Opiniao

Mais um mamarracho... e daqueles

O mamarracho reproduzido nesta página está plantado numa das zonas centrais de Coimbra, à Solum, perto do Estádio Municipal da Cidade do Conhecimento (como agora é moda chamar-lhe por alusão à sua antiquíssima universidade).

Trata-se de um prédio de três andares, sem rés do chão, porque este, além da entrada para acesso aos andares superiores, está ocupado por uma estrada e pelos seus passeios laterais.

Sem garagens, os pilares ocupam os passeios públicos e desde que a obra arrancou, já faz mais de um ano, a estrada foi cortada e até os peões ficaram sem alternativa aos caminhos lamacentos, em tempos de chuva, ou poeirentos, quando secos, para atravessar de um lado para o outro – e, tratando-se de uma zona residencial, também há, como é visível, estabelecimentos comerciais (obviamente ainda mais prejudicados).

Em suma, não uma mas várias aberrações absolutamente incompreensíveis, que obrigam a questionar como foi possível alguém ter aprovado um projeto assim e como foi possível autorizar tal obra.

Não se estranha, por isso, que, chegados a este ponto, a obra tenha sido embargada.
Ora, o mal é que chegámos a este ponto. 
Ou seja, além da parvoíce do projeto e do desrespeito total de quem autorizou e de quem leva a cabo as obras por todos os cidadãos que se serviam ou deveriam ser servidos por aquela estrada e por aqueles passeios, o embargo só serve para agravar e fazer perdurar no tempo esse mesmo agravo para o público.
Em Viana do Castelo, faz dezenas de anos que o famoso Prédio Coutinho está para ir abaixo. Já se imaginou se nunca tivesse sido concluído e tivesse ficado neste mesmo estado? É que há anos e anos que se diz que desta é que é e que o prédio vai mesmo ser implodido e, afinal, ainda lá continua e há de continuar.
No Estoril, faz anos que da A5 é visível um monstro de cimento que nunca foi acabado nem demolido e lá continua todo grafitado para a eternidade.
Na Expo, em frente à CUF das Descobertas, está a nascer mais uma enormidade que mais parece um gigantesco caixote, mas a velocidade tal que quando se der por ela está acabado e bem habitado.
Entre a Expo e o Beato, o projeto de Renzo Piano rouba ao povo um significativo troço da marginal – da Av. Infante D. Henrique – desviando o trânsito para um labiríntico traçado e nem se deu por qualquer tipo de discussão ou debate.

Ainda em Lisboa (e como o SOL mostrou na sua edição de há 15 dias), os jardins das galerias do Hotel Ritz vão dar lugar a mais uns milhares de metros quadrados para escritórios e comércio e, pelos vistos, também ninguém se importa.
É como a nova torre da Fontes Pereira de Melo ou, qualquer dia, o mono do Largo do Rato.
Não, não lembra a ninguém. 
Se este prédio foi autorizado pela Câmara de Coimbra, pelo seu presidente e vereadores, sendo embora uma aberração, ao menos acabem a obra.
Porque será sempre um mal menor para os conimbricenses e principalmente para quem vive, trabalha ou circula na Solum.

Ou, em última análise, inspirem-se na obra com que Pedro Cabrita Reis enriqueceu os sempre magníficos jardins da Gulbenkian (imagem secundária) e mandem desobstruir a estrada e os passeios e pôr tudo em cimento polido e luzidio, fingindo que tudo não passa de um enorme equívoco: estamos, afinal, perante uma obra de arte daquelas de um modernismo que só entendem as pessoas com muitos e superiores conhecimentos, como a elite pensante que decide os destinos da Coimbra.
Para que o povo, ignorante e estúpido, ao menos possa voltar a ter estrada e passeios, sem ser atirado para a lama nem levar com mais poeira nos olhos.

P.S. – Impossível não fazer registo do inimaginável incêndio que destruiu Notre-Dame e fica para a história como um dos maiores atentados ao património da Humanidade. Desolador. Irreparável.