Internacional

PJ alerta para o potencial risco de mãe de jihadista

PJ e SIS fazem últimas diligências para confirmar que todos os portugueses que se juntaram ao Estado Islâmico foram mortos na Síria e no Iraque. Mulheres são testemunhas fulcrais.

Os portugueses que se juntaram ao Estado Islâmico, conhecidos como a célula de Massamá, terão sido todos mortos na Síria e no Iraque, segundo apurou o SOL junto de fonte da PJ. As autoridades portuguesas estão a agir com base nessa premissa, cuja confirmação, no entanto, dependerá das entrevistas às mulheres dos jihadistas, entre as quais uma portuguesa, Ângela Barreto - esposa de Fábio Poças, natural de Mem martins, que conheceu nas redes sociais, e que foi capturada em Baghouz, último reduto dos fundamentalistas islâmicos. As entrevistas serão feitas pela PJ, contando com a colaboração do SIS na investigação e recolha de informação. 

Entre os cerca de mil cidadãos europeus detidos pelas forças curdas, restam agora as portuguesas que optaram por viver no Califado, e que pretendem regressar a Portugal. Está por apurar se partiram para a Síria procurando um escape para as dificuldade do quotidiano ou tentando cumprir sonhos messiânicos de conquista. Em última instância, os critérios que definem quem é repatriado ou não dependerá de uma decisão política e diplomática, que caberá ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Tendo sempre em conta as informações recolhidas pelas forças de segurança, tal como as negociações com os restantes países europeus.

Uma dessas mulheres que procura regressar é Catarina Almeida, de 47 anos, nascida em França, filha de imigrantes oriundos da Guarda. Está hoje internada num campo de detenção em Roj, no nordeste da Síria, detida por forças curdas enquanto tentava escapar com o seu neto pequeno. Deixou para trás o seu filho, que morreu a combater pelo Estado Islâmico, e que disse ao Expresso ter sido esse o motivo da sua ida para a Síria. Contudo, uma fonte na PJ afirmou ao SOL que Catarina teria tido um papel concreto nas operações do Estado Islâmico, facilitando documentos e apoio logístico a militantes jihadistas. 

Apesar de Catarina ter dupla cidadania, França não pretende recebê-la, tendo apenas repatriado até agora crianças francesas. O Governo francês mantém que os adultos capturados devem enfrentar julgamento nos territórios onde terão cometido crimes em associação com o Estado Islâmico. Uma posição que poderá chocar com a recusa europeia da pena de morte, que muitos jihadistas arriscam enfrentar. 

Outro caso é o de Vânia Cherif, uma jovem portuguesa de 24 anos, também detida no nordeste da Síria, e cujos antecedentes estão a ser tidos em conta pelas forças de segurança, segundo afirmou uma fonte da PJ ao SOL. Vânia nasceu e viveu em Portugal até aos 11 anos, e terá sempre vivido num enquadramento de perturbações familiares, com um pai que teria tendências violentas. Após o divórcio dos pais, Vânia partiu depois para Andorra com a sua mãe, tendo seguido para França onde foi viver com o pai. Foi em França, ainda adolescente, com menos de 16 anos, que conheceu o franco-tunísino com quem viria a casar, que se terá radicalizado, juntando-se ao Estado Islâmico.

Vânia foi com o seu marido, juntamente com os seus filhos. A Polícia Judiciária considera que a jovem não terá sido muito motivada pela ideologia ou religião, mas sim procurando uma válvula de escape para os problemas que enfrentava em França, tal como para se manter junto do seu marido e das suas filhas. A mãe de Vânia tem apelado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros que permita o regresso da sua filha. Para a PJ, Vânia não representa qualquer risco de segurança, nem tem potencial para radicalizar outras pessoas. Mas como não tem capacidades económicas para se estabelecer em Portugal, a PJ acredita que seguirá para Andorra, onde vive a mãe.

O Ministério de Augusto Santos Silva informou o SOL que tem estado atento «à situação díficil em que se encontram algumas nacionais portuguesas que estiveram de alguma forma ligadas ao denominado Estado Islâmico e que viajaram voluntariamente para território controlado por aquela organização terrorista». O MNE reconhece que o assunto «requer uma análise ponderada», tal como «a articulação de vários serviços do Estado português» - entre os quais estarão a PJ e o SIS - e atendendo sempre «ao cumprimento das obrigações internacionais que vinculam Portugal, designadamente no quadro europeu». Mais de 5 mil europeus ter-se-ão juntado à luta por um Califado do Estado Islâmico. Apesar de muitos terem sido mortos ou presos, um elevado número estará ainda a monte, tendo escapado para o Egito, Líbia oriental ou outros pontos do Norte de África, aproveitando o caos da guerra civil síria. 

Quanto ao regresso de portugueses que tenham escapado às malhas dos serviços de segurança e informação não há planos de contingência, só existem para as pessoas que estão presas, têm mandatos de captura ou estão a ser investigados, segundo a mesma fonte da PJ.

Jihadistas em fuga

Um dos grandes problemas que se coloca à Europa são os jihadistas europeus que estão espalhados pelo mundo e que poderão regressar ao velho continente para realizar atentados terroristas. «É claramente um risco para todos nós», diz ao SOL Alexandre Guerreiro, investigador de segurança da universidade de Direito. Contudo, «esse debate não está a ser feito em Portugal, contrariamente a outros países, em particular no norte a Europa».

O investigador acrescenta ainda: «Não basta ter leis que punam estas pessoas por terem integrado redes jihadistas, porque vão cumprir uma pena de prisão e mais tarde ou mais cedo vão ser restituidas à liberdade». Mas o futuro destes homens e mulheres não é muito claro. «É preciso saber como é que estas pessoas podem ser integradas, se é que podem ser integradas e que forma podemos impedir que constituam uma ameaça para a sociedade». Uma das hipotéticas soluções que coloca, passam por «acompanhamento especializado de psicólogos inseridos em estabelecimentos prisionais, tal como outros atores ativos na sociedade civil. Não no sentido de abandonarem ideais muçulmanos, mas sim a componente mais extremista».