O Mundo em Calções

O sorriso triste do flamingo

O Lobito, Águas marcou dois golos ao Benfica. O povo gritava assustando os pássaros, uma nuvem rosa trepou fugindo pelo céu

Não sei se os flamingos do Tejo voam. Nunca os vi voarem. Quanto muito quietos, naquele jeito de se equilibrarem numa só perna, apenas muito ligeiramente cor-de-rosa, quase brancos, a maré vazando, pondo à mostra as areias de Alcochete e do Samouco onde os homens se enterram até aos joelhos numa febre de ameijoas.

Sei que no lago Nakuru eles voam em nuvens densas, súbitas, e enchem o céu de uma cor que simplesmente não existe porque não sei escrever-lhe um tom concreto. Eu vi-os. E ouvi-os. Cantam numa espécie de lamúria. Voei sobre eles como Robert Redford a fazer de Finch Hatton em Out of Africa e a imagem ficou-me profundamente gravada na memória em forma de poema de Olavo Bilac: «Era como se, erguendo a ponta do teu manto/Vissem, à beira d’água, abrir-se o Paraíso!».Tive direito a uma África minha sem dor na consciência. E eu gosto de África, de Lalibela, nos confins da Etiópia, à excitação da Cidade do Cabo, da última flor do Lácio de Ouidah, que foi São João Baptista de Ajudá, às águas do Níger que se vão perder no Sara. Viajei por todas as Áfricas que pude. E encontrei, em cada uma, a frase do Torga: «Um grão de poesia no teu seio!».

O futebol devia ter sempre poesia e eu gosto dos poetas que não se esquecem do futebol. Como gosto daquela poesia que sobra de histórias firmes. José Águas, avançado do_Benfica, tinha algo de flamingo na sua forma de abrir as asas elegantes e subir para bicar a bola, lá no alto da sua alma de pássaro colorido e sóbrio. E havia na sua elegância uma determinada tristeza. Só o vi jogar em  filmes e fotografias, mas conheci-o uma ou duas vezes apesar de ele não se dar a conhecer.

Também fui ao Lobito, à beira Atlântico, à Restinga e às margens do Catumbela, onde ele trabalhava aos 15 anos como datilógrafo da empresa Robert Hudson, o inglês de Leeds que espalhou por todo o lado material ferroviário que ia de locomotivas a linhas de caminhos de ferro e fez fortuna na África do Sul e na Índia. Jogava na brincadeira com os colegas e, depois, mais a sério no Lusitano do Lobito. Dizia que tinha a alma apaixonada de um adolescente sem horizontes e uma necessidade incontrolável de areia e sol. E a areia e o sol encontravam-se junto ao mar à porta da casa da infância, naquela esquina teimosa que deixa de um lado a verdade e do outro as suas consequências.

Por trás da minha casa havia a praia, o mundo em que eu havia de arranjar este sarilho de ser futebolista. Eu gostava muito da minha casa e de um pinheiro muito verde que eu plantara quando era muito mais miúdo ainda e viera há menos tempo de Luanda – a terra em que nasci e meu pai morrera».

Não sei se foi quando conheceu a morte que Águas escondeu o sorriso. Ou melhor, o sorriso estava lá mas esfumado. Um sorriso proibido de crescer e se tornar riso. Nunca lhe vi fotos a rir. Apenas aquele risco por entre os lábios, desenho indefinido, movimento incompleto.

Em 1950, o Benfica foi a África. Lourenço Marques, Beira, Joanesburgo, Luanda, Sá da Bandeira, Moçâmedes,_Nova Lisboa,_Silva Porto, Leopoldville. E Lobito, claro. Lobito, onde estava o José Águas. «Gostava imenso de estar na praia, com a minha irmã e mais três ou quatro raparigas, numa brincadeira de nunca mais acabar». Com a bola também._Bola na areia, o sol por cima, o mundo todo ele tão azul e tão calmo. Até que, mais uma vez, a morte chegou sem avisar, sinistra Senhora da Gadanha: «Depois da morte da minha mãe, a minha terra já não tinha para mim o ambiente feliz dos meus primeiros tempos. Havia a dor e a saudade no meu peito, que seriam a razão definitiva do salto que eu ia dar».

José Águas deixou as areias da Restinga e veio para Lisboa com o Benfica, no regresso. Haveria flamingos no Tejo? No Lobito havia. Quando defrontou o_Benfica pela Seleção do_Lobito marcou dois golos numa vitória por 3-1. A diferença fez-se na segunda parte. Por detrás da baliza de Contreiras, o guarda-redes dos lisboetas, o povo manifestava-se com o barulho absurdo de uma alegria plena. O ruído assustava os pássaros que trepavam fugitivos pelo céu acima. Entre eles, um bando de flamingos. Uma nuvem rosa movida a aplausos e a gritos esfuziantes. Depois chamaram-lhe a baliza dos flamingos.

José Águas marcou golos em todas as balizas, mas não voltou a marcar mais nenhum na baliza dos flamingos. O que não quer dizer que a sua vida tenha perdido a poesia. Quando, onze anos mais tarde, em Berna, ergueu a Taça dos Campeões Europeus, foi o primeiro africano a fazê-lo. E não me digam que não há, nesse gesto, qualquer coisa de poético. Talvez se tenha recordado dos flamingos e da areia, do sol e das raparigas que repartiram o sol consigo. Talvez tenha recordado um murmúrio antigo como o de Sebastião Alba: «Ninguém meu amor/ninguém como nós conhece o sol...».

Há muita poesia nessa imagem. Um flamingo vermelho não consegue ir para além de um sorriso quase triste. É que a tristeza não está nas coisas, está em nós...

afonso.melo@newsplex.pt