ao presidente do Eurogrupo, comparando-o ao líder da Coreia do Norte? 

Centeno, como presidente do Eurogrupo, teve, contudo, um discurso muito sóbrio e realista, em que - para além de se congratular com este momento histórico - recordou os desmandos de um passado que os gregos continuam a pagar com língua de palmo, tal como Portugal em Abril de 2011. 

As críticas internas do período da troika feitas durante todos estes anos, de que o PS, o PCP e o Bloco foram férteis agentes, ficaram bem esquecidas pelo nosso ministro das Finanças. Foi muito curioso notar estes dois pesos e duas medidas de Centeno - mas a realidade é que, tendo dois ‘chapéus’, tem mesmo dois discursos. A Grécia, tal como Portugal em 2014, reconquista a sua soberania. Também Passos Coelho, a quem a esquerda nunca reconheceu o mérito, teve de governar sob o jugo férreo da troika, trazida pela dupla Sócrates/Teixeira dos Santos.

 

Aliás, a esquerda parece que nunca aprende. Basta uma folguinha orçamental, sobretudo em vésperas de eleições, e, em nome da estabilidade governativa, a palavra de ordem volta a ser «devolver rendimentos espoliados durante a troika». 

Ao ouvirmos Marques Mendes, percebemos que assim é. No seu comentário semanal de domingo passado, anunciou algumas das medidas puramente eleitoralistas do OGE 2019: descida do IRS, descida do IVA na energia para talvez 13% (enquanto Bloco e PCP pedem 6%), atualizações de pensões, sobretudo das mais baixas, bem acima da inflação, e integrações na Função Pública. Tudo despesa estrutural!

Que diz Centeno, presidente do Eurogrupo, a tudo isto? O mesmo que Teixeira dos Santos - que deixou Sócrates arruinar o país, no pensamento esquerdista e ruinoso do primado da política sobre a economia? Ou fará frente a Costa, com este ansioso por distribuir rendimentos para encurtar caminho para a maioria absoluta - para depois, já com a maioria no bolso, apertar ferreamente a tenaz durante dois ou três anos, na gestão do novo período eleitoral? 

 

Os sinais de fragilidade perante as reivindicações dos professores encabeçados pelo PCP, por muito legítimas e populares que sejam, ou as cedências transversais a horários de 35 horas na Função Pública, nada auguram de bom. Onde irá partir a corda? Ou irá Centeno (ministro das Finanças) digerir sapos, esperando que o desequilíbrio estrutural das contas públicas só apareça depois de ele sair do lugar, deixando um presente envenenado a quem lhe suceder?

 

P.S. 1 - A morte de Kofi Annan veio unir no pesar tantas nações agradecidas a alguém que soube deixar um legado. Prémio Nobel da Paz em 2001, foi acérrimo defensor de conciliações e feroz combatente destas guerras insanas, sejam quais forem os motivos. Um ‘homem de causas’, descanse em paz!

P.S. 2 - Outro legado deixou PQP, empresário industrial de referência nacional, que conheci lateralmente mas que admirei profundamente - e tenho pena de nunca ter tido a oportunidade de lho dizer, entre cumprimentos circunstanciais. Um homem que soube fazer a diferença neste país cheio de invejas da riqueza alheia, com tantos incapazes de reconhecer o emprego criado pelo investimento teimoso de um visionário que sempre acreditou no seu país.