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O menos tecnológico dos Websummit

O Websummit já passou. Descansem todos os que se incomodam com esta perturbação da ordem pública, que tanto sofreram para conseguir um Uber na zona do Parque das Nações durante os quatro dias do evento. O Websummit já passou. Mas o que ficou de um dos maiores eventos mundiais de tecnologia?

O discurso tecnológico está a mudar. A reflexão sobre a evolução da tecnologia e a forma como vai impactar o nosso quotidiano centra-se hoje em questões éticas e comportamentais, muito mais do que em zeros e uns ou bits e bytes. Tem sido demonstrado que a tecnologia fará o que tiver de fazer, assim haja vontade (um conjunto de interesses bem mais amplo do que a necessidade) para a desenvolver, e a capacidade que tem para nos surpreender, por vezes pasmar, é provavelmente a maior evidência da sua capacidade. Claro que há muito caminho para percorrer, precisamos de mais conhecimento, desenvolvimento e experiências para conseguirmos que a tecnologia contribua para solucionar os problemas dos nossos dias e dos que estão para vir. Neste aspeto, basta um périplo atento pelos stands do Websummit para ficarmos tranquilos: há ideias, há empreendedores e até dinheiro para investir.

No Websummit discutiram-se, ou pelo menos alertou-se para a necessidade de discutir, os temas que mais impacto vão ter na nossa relação com a tecnologia nos próximos anos: os limites éticos e morais e consequentemente as bases para a legislação e papel e dos reguladores da atividade. As barreiras que devemos definir e as que devem ser impostas são questões de fundo para determinar e mudar, num curtíssimo espaço de tempo, a forma como aceitamos e convivemos com a tecnologia no nosso quotidiano. 

Não é fácil legislar para o universo digital, uma realidade sofisticada, global e que todos os dias evoluiu a um ritmo que a maioria não acompanha. A autorregulação e a responsabilidade individual parecem, à data, não serem garantias suficientes para garantir uma saudável convivência no universo digital. Já se conhecem vários casos em que a ausência de regras e de fiscalização permitiram que fossem cometidos abusos e atropelos, que resultaram num prejuízo considerável para as pessoas e sociedade. Considerando apenas os big four da indústria – Google, Facebook, Apple e Amazon – todos já tiveram de lidar com questões relacionados com a utilização indevida de dados pessoais e partilha não consentida de informação. Se por um lado estamos mais conscientes da importância e valor dos dados pessoais, por outro a adoção de comportamentos individuais que levem à sua proteção ou a uma utilização mais controlada não é, ainda, uma evidência.

Há mais temas além das questões dos dados e da privacidade. As fake news, um eufemismo perigoso para definir uma questão de logro e mentira quase sempre intencional, é outro dos temas na agenda do dia.  Numa era em que falamos de conteúdos como nunca, em que esperamos das empresas e das pessoas uma partilha constante e imediata do que entendem que devem partilhar, o fenómeno das fake news, por muito previsível que seja, não deixa de ser uma tremenda ameaça que condiciona indelevelmente a credibilidade do mundo digital.  

O papel das marcas na regçãodo ecossistema digital não é claro. Enquanto produtores de conteúdos e dinamizadores da interação social, com um objetivo comercial assumido de forma mais ou menos explícitas, não se colocam grandes dúvidas. Mas na utilização do conhecimento das pessoas para a exploração de técnicas de venda em que se considera a venda, ou recorrendo a uma linguagem mais técnica a conversão, como a métrica determinante do sucesso, aí a questão não é tão simples. Cumprir com os requisitos legais, atuar em conformidade com o regulamento geral para a proteção de dados por exemplo, é apenas uma obrigatoriedade. Para a construção da relevância, as marcas devem procurar um papel que lhes permita ajudar as pessoas, consumidores ou não dos seus produtos, numa melhor compreensão do fenómeno digital. A pedagogia, neste caso a literacia digital é uma oportunidade, talvez até um dever, das entidades que estão mais próximas das pessoas num meio que conhecem muito melhor do que a grande maioria dos seus utilizadores.

Creio que a principal função do Websummit é fazer uma agenda dos temas mais importantes do mundo digital. Depois as conferências e palestras vivem de soundbytes, algumas marcas estão lá e não percebemos porquê, o discurso, perdão, o pitch de diferentes startups é por demais igual, além de que há muita hormona no ar e um ver e ser visto que não passa despercebido. Sem olhar a custos, o Websummit é um evento rico e útil para quem acompanha o mundo digital. Considerando os custos, então temos de comparar o Websummit com outros eventos e perceber se há formas mais interessantes de gerar o mesmo nível de retorno: um evento com projeção global, reconhecido além da sua indústria e que contribui para a afirmação do país num setor de ponta. Numa breve análise, não estou a ver outro.

*Responsável Planeamento Estratégico do Grupo Havas Media