Sociedade

À conversa com Francisco George e Daniel Sampaio: 'Foi um erro não se ter acabado com a ADSE quando foi criado o SNS'

Une-os a preocupação com a saúde pública e uma amizade com mais de 50 anos. ‘O Daniel e o Jorge são os meus amigos mais antigos’, diz Francisco George. O ex-diretor geral da Saúde, eleito presidente da Cruz Vermelha Portuguesa em 2017 depois de se reformar, lançou esta semana o ensaio ‘Prevenir doenças e conservar a saúde’, apresentado por Daniel Sampaio. Pretexto para uma conversa com os dois sobre a história que os liga e os desafios do país.  

O SOL esteve à conversa com Francisco George e Daniel Sampaio.

Escreve que a ADSE tem contribuído para desnatar o setor público. 

F.G.: Indiretamente. Subsidiando consultas no setor privado, naturalmente é isso que acaba por acontecer. Os hospitais procuram contratar os melhores especialistas do setor público e pagar melhor graças aos financiamento que recebem da ADSE.

Os partidos à esquerda e o Governo partilham dessa leitura de que o setor público tem sido desnatado pelo crescimento do privado, mas não propõem o fim da ADSE. É um tabu?

F.G.: Eu nao sei ler isto com esquerda e direita. A ADSE nasce num tempo em que não havia hospitais públicos. No nosso tempo na faculdade de Medicina tínhamos no país ao todo três hospitais públicos, os outros eram das misericórdias. Éramos um país pobre, mergulhado numa guerra, dirigido por um ditador. É neste país que Salazar cria em 1963 a ADSE. Porquê? Porque os funcionários públicos tinham ordenados quase que simbólicos, muito baixos. Entendeu-se que para terem alguma capacidade de trabalho tinham direito a ir ao médico privado com subsídio da função pública. Houve uma inversão e nunca acompanhámos isto.

Daniel Sampaio concorda?

D.S.: Concordo a 200%, se me é permitida essa expressão. É um debate absolutamente necessário. Por exemplo a ADSE não paga aos hospitais quando os funcionários da ADSE são internados, há uma série de prorrogativas que causam disfunções. A principal é esta que o Francisco disse, de a pessoa poder optar por um serviço privado. Permitiu o desenvolvimento dos hospitais privados, e isso teve essa vantagens porque hoje temos bons médicos e boas consultas também no privado, mas ao mesmo tempo enfraqueceu o SNS.

F.G.: E são canalizados para a ADSE 600 milhões de euros por ano.

Resultam quase em exclusivo dos descontos dos funcionários públicos. Acabando a ADSE, estas pessoas terão de recorrer aos hospitais públicos e não continuariam a descontar. Haveria capacidade de resposta?

F.G.: Tem de ser tudo repensado naturalmente. Mas há uma lei básica da economia de saúde: quanto maior oferta, maior procura. 

Ao longo destes anos de amizade, que momentos recordam com mais saudade?

D.S.: Tenho muitas saudades da Maria João, mulher do Francisco, que infelizmente faleceu. As amizades que são feitas na adolescência como a nossa são geralmente muito sólidas mas a certa altura eles foram foram para África. Quando regressaram a Maria João teve um papel fundamental na reaproximação da família George aos antigos amigos. A forma como o casal nos recebia e como a Maria João cozinhava…

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