Economia

Comissões e cortes disparam lucros na Caixa

Só no ano passado, o banco público encaixou 474,2 milhões de euros com serviços e comissões. O banco fechou 2018 com lucros de 496 milhões de euros, um aumento de 854% face ao ano anterior, quando apresentou um resultado de 52 milhões de euros. Estes dois últimos anos marcam a viragem do banco para resultados positivos, deixando para trás vários anos de prejuízos.

Paulo Macedo entrou na Caixa Geral de Depósitos (CGD) e o banco começou a dar lucros. Em 2017, a instituição financeira apresentou um resultado de 52 milhões de euros e marcou a viragem do banco público para terreno positivo – o que contrasta com os números de 2016, quando apresentou perdas de 1.859 milhões de euros, depois do reconhecimento de mais de 3 mil milhões de euros de imparidades. No ano passado, os ganhos foram ainda mais significativos, registando um aumento de 854% para 474 milhões de euros. Mas estes resultados estão associados não ao homem forte da Caixa, mas à mudança de estratégia, muito assente na cobrança de comissões, aliada ao fecho de balcões e à redução de trabalhadores.

Esse caminho foi admitido pelo presidente do banco durante a apresentação de resultados, ao destacar o «crescimento de dois dígitos» dos resultado core, com a subida da margem financeira, do aumento das comissões e redução dos custos operativos.

Em 2018, o banco público encaixou 474,2 milhões de euros em serviços e comissões, o que representou um crescimento de 9,3 milhões de euros (mais 2%), face ao ano anterior (464,9 milhões de euros). Mas José Brito explica que é uma «evolução em linha com o plano estratégico».

Recuando a anos anteriores é possível encontrar valores quase semelhantes: 463 milhões em 2016, altura em que a CGD, apresentou prejuízos recorde; 498,2 milhões em 2015, atingindo mesmo os 522 milhões em 2014. 

A grande mudança assentou, sem dúvida, na redução de custos, associada ao fecho de balcões e redução de trabalhadores. O banco público passou de 1.1103,3 milhões para 1.000,9 milhões de euros. Aliás, foi com base neste critério que a Caixa negociou com Bruxelas o seu plano de recapitalização na ordem dos cinco mil milhões de euros. O banco fechou o ano passado com menos 646 trabalhadores e 65 agências face ao ano anterior.

Em dezembro do ano passado, a CGD tinha 8.321 trabalhadores na sua atividade doméstica, mas o número em dezembro de 2018 desceu para 7.675. O mesmo cenário de redução assistiu-se nas agências, passando de 587 em 2017 para 522 no final de 2018. No entanto, durante o segundo semestre de 2018, não se assistiu a uma redução no número de agências da Caixa.

De acordo com o administrador financeiro da CGD, José Brito, a redução de custos com pessoal do banco público foi de 7%, algo «totalmente em linha com os objetivos» do plano de reestruturação acordado com a Comissão Europeia.
Os cortes são para continuar e, de acordo com Paulo Macedo, a instituição financeira vai levar a cabo o seu processo de redução de pessoal para este ano e para o próximo. Para isso, tem mais 180 milhões de euros para fazer face às rescisões e pré-reforma em 2019 e 2020.

A ajudar a este resultado esteve a margem financeira, que cresceu 2,1% face a 2017, alcançando 731 milhões de euros. Já a margem financeira consolidada recuou 2,9% para 1.204,8 milhões de euros, «fortemente afetada por efeitos cambiais adversos em Angola e Macau».

Quanto ao produto bancário consolidado, este foi «fortemente impactado pela já esperada redução dos resultados de operações financeiras, dada a elevada expressão que registaram em 2017», passando de 2.015 milhões de euros para 1.786 milhões de euros no ano passado. 

Dividendos em marcha

Em cima da mesa continua a possibilidade de distribuição de dividendos na ordem dos 200 milhões de euros e, face aos resultados positivos apresentados pela Caixa, tudo indica que será possível voltar a remunerar o acionista. No entanto, tal como já tinha sido avançado em outubro, continua a faltar a autorização para isso. Mas Paulo Macedo acredita que ainda este semestre tal decisão será mesmo tomada e autorizada.

«São necessários 10 passos. O primeiro era ter resultados distribuíveis», disse, acrescentando que «há agora as consultas com as autoridades, nomeadamente o BCE, no sentido de analisar a proposta que for feita». 

Também à espera das autorizações regulatórias estão as vendas do Banco Caixa Geral, em Espanha, e do sul-africano Mercantile Bank. As alienações – que foram acordadas com a Comissão Europeia, no âmbito da reestruturação da CGD como contrapartida da recapitalização acordada em 2016 – deverão gera mais-valias estimadas em 200 milhões de euros. 

O ano passado, depois do processo de venda, foi decidido vender o banco de Espanha ao Abanca (que comprou em Portugal a operação do Deutsche Bank) e o Mercantile Bank ao fundo de investimento Capitec Bank Limited.