O mundo em calções

O resto é silêncio...

Há certamente para lá do espelho de Alice tantos mistérios como na vã filosofia de Horácio. Por isso é que ela perguntava: «Qual a importância de um nome?» E, como muitas das suas perguntas, esta também ficou sem resposta.

Há nomes para a literatura e há nomes para ficarem para lá dos nomes. Lewis Carroll podia esconder Charles Lutwidge Dogdson. Já Coutinho escondia Antônio Wilson Vieira Honório, o que tem muito que se lhe diga. Nelson Rodrigues, por exemplo, queixou-se: «Lembro-me que ao ouvir falar em Coutinho, pela primeira vez, tomei um susto. Comentei, então, de mim para mim: ‘Coutinho não é nome de jogador de futebol!’. De facto, o nome influi muito para o êxito ou para o infortúnio. Napoleão, se tivesse outro nome, já seria muito menos napoleónico. Outro exemplo: por que é que Domingos da Guia foi o que foi? Porque esse ‘da Guia’ dava-lhe um halo de fidalgo espanhol, italiano, sei lá. Ainda hoje, o sujeito treme quando ouve falar em ‘da Guia’. Mas o Coutinho tem contra si o nome. O sujeito que se chama apenas Coutinho dá logo a ideia de pai de família, de Aldeia Campista, Vila Isabel, Engenho Novo, com oito filhos nas costas e a simpatia pungente de um barnabé. Pois bem. Apesar de chamar-se liricamente Coutinho, o meu personagem da semana é um monstro, um Drácula, um ‘Vampiro da Noite’ de futebol. Eu não sei se me entendem a imagem. Mas o Coutinho não sugere outra coisa, senão o sujeito que come a bola de uma maneira, por assim dizer, material, física. Ao sair de campo, parece-lhe escorrer dos lábios o sangue, ainda vivo, ainda efervescente da bola recém-vampirizada».

Coutinho fazia parte da letra de um dos sambas mais bonitos da história do futebol. Ia assim: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Toda a gente o sabia de cor. Não era Vieira, não era Wilson, não era Honório: era Coutinho. Pelé e Coutinho, na frente de ataque do Santos, foram aquilo que, mais tarde, Pelé e Tostão representaram na seleção brasileira: os reis da tabelinhas. Por isso o seu nome por extenso não teve a importância de uma pergunta feita no País das Maravilhas, ele que também foi o Príncipe da Vila e o Pé de Vidro. Pelé pode ter aparecido na equipa principal de Vila Belmiro aos 16 anos, mas Coutinho surgiu aos 14. Era um menino, mas não em inho...

 

Em 1957, o ano em que Coutinho vestiu pela primeira vez a camisola do Santos, havia um comentador de rádio muito famoso no Brasil chamado Ernani Franco. Os brasileiros brincam um bocado com os acentos circunflexos. Metem-no no Antônio de Coutinho e tiram-no do Ernâni de Franco. Enfim, manias... Ernani, sem agá e sem acento, embirrou com o nome de Coutinho tanto como Nelson Rodrigues. Tentou convencê-lo a chamar-se Toninho. Honório não esteve pelos ajustes: qual Toninho?; seria Coutinho, com u, acrescentando uma letra à sua alcunha de infância, Coutinho, ele que ainda nem conseguira ver-se livre da infância. Ficou Coutinho. E não tardou a ficar para sempre ao lado de Pelé na parede branca da memória de todos os que os puderam ver juntos, gémeos do golo, como aconteceu numa noite abracadabrante no Estádio da Luz, em 1963, arrasando o Benfica campeão da Europa.

Pelé e Coutinho eram retintos e ás vezes confundiam-nos: «Quando eu fazia uma jogada linda, falavam que era o Pelé. Quando eu errava um passe ou chute, era o Coutinho». Nunca suportou a injustiça. Por isso, quando acabou a carreira calou-se. Nem jornais, nem rádios, nem televisões. Abandonou as palavras e fechou-se dentro da sua concha de ressentimento.

Coutinho talvez tivesse escondida dentro de si a simpatia pungente de um barnabé mas, em campo e frente às balizas, não tinha nada de humilde pai de família. Era invejoso dos seus golos na medida em que era generoso nos que oferecia a Pelé. Um dia, Tostão escreveu sobre ele: «As tabelinhas entre Coutinho e Pelé, foram as mais bonitas do mundo. Coutinho se movimentava em um ou dois metros, recebia a bola e, antes do zagueiro antecipar, tocava de primeira para Pelé, que voltava para Coutinho, que voltava para Pelé, até um dos dois fazer o gol. Coutinho era um centroavante fino e que, raramente, fazia um gol de longe ou com um chute forte. Seus toques eram curtos e precisos. Às vezes, a bola nem balançava as redes. Coutinho tratava a bola com tanto carinho, o que é raro no centroavante, que ela, agradecida e seduzida, parecia beijar seus pés». 

Irritado com as confusões, Coutinho passou a jogar com um lenço branco amarrado ao pulso direito. Não voltaria a ser Pelé. Nem Honório, nem Toninho. E esfumou-se como Hamlet: «O resto é silêncio».

afonso.melo@newsplex.pt