Internacional

Moon foi a Pyongyang tentar desbloquear negociações com os EUA

O presidente sul-coreano encontrou-se com Kim Jong-un para diminuir as tensões na fronteira e encontrar um terreno comum entre Washington e o regime norte-coreano


Foi com abraços, sorrisos e apertos de mão que o líder norte-coreano, Kim Jong-un, recebeu o seu homólogo sul-coreano, Moon Jae-in, no aeroporto de Sunan, em Pyongyang, para se retomarem as negociações sobre a desnuclearização da Península da Coreia. Em pano de fundo está o impasse diplomático entre Washington e Pyongyang, depois da histórica cimeira entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder norte-coreano, em Singapura. 

“O mundo inteiro está a observar-nos e desejo mostrar os resultados da paz e prosperidade aos povos do mundo”, disse Moon. Em resposta, Kim mostrou-se esperançoso sobre o avanço dos esforços para se alcançar a paz na península: “Graças a isso [cimeira de Singapura], a situação política na região estabilizou e espero mais resultados”. 

Depois da receção no aeroporto, num evento pormenorizadamente coreografado pelo regime norte-coreano, Moon e Kim dirigiram-se em parada, entre cânticos de “Reunificação! Reunificação!”, até à sede do Comité Central do Partido dos Trabalhadores, em Pyongyang, onde retomaram as negociações. O próximo encontro de alto nível está agendado para esta quarta-feira.

A visita de Moon à Coreia do Norte, a primeira de um chefe de Estado sul-coreano em 11 anos e a terceiro encontro com Kim este ano, acontece num momento em que tanto Washington como Pyongyang se encontram num impasse diplomático por terem perspetivas diferentes sobre o acordado em Singapura. Para Washington, Pyongyang comprometeu-se com a total desnuclearização da península, enquanto Pyongyang afirma que a cimeira apenas definiu que no futuro novos passos seriam dados, não se comprometendo com a desnuclearização imediata. Para este bloqueio contribuiu, em grande medida, a ambiguidade da declaração emitida por Trump e Kim no final do encontro. 

Nos últimos meses, Pyongyang garantiu ter encerrado o seu principal local de testes nucleares e de mísseis, mas um relatório das Nações Unidas revelou que o regime continua a produzir armas nucleares, violando a declaração e as sanções internacionais impostas pelo Conselho de Segurança da ONU. 

Com este cenário, o presidente sul-coreano tem, segundo o “Washington Post”, dois objetivos com a sua visita, que espera ver espelhados numa declaração conjunta pós-encontro. Em primeiro lugar, diminuir as tensões na fronteira mais militarizada do mundo. Para isso, Moon não descarta a possibilidade de retirar alguns postos fronteiriços, desarmar uma zona nas proximidades da vila fronteiriça de Panmunjom e reduzir a presença militar na fronteira marítima.

Já o segundo objetivo, o de reduzir a tensão entre Washington e Pyongyang para se retomarem as negociações, poderá ser mais difícil de alcançar. “Se o diálogo entre a Coreia do Norte e os EUA recomeçar depois desta visita, terá imenso significado por si só”, disse Moon antes de viajar para Pyongyang. 

Como primeiro passo, o presidente sul-coreano pretende abordar o tema com “franqueza”, “procurando encontrar um terreno comum entre as exigências dos EUA para a desnuclearização total e a exigência da Coreia do Norte de se garantir a sua segurança e o fim das hostilidades”, segundo o chefe de gabinete do chefe de Estado sul-coreano, Im Jong-seok, citado pelo jornal norte-americano. Pyongyang exige a Washington que declare a Guerra da Coreia (1950-53) formalmente terminada - o conflito acabou apenas com um armistício, mantendo-se oficialmente em vigor até aos dias de hoje.

Por sua vez, Pyongyang considera que as responsabilidades do impasse diplomático recaem única e exclusivamente sobre os Estados Unidos. “É por causa da sua teimosia irracional absurda que outras questões só podem ser discutidas depois de o nosso país ter verificado completamente e de forma irreversível as nossas capacidades nucleares”, escreveu em editorial o jornal oficial do regime norte-coreano, o “Rodong Sinmun”. “A responsabilidade é diretamente dos Estados Unidos”, acrescentou.

Em Seul, uma outra possível estratégia para ultrapassar o impasse tem ganho força: a da “declaração por declaração”, ou seja, a de que a emissão de um documento unilateral por um dos lados seja rapidamente acompanhada por uma posição similar do outro. No entanto, o chefe de gabinete de Moon alertou para o risco de se criarem expectativas exageradas sobre os resultados da visita de três dias do chefe de Estado sul-coreano. No entanto, e se a visita for bem sucedida, há quem acredite que uma segunda cimeira entre Trump e Kim poderá acontecer nos próximos meses.

Os comentários estão desactivados.