Viver para contar

O mistério de Ronaldo

Ronaldo esta a ser tratado como um privilegiado. Que não tem os mesmos deveres dos outros. Que faz o que quer. Que joga quando quer - e quando não quer não joga. 

APÓS A IDA de Ronaldo para Itália, o jogador não foi convocado para os dois primeiros jogos da Seleção portuguesa. Especulou-se a tal respeito, mas todos aceitaram que, estando Ronaldo ainda a adaptar-se ao futebol italiano e ao seu novo a clube - ainda por cima, depois de uma transferência polémica -, era ‘simpático’ da parte do selecionador Fernando Santos não o convocar.

Mas vieram os jogos seguintes, e Ronaldo continuou a não ser convocado. Aí o problema já era outro. Ronaldo fora acusado de violação por uma americana, Kathryn Mayorga, e não estaria psicologicamente em condições de atuar. É certo que em Itália jogava pela sua equipa, e até tinha começado a marcar golos, mas ainda assim a justificação parecia razoável.

E foi bem aceite, pois boa parte dos portugueses puseram-se ao lado de Ronaldo naquela história. Eu próprio o defendi, pois pareceu-me que se tratava mais de um caso de extorsão do que de violação. A americana aproveitou-se do facto de se ter deitado com um futebolista famoso para conseguir uma fortuna. Admito que Ronaldo tenha forçado um pouco o ato sexual, mas é óbvio que Mayorga proporcionou a situação. E não ficou afetada por isso - pois depois de saírem do quarto ainda foram dançar.

ENTRETANTO, na última convocatória da Seleção portuguesa, para uma jornada que se apresentava decisiva, o nome de Ronaldo voltou a não constar. E sem nenhuma explicação. Como se já nos tivéssemos habituado à sua ausência e não a estranhássemos. Ou, mesmo, como se ele já não fizesse parte dos convocáveis.

É certo que o facto de a Seleção ter vindo a fazer boa figura sem Ronaldo também contribuiu para isso. Se tivéssemos perdido os primeiros jogos, outro galo cantaria: todos diriam que a culpa era da falta de Ronaldo. Assim, a ausência passou em branco.

NO ÚLTIMO DOMINGO, Marques Mendes apresentou uma explicação engenhosa para a não convocação do jogador: o selecionador Fernando Santos estaria a preparar «inteligentemente» a Seleção nacional para a sua saída. Mendes pôs, assim, a questão do lado do treinador e não do jogador. Não é Ronaldo que não quer ser selecionado, é o treinador que não o seleciona para preparar a equipa para o dia da sua reforma. 

A explicação não é convincente. A ausência de Ronaldo das convocatórias tem de ser muito melhor explicada.

Porque se está a criar uma situação de exceção ou privilégio que não é razoável. Um princípio fundamental para o bom funcionamento de um grupo é a existência de igualdade entre todos. É não existirem filhos e enteados. É não haver exceções nem tratamentos de favor. Ora Ronaldo está a ser tratado como um privilegiado. Que não tem os mesmos deveres dos outros. Que faz o que quer. Que joga quando quer - e quando não quer não joga.

ORA, ISTO, além de afetar necessariamente a unidade do grupo, levanta outro problema: o dos clubes. 

É sempre um risco para um clube ‘ceder’ um jogador à Seleção. Além das cansativas viagens a que os jogadores são muitas vezes obrigados, há a possibilidade de lesões. Recordo que, depois do Europeu que Portugal ganhou, o jogador do Sporting William Carvalho ficou vários meses sem poder jogar em consequência de uma fratura contraída na Seleção. Aliás, vários elementos dessa equipa campeã fizeram a seguir épocas péssimas, devido ao esforço a que foram sujeitos: para lá de realizarem o máximo de jogos, visto que foram à final, tiveram de jogar muitos minutos a mais, dado vários encontros terem tido prolongamento.

ASSIM, OS CLUBES que fornecem atletas à Seleção, sejam clubes portugueses ou estrangeiros, interrogar-se-ão: por que motivo nós temos de ceder os jogadores e a Juventus não cede o Ronaldo? Por que razão uns são prejudicados e outros beneficiados?

Tendo em conta todas estas razões, julgo que a Federação tem a obrigação imperiosa de esclarecer o que se passa com Cristiano Ronaldo. Ou ele faz parte da Seleção ou não faz. Esta situação indefinida de nunca se saber se será convocado, e porquê, é que não pode prolongar-se por muito mais tempo.