O mundo em calções

No caderno da sorte

Às vezes, Fernando Pessoa, uma daquelas figuras absolutamente universais, falava das vezes em que Deus deixava aberto o caderno da sorte e nunca uma frase terá cabido tão por inteiro na morte do jovem John Thompson, guarda-redes do Celtic, no dia 5 de Setembro de 1931. «A morte chega cedo/Pois breve é toda a vida».

Thompson sempre foi um rapaz temerário. Gabavam-lhe a coragem ou confundiam-na com loucura, mas na Glasgow operária dos anos-30, das casas sem conforto, que faziam com que os homens fugissem para os «pubs» ou para o futebol, coragem tornara-se uma palavra tão vaga como miséria. Chamavam-lhe O Príncipe dos Guarda-Redes. Esguio, meão de altura, o boné sempre enterrado na cabeça, controlando o cabelo revolto que crescia para o céu como uma palmeira. Estudara na Auchterderran Higher Grade School, mas trabalhara desde garoto ao lado do seu pai, também Jonh, na Bowhill Colliery, a mina assassina de carvão de Fife. Vejam como as coisas são: no 31 de Outubro desse mesmo ano de 1931, as fundações dos túneis colapsaram matando nove dos homens de tez escurecida pela hulha. John Thompson pai não estava lá. Chorava ainda a morte do seu príncipe.

Jimmy McGrory, o avançado dos mais de 500 golos, seu colega no Celtic, dizia: «He has artists hands!» Thompson confessara-lhe que iria ter um encontro nessa noite, no Rialto, na Hope Street, na esquina com a Sauchiehall, baile dançante com a rapariga que merecia os seus suspiros apaixonados, Margaret Finlay, empregada na fábrica Dunlop. Não conseguia esconder o entusiasmo. Mas faltou ao compromisso. «O amor foi começado/O ideal não acabou».

Samuel English era ligeiramente mais velho do que Thompson (filho): cumprira 15 dias antes 23 anos. Natural de Crevolea, na Irlanda do Norte, dava os seus primeiros passos no Rangers vindo do Yoker Athletic, tinha uma vontade extraordinária de agradar aos adeptos mais exigentes, disputava cada lance como se fosse o último da sua vida. De certa forma, foi. Só que, no caderno da sorte, a morte calhou a John.

Thompson e Margaret pensavam no futuro e o futuro iria passar por uma alfaiataria de classe, fatos caros para os burgueses de Glasgow, industriais que tinham às suas ordens exércitos de operários vindos de toda a Grã Bretanha atraídos por uma revolução económica que abalou os alicerces da Europa e do mundo. Alguns dizem que, nessa tarde maldita, Margaret estava entre as oitenta mil testemunhas do drama que se desenrolou em Ibrox Park, sentada ao lado de Jim, irmão de John; outros dizem que surgiu transtornada à porta da Victoria Infirmary para onde Thompson foi levado de urgência por uma ambulância de St. Andrews. A lenda, por seu lado, conta que no momento em que a rótula de Sammy English embateu no crânio de John, se ouviu, vindo das bancadas, um grito medonho de mulher ao mesmo tempo que um silêncio constrangido tomava conta das gargantas dos adeptos do Rangers e do Celtic. «There were gasps in the main stand, a single piercing scream being heard from a horrified young woman», relatou um jornalista do The Scotsman.

Lance fortuito. English entrara na grande-área do Celtic, completamente isolado, Thompson, sempre intrépido, voara ao encontro da bola. O joelho de Sammy quebrou o parietal do seu adversário, provocando um buraco de cinco centímetros de diâmetro. O jogo caminhava para o fim, os maqueiros apressaram-se a rodeá-lo e transportaram-no para fora de campo. Ainda ergueu a cabeça. Quereria confirmar que impedira o golo? Um dos jogadores do Rangers que estudava medicina diria mais tarde que suspeitou o pior: Thompson não voltaria a defender as balizas do seu clube. John Arlott, um dos grandes da imprensa inglesa, que também foi poeta, dedicou-lhe um texto magnífico: «A great player who came to the game as a boy and left it still a boy; he had no predecessor, no successor. He was unique!»

Às cinco horas da tarde, o dr. Norman Davidson tentou o impossível. Thompson passara por convulsões sucessivas; uma veia rompera-se na testa, do lado direito; o sangue envolvera-lhe o cérebro. Os seus esforços seriam em vão. Declarou o óbito às 21h25.

A essa hora, o jovem John Thompson deveria estar nos braços de Margaret, dançando sobre o soalho de madeira do Rialto, murmurando-lhe ao ouvido promessas inevitáveis ou, se calhar, coisas tão cheias de arrebatamento que eu não poderia transcrever aqui sem fazer corar certas almas mais dadas à pudicícia. Afinal ela tinha apenas 19 anos e uma infinidade de emoções ainda por sentir. «E tudo isto a morte/Risca por não estar certo/No caderno da sorte/Que Deus deixou aberto». 

Pois... Deus riscou John Thompson do caderno da vida..

 

afonso.melo@newsplex.pt