Cultura

Ennio Morricone. Era uma vez em itália

O pavilhão Altice Arena recebe esta segunda-feira um dos mais prolíficos e inspirados compositores do nosso tempo. Aos 90 anos, Ennio Morricone, o autor das músicas de mais de 500 filmes e séries, despede-se dos palcos num concerto irrepetível.

Poderá a música criar na mente de quem a escuta imagens tão fortes, nítidas e duradouras como as que se projetam numa tela de cinema? À partida, esse pareceria um desafio condenado a fracassar. E, no entanto, temos provas concretas em contrário. Uma espécie de assobio que se materializa em poeira, chapéus de cowboy e revólveres a faiscar sob um sol implacável. Uma melodia que convoca de imediato brincadeiras inocentes de crianças e paixões adolescentes numa vila da Sicília. Uma orquestra que nos transporta para os bairros pobres dos imigrantes da Nova Iorque de início do século. Um ritmo poderoso que nos faz pensar na dedicação obstinada dos missionários jesuítas que no século XVII tentaram converter as tribos de índios no atual Paraguai.

O homem por detrás deste truque de magia que transforma sons em imagens é Ennio Morricone. O músico italiano, que em novembro completou 90 anos e que se encontra desde 2016 a cumprir uma tournée de despedida, atua esta segunda-feira, 6 de maio, na Altice Arena, em Lisboa. Dulce Pontes é a sua convidada especial.

Autor de mais de 500 bandas sonoras de filmes e séries televisivas, Morricone coleciona distinções: prémios Bafta, globos de ouro, Grammy, dois Óscares da Academia, um de carreira, em 2006, o outro dez anos depois pela banda sonora de Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino. Mas os filmes que o tornaram célebre foram outros, a começar por Um Punhado de Dólares (1964), o início de uma longa e frutuosa colaboração com o seu amigo de infância Sergio Leone. Como não dispunha de orçamento suficiente para contratar uma orquestra completa, Morricone inovou recorrendo a sons evocativos como de disparos, chicotes a estalar e assobios. A necessidade aguça o engenho. Muitos anos mais tarde viria o memorável Era uma Vez na América (1984), o último filme de Leone, cuja música ajuda a contar a história de um grupo de rapazes pobres, melhores amigos, que formam um bando de pequenos criminosos e, em adultos, pontificam no mundo do crime organizado.

Um ‘milagre técnico e espiritual’

Numa entrevista concedida há cerca de um ano ao jornal mexicano Milenio, o compositor explicou por que esteve quase a recusar fazer a música de A Missão, que só não foi entregue a Leonard Bernstein porque este se encontrava indisponível. «Um dia, o produtor Fernando Ghia levou-me a Londres para assistir, juntamente com o realizador Roland Joffé, à projeção de um filme sem música. A história decorria no século XVII, no atual Paraguai [...]. Na última cena eu chorava como uma criança, e disse-lhe: ‘Deixe-o assim, a música só vai estragar’». 

Mas, perante a insistência do realizador, acabou por aceitar o desafio. «Comecei a estudar Claudio Monteverdi e Pierluigi da Palestrina [compositores daquela época]. Finalmente, a pergunta que precisava de uma resposta: e o canto dos índios? Aí tive uma intuição». A ‘intuição’ tornou-se uma das músicas mais icónicas do cinema das últimas décadas. Hoje, o autor considera este um dos seus melhores trabalhos. «Adoro essa banda sonora. Foi um milagre técnico e espiritual».

O receio de passar fome

Ennio Morricone nasceu em Roma a 28 de novembro de 1928, o mais velho de cinco irmãos (um dos quais morreria em pequeno). Passou a infância no bairro popular de Trastevere. «De manhã soava a sirene de uma fábrica de tabaco para chamar os trabalhadores». O seu pai era trompetista de jazz e a mãe dona de casa.

Aprendeu as primeiras notas com o progenitor, apesar de este passar muito tempo fora, e aos dez anos ingressou na Academia de Santa Cecilia, uma das mais antigas escolas de música do mundo.

Durante a guerra, quase nem se apercebeu do conflito que se desenrolava à sua volta. «Tocava em pequenas orquestras, primeiro no Hotel Florida, para os alemães; depois nos hotéis Massimo d’Azeglio e Mediterraneo, para os aliados». Os soldados americanos pagavam-lhe em géneros, com comida e cigarros. «Como eu não fumava, vendia os cigarros na rua e levava o dinheiro para casa». O seu grande receio era passar fome.

O seu pai achava que, se conseguia sustentar a família com o trompete, Ennio também poderia fazer o mesmo. O jovem entrou para o Conservatório, onde começou por aprender aquele instrumento. «Antes de estudar Composição, estudei trompete, tal como o meu pai. Mas tinha vergonha e então comprei uma maleta», confessou na mesma entrevista ao jornal mexicano Milenio, «porque se usasse o estojo do trompete adivinhavam qual era o meu instrumento, e queria ser visto como um compositor, não como um trompetista».

A fusão de duas almas

Concluída a formação no Conservatório, logo durante a década de 50 Morricone começou a trabalhar em cinema. Entre muitas outras ocupações. Já casado (tomou a decisão de assumir o compromisso quando a futura mulher tinha sofrido um acidente grave e se encontrava coberta de ligaduras), tocou em clubes nocturnos, compôs temas para cantores de jazz, trabalhou para a rádio e para os estúdios RCA Victor. O primeiro grande sucesso chegou em 1963, quando escreveu com Roby Ferrante a canção ‘Ogni volta’, que Paul Anka levou ao Festival de San Remo no ano seguinte. O disco vendeu três milhões de cópias. Em 1978 já era suficientemente célebre para o chamarem a compor o hino do campeonato do mundo, na Argentina.

Seria, porém, na história da composição de música para filmes que deixaria a sua marca indelével. Um trajeto que culminará com a banda sonora inesquecível de Cinema Paraíso (1988), de Giuseppe Tornatore. O músico e o realizador entenderam-se às mil maravilhas desde o primeiro instante e o resultado foi uma das obras-primas do cinema italiano. Hoje, Morricone já não aceita fazer música para cinema - mas para Tornatore, que considera como um filho, abre uma exceção.

«Sob a influência da música parece-me que sinto o que não sinto, que compreendo o que não compreendo, que consigo o que não consigo fazer», escreveu Tólstoi n’A Sonata de Kreutzer. «A música leva-me imediata e diretamente para o estado mental do homem que a compôs. A minha alma funde-se com a sua e, com ele, eu passo de um estado para outro, mas por que isso acontece não sei».

As melodias de Cinema Paraíso transportam-nos para a ‘Itália profunda’ de meados do século XX e revelam-nos a sua alma. Ao mesmo tempo, tocam e envolvem diretamente as emoções de quem as ouve. Por que artes mágicas Morricone conseguiu fazê-lo, permanecerá sempre um mistério.