Opiniao

Marcelo receia António Costa?

Poderemos ter um Presidente da República prisioneiro da chantagem que a máquina socialista faça sobre ele?

Há dias, um amigo fazia-me a seguinte pergunta: «Como explica que o Marcelo tenha deixado cair tão facilmente a Joana Marques Vidal»?

A resposta que espontaneamente me ocorreu foi: «O Marcelo tem medo do António Costa».

Julgo que, de facto, é essa a razão de fundo.

A complacência que Marcelo Rebelo de Sousa tem revelado relativamente ao Governo da ‘geringonça’, pondo-lhe a mão por baixo em alguns momentos difíceis, tem sido explicada pela vontade de não hostilizar os socialistas, essenciais para a sua reeleição.

E isso é verdade.

Marcelo é um tático, faz permanentemente cenários, e sabe que, para ser reeleito com a percentagem esmagadora que ambiciona, tem de contar com o apoio ativo de muitos socialistas.

E como ‘amor com amor se paga’, Marcelo tem de dar uma ajuda ao Governo quando ele precisa.

 

Mas não é só isso.Marcelo é um homem que não gosta de lutas, que detesta confrontos, que recua rapidamente quando é contrariado para não entrar em choque frontal - e estar em guerra com António Costa é a última coisa que ele quererá.

Recordemo-nos de uma célebre campanha para a Câmara de Lisboa em que Marcelo Rebelo de Sousa foi vencido por Jorge Sampaio.

A poucos dias da ida às urnas havia um frente-a-frente decisivo, que toda a gente acreditava que Marcelo venceria com alguma facilidade - pela sua felina rapidez de raciocínio e criatividade na argumentação.

Pois Marcelo perdeu claramente esse debate.

E porquê?

Porque se atemorizou perante Sampaio.

Porque não foi capaz de o enfrentar, de o contestar, de o encostar à parede.

E Jorge Sampaio acabou por ganhar essas eleições.

 

Hoje, o líder do PS não se chama Jorge Sampaio mas António Costa - porém, a situação é semelhante: Marcelo Rebelo de Sousa tem receio de o enfrentar.

Até porque António Costa é mais manhoso, mais maquiavélico, mais impiedoso do que Sampaio.

Veja-se o que Costa foi capaz de fazer a António José Seguro, espetando-lhe a espada até ao fim.

Se Marcelo se atrevesse a fazer oposição a ele e ao seu Governo, o primeiro-ministro faria tudo para o destruir.

Poria a funcionar a poderosa máquina socialista de informação e contrainformação - e Marcelo Rebelo de Sousa ficaria em muito maus lençóis, até porque tem muitos pontos fracos.

Não se esqueça a campanha que foi feita contra Cavaco Silva pela máquina socialista nas presidenciais de 2011 - e cujos efeitos ainda hoje se fazem sentir.

A atual histeria contra o último livro de Cavaco, aliás, ainda é um resquício desse tempo.

Ora Marcelo não quer que isso lhe aconteça  - nem em sonhos.

Por isso, sustentará e até apoiará o Governo das esquerdas até ao fim.

 

Dir-se-á que, em dois momentos, Marcelo Rebelo de Sousa foi padrasto para este Governo: no caso dos fogos de 2017, em que fez um discurso duríssimo que acabou por provocar a demissão da ministra Constança Urbano de Sousa, e no caso de Tancos, em que não tem deixado de insistir na necessidade de resolver o enigma. 

Mas são dois casos extremos.

Em que o Presidente da República não poderia ficar em silêncio, sob o risco de se desacreditar.

Mas, sempre que pode ficar calado em algo incómodo para o Governo, Marcelo fica calado.

E sempre que pode dar uma ajuda, Marcelo dá uma ajuda.

Como na substituição de Joana Marques Vidal, em que até chamou a si a autoria da decisão, libertando o Governo desse ónus.

 

Deve dizer-se, em abono da verdade, que António Costa e os socialistas em geral também têm algum medo de Marcelo.

Mas é um medo diferente.

É um medo das partidas que ele lhes possa pregar.

Das malfeitorias que lhes possa fazer.

Das farpas que lhes possa lançar.

Marcelo tem essa característica de desferir ataques como quem não quer a coisa - e isso assusta um pouco os adversários.

Mas é um medo mais ligeiro, menos pesado.

Não é o medo que Costa infunde, com o seu killer instinct. 

 

Portanto, até ao fim deste mandato presidencial - e em boa parte do próximo, se Marcelo e Costa forem reeleitos, como se prevê -, vamos ter a seguinte situação: Marcelo a aguentar o Governo socialista, não fazendo nada que possa ser entendido como reiteradamente hostil; e os socialistas a dizerem bem de Marcelo, ou pelo menos a não o criticarem, temendo as partidas que ele lhes possa pregar.

Sucede que o receio que Marcelo tem de Costa é mais constrangedor para o regime - pois o Presidente da República, estando no topo do Estado, deve ter todas as condições para agir livremente, em todas as circunstâncias, sobre o sistema político. 

Em última análise, podemos ter um Presidente da República prisioneiro de uma certa chantagem que a máquina socialista faça sobre ele.

 

P.S. - O facto de as listas do material furtado em Tancos e do material ‘devolvido’ não coincidirem, confirma a hipótese que defendo desde o início de que não se trata do mesmo material. O material roubado desapareceu, este foi trazido de outro paiol (talvez Sta. Margarida) para simular uma ‘devolução’.