Opinião

No BCP foi assim

As empresas privadas são soberanas na resolução dos seus conflitos, mas assim não entendeu o governador, que achou que poderia dispor - e dispôs - de uma empresa que valia em Bolsa mais de 10 mil milhões de euros e tinha mais de 150.000 acionistas, prejudicando todos e causando a ruína de muitos.

 

Em crónica anterior, atrevi-me a falar das responsabilidades do Governo Sócrates e do Banco de Portugal na destruição do sistema financeiro. Foi um ‘Deus nos acuda’ de mensagens e comentários, a comprovar que a ameaça ‘Quem se mete com o PS… leva!’ permanece atual.

O texto limitava-se a recordar a forma errática como os Drs. Teixeira dos Santos e Vítor Constâncio lidaram com a crise financeira, mas há quem não goste que os crimes sejam lembrados. Não lhes faço o jeito! E volto ao assunto, agora a partir do caso que conheço melhor: a estatização do BCP.

Eis os factos: na noite de 21 de dezembro de 2007, o Dr. Constâncio convocou um grupo de acionistas do banco para uma reunião que tinha por objetivo único substituir os seus órgãos dirigentes. A iniciativa não era inédita: quatro meses antes, o tristemente famoso ‘grupo dos 7’ propusera a destituição dos cinco administradores. Porquê? Porque se tinham oposto à entrega do BCP à Sonangol. A violação dos Estatutos foi explicada às autoridades, mas nada aconteceu: a petrolífera era a nova rainha do Sabá, a quem todos faziam vénias.

As empresas privadas são soberanas na resolução dos seus conflitos, mas assim não entendeu o governador, que achou que poderia dispor - e dispôs - de uma empresa que valia em Bolsa mais de 10 mil milhões de euros e tinha mais de 150.000 acionistas, prejudicando todos e causando a ruína de muitos.

Falando de números... Quererá o Banco de Portugal revelar quanto estão a custar à banca os convidados do Dr. Constâncio? A fazer fé no que diz a imprensa, as dívidas andarão pelos 6.000.000.000 de euros. Viu bem: seis mil milhões de euros!

Poderia dizer-se que está tudo dito, mas não está. Entre os convidados do governador estavam a CGD, o BPI e o BESI, os dois primeiros representados pelos presidentes. Dito de outra forma, o Dr. Constâncio concertou-se com um grupo de caloteiros e com três bancos concorrentes... para decapitar o BCP!

Para que fique claro, o governador agiu, cirurgicamente, na noite da sexta-feira que precedia quatro dias de encerramento da banca - sábado, domingo, véspera e dia de Natal -, em que os ativistas puderam manobrar à vontade. 

Tanto assim que, logo na manhã seguinte, reuniram na sede da EDP, agora a convite do seu presidente, para escolherem a nova equipa de gestão. Surpresa… eram os delegados de Sócrates! Enquanto isso, a propaganda oficial tratava de apresentar a estatização como um facto consumado, e a ‘ocupação selvagem’ como uma vulgar ação de supervisão. Acreditando na isenção do Banco de Portugal, os acionistas não questionaram a entrega do banco à CGD - e quando se deram conta do logro, já não havia volta a dar. Chapeau!

A primeira fatura não tardou a chegar: desvalorização de 80%, só em 2008. As seguintes viriam com os aumentos de capital necessários para repor os fundos próprios consumidos por uma gestão suicida. 

Foi o início de uma vaga de destruição que arrastou os maiores bancos nacionais. Salvaram-se o Totta e o BPI… porque pertenciam ao Santander e ao La Caixa.