Opiniao

Amarante: liturgia à centralidade urbana…

Desde pequeno que convivi com a cidade de Amarante, com o seu património simbólico, com as suas gentes, com as suas façanhas contra os franceses e os heróis na defesa da sua ponte. 

As memórias de minha avó Deolinda de Almeida Matos (1919-2005), uma espécie de matriarca, corriam entre momentos de entretenimento e fantasia. Ela contava e recontava de forma apaixonada as histórias fantásticas e maravilhosas da sua cidade natal. Uma espécie de liturgia à memória e à saudade. Ficou-me como lição a importância da memória como uma espécie de gramática fundacional que nos permitia entender e imaginar o mundo.

Nesses momentos de convivialidade, minha avó devolvia aos netos esse sentido cósmico e telúrico de todo um mundo maravilhoso em torno de figuras mítico-poéticas da sua infância. 

A exaltação da luta entre o bem e o mal, personificada na Croca e São Jorge, os Diabos de Amarante, São Gonçalo e o milagre dos peixes, os doces com anatomia fálica - era todo um reino fantástico que me envolvia e me dava a conhecer uma terra onde não nasci mas à qual me ligava uma espécie de fio original. 

Uma história inteira feita de homens cultos, santos, artistas, estadistas, empresários, sonhadores e poetas, entre um povo simples de homens e mulheres que faziam do seu viver uma epopeia transformadora.

Uma cidade que fazia das liberdades da sua beetria, da sua paisagem, da sua arquitetura, do seu espaço público, do seu heroísmo uma estrutura progressista e cosmopolita, sem nunca recusar o seu passado como um estimulante necessário para a inovação e transformação cultural. Uma cidade onde aristocracia rimava com filantropia, amor às artes e às ciências. Onde as elites dialogavam com os saberes e as artes de uma Europa universal e moderna. Pascoaes e Amadeo souberam como ninguém fazer da escrita e da arte uma ponte criativa entre o local e o universal.

A cidade de Amarante organiza-se em função de um rio, de uma estrada real, que antes de ser real já era eixo viário por onde circulavam povos e civilizações muito antigas. 

Integrada neste contexto eco-topológico de forte singularidade, a cidade gatinha pelas colinas, agarrando-se ali, descansando acolá, desenhando com tempo e sabedoria neste palimpsesto de matriz antiga, palácios e capelas, ruas e becos, casebres e sobrados, cercas e mosteiros, fontes e jardins, passeios públicos e varandas. Espraiando-se ao longo deste dorso, saltando de margem e deslizando pelas suas cotas baixas, a cidade vai desenhando ruas e fachadas, construindo pontes e novas praças.

Nos dias de hoje, essa qualificação arquitetónica e urbanística passa pela elaboração de planos e projetos que defendam valores de desenvolvimento integrado e sustentável, a partir da implementação de programas participativos de reforço da centralidade, da concentração e da qualificação da vida social, cultural e económica. A gestão das cidades e dos seus territórios implica um conjunto de políticas urbanas integradas e participadas a partir de programas qualificados e economicamente sustentáveis.

Estamos no ‘reino’ da intervenção e da programação da pequena escala, do micro e nas políticas da proximidade, instrumentos necessários para a implementação de políticas que fortaleçam as centralidades da vida urbana e a respetiva coesão social e económica dos territórios municipais. Evitando assim a cidade dispersa e fragmentada, bem à medida das políticas territoriais que promoveram um planeamento de baixa densidade fortemente especulativo, que descentrou e atomizou a vida urbana em satélites sem complexidade social e espacial.

As nossas cidades e as nossas vilas caminham de forma dispersa, confusa - e aleatoriamente vão desenhando aqui e ali formas arquitetónicas sem nexo urbano e sem integração social. 

Vivemos nestas últimas décadas no ‘reino’ do fragmento e do estilhaço, produto confuso de um urbanismo fortemente especulativo que fez da construção nova e das novas acessibilidades (IPs e ICs, Variantes, etc.) o seu modus operandi. 

Passados os apertos da crise e da intervenção da troika, lá aparece novamente o discurso da nova construção e da descentralização em nome da municipalização. Uma municipalização que favorece a dispersão e rejeita a centralidade das suas cidades e das suas vilas. Neste contexto, a cidade de Amarante é, sem dúvida alguma, um modelo inspirador e estimulante para a recentralização da nossa vida urbana.