O mundo em calções

Amphilóquio e as suas circunstâncias

De cada vez que escrevo sobre Roma lembro-me do episódios da guerra das trattorias. Conto já de seguida. Salvo erro encontrei-o num dos livros de Dino Segre, ou seja, o Pitigrilli, um desses seres humanos abençoados com o dom magnífico e divino do humor. Talvez em A Loura Dolicocéfala, mas não vou jurar. Bom, havia portanto três trattorias numa das ruelas estreitas do Transtevere. Certo dia, o dono de uma delas resolveu abrir a guerra publicitária. Vai daí, colocou um cartaz à porta: «Este é o melhor restaurante do mundo!». Com ponto de exclamação e tudo. Ligeiramente irritado, o vizinho mais próximo recorreu igualmente à propaganda. Mas foi subtil. Limitou-se a uma frase de cariz assassino: «Este é o melhor restaurante da rua!».

O terceiro proprietário tinha, pelos vistos, uma noção das realidades muito mais concreta. Não virou as costas ao conflito da exposição. Lá terá pensado para com os seus botões que a escalada dos autoelogios atingira um ponto do não retorno. Então, para fugir ao ridículo, limitou-se a ser sublime. E o seu restaurante passou a exibir uma declaração simplista: «Aqui come-se».

Veio este arrazoado a propósito de Roma, para fugir aos estereótipos de Rosselini, Ana Magnani e Anita Ekberg a tomar banho na fonte de Trevi, mas eu queria era mesmo falar de Amphilóquio, o primeiro brasileiro a ser campeão do mundo de futebol, e da estranha equipa da Brazilazio. O som tem algo de familiar? Pois claro! É uma mistura entre Brasil e Lazio. Como vêem, Roma não caiu aí em cima por mero acaso, aos trambolhões do céu da imaginação.

Vou portanto até ao início da década de 1930. E à história de um rapaz brasileiro chamado Amilcar Barbury que apareceu na Lazio para tentar a sorte como jogador mas, tendo rebentado um joelho uns meses após a sua chegada, foi convidado para ocupar o lugar de treinador. Ora, este Barbury tinha sido precedido por dois outros compatriotas, filhos de emigrantes italianos do Brasil: Juan e Octavio Fantoni. Mas conhecidos por Ninão e Nininho. Convenhamos: formidável esta dupla - Ninão e Nininho. Tanto podiam ser músicos sertanejos como personagens do La Strada de Fellini. Lembram-se? Com o Anthony Quinn e a Giulietta Masina? Zampanó è Arrivato!!!.

Prossigamos na fascinante aventura do nunca mais acabar de brasileiros que começou a desaguar nas margens do Tibre nesses anos 30 em que a Itália se preparava para ser duplamente campeã do mundo de futebol. Depois de Ninão e Nininho, vindos do Palestra de Belo Horizonte, clube de italianos, claro está,  atracou em Génova o vapor Conte Verde. Era o dia 22 de julho de 1931, um daqueles dias caídos no olvido mas fundamentais para a história daquele jogo inventado pelos ingleses em redor da redondez de uma bola, essa mágica senhora das paixões, como diria o Poeta da Montanha.

Viajavam nesse navio nada menos do que o tal Barbury, que viria a ser o técnico da Lazio, Pepe Rizzeti, do Palestra Itália de São Paulo, Del Debbio, um centro-campista do Corinthians, e o interior Tedesco, do Santos. No dia 6 de Agosto, é a vez do navio Duilio entrar no porto de Génova. Traz no bojo Rato Castelli, médio-centro, Demaria, ponta-esquerda, Serafini, ponta-direita, e um extremo azougado com um nome esdrúxulo: Anphilóquio Guarisi Marques, nascido em São Paulo, em 1905, de pai português e mãe italiana. No Brasil adquirira a prosaica alcunha de Filó; em Itália seria Guarisi.

Não foi preciso muito tempo para que esta escola de samba com jeito para o futebol, todos contratados pela Lazio, que chegou a ter um total de 13 italo-brasileiros ao mesmo tempo, arranjasse umas tranquibérnias lá no Brasil de onde tinham vindo. Uma reportagem feita pelo Il Littoriali, tri-semanário que funcionava como suplemento do Corriere dello Sport, trouxe a público declarações inflamadas dos recém-chegados nas quais renegavam o seu estatuto de brasileiros e afirmavam estar, agora sim, na sua verdadeira pátria. O Jornal dos Sports não os poupou: renegados, traidores, ingratos e vendidos, foram vários dos mais suaves adjetivos que encontraram para qualificar os compatriotas.

Amphilóquio, o Filó, destacara-se no Paulistano, na Portuguesa e no Corinthians, jogara ao lado do lendário Friedenreich e fora chamado por quatro vezes à seleção do Brasil. Mas não levou a bem ter ficado de fora da convocatória para o Mundial de 1930, no Uruguai. «Eras sobre eras se somem/No tempo que em eras vem», escrevia Pessoa n’A Mensagem. Filó deixou de ser Filó e passou a ser Guarisi, nome da mãe, italiana como já vimos, e adotou a nacionalidade de tal forma que Vittorio Pozzo começou a chamá-lo para a squadra azzurra. Em 1934, Filó já não Filó, fez parte da Itália que venceu o Mundial. Era reserva, só atuou num jogo. Mas, no Brasil esqueceram o vitupério e gabam-se, hoje, de o ter como primeiro brasileiro campeão do mundo. Quanto aos portugueses, nem sabem quem é o Marques, da parte do pai. Basicamente, querem que  o Filó se quilhe.

afonso.melo@newsplex.pt