Desporto

Liga das Nações. O cliente está farto!

Portugal defronta a Holanda na final deste domingo, um adversário que deixa boas recordações. Mas que não parece estar pelos ajustes.

 


Na noite chuvosa e pardacenta de Guimarães, os adeptos holandeses cantavam Monty Python: Always look on the bright side of life. A vida correra-lhes bem. A Inglaterra voltou a vestir o seu velho fato de abana-pinheiros e ofereceu-lhes a final de bandeja, com direito a croquete, a uma imperial, palito e tudo. O público que fora britanicamente maioritário no Afonso Henriques e que gastara gargantas e pulmões durante uns 113 minutos (quando Promes fez o 3-1) a pedir a Deus que protegesse a rainha, poderia ter, quanto muito, respondido: «Life’s a piece of shit/When you look at it/Life’s a laugh and death’s a joke it’s true/You’ll see it’s all a show...». Mas não teve forças nem para uns meros aplausos de despedida, abandonando o estádio cabisbaixo, certamente com o pensamento fixo numa revigorante ‘pint of beer’.

Há medida que fui saindo da cidade, conduzindo às apalpadelas por entre as bátegas, não deixei de pensar, como quase todos, que depois daquela hora e meia mais meia carregada de trapalhadas de ambas as partes (as dos ingleses foram, como direi, delirantes), na forma como Portugal irá encarar o jogo de amanhã. Matéria para estudo não falta, embora o bodo aos pobres não costume ser aviado duas vezes consecutivas. O facto é que tanto Inglaterra como Holanda, e a partir de agora é com esta que temos de nos preocupar, mostraram à saciedade realidades que entraram pelos olhos dentro: poder físico imponente da grande maioria dos jogadores (desgastado pelo arrastar dos minutos e pelo corre-corre em que ele acabou por se transformar); debilidades preocupantes (para eles), tanto em termos defensivos como em termos de construção de movimentos de ataque elaborados.

O portuguesinho valente, à moda do Raposão do divino Eça, sempre pronto a enganar a Titi com as barbas fumigadas a incenso, não deixará, na sua habitual credulidade, de esfregar as mãos de contente, recordando uma série muito assinalável de vitórias importantes frente aos holandeses: «Ah! Boa! Estes são clientes!» Mas Fernando Santos tem fresquinha na memória a derrota clara no particular de Março do ano passado, em Genebra, por nada menos de 0-3. O que deu a entender (até por ter sido o resultado mais desnivelado de sempre entre ambas as seleções) que o cliente está um bocado farto da loja e decidido a não levar dela mais nada que não um triunfo, seja ele pago ao preço que for.

Os mosqueteiros

Questionamo-nos todos se o selecionador nacional irá repetir na equipa titular de amanhã o losango dos três mosqueteiros do talento - Cristiano Ronaldo, Bruno Fernandes e Bernardo Silva - apoiado pelo sempre supranumerário (a culpa é do Alexandre Dumas) d’Artagnan, isto é o rapazinho João Félix. Tenho para mim que será obrigatório, mais cedo ou mais tarde, o seu entendimento na equipa portuguesa, porque têm uma qualidade superlativa e não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar jogadores daquela categoria. Que a ideia não funcionou em absoluto contra a Suíça, também é iniludível. Mas não deixa, por isso, de ser boa. Há muita aresta por limar na forma como os quatro se movimentam, sobretudo no plano defensivo e isso deve-se em grande parte ao facto de Ronaldo ser um extraordinário avançado e um extraordinário goleador mas não ter cultura tática de 9, o que no sistema programado por Santos fazia todo o sentido, até para tirar partido da excelência de movimentos de Félix nas costas de um 9. O problema é que sempre que Félix surgiu naquele segmento do campo adversário, Ronaldo não estava na área, porque se habituou desde sempre a vaguear em redor dela. E, assim sendo, ficou, como se diz na gíria, entregue aos bichos. E se bichos é nome que se pode aplicar com todo o propósito aos centrais da Holanda, Van Dijk e De Ligt, que costumam receber a companhia de Blind!

Não querendo entrar por caminhos de excessiva análise técnica, geralmente fundamentalistas e mesmo saturantes para quem olha para o jogo apenas de forma lúdica e ir, por aí fora, pormenor atrás de pormenor que cabem aos treinadores interpretar e resolver, sublinharia um movimento em que foi muito nítido o desentendimento defensivo do ataque nacional frente aos suíços e que se repetiu amiúde no início do encontro: com Bernardo ou Félix a caírem na pressão imediata à saída de bola dos centrais ou do guarda redes, alguém tem obrigatoriamente de fechar um dos laterais ou os dois. Quem? Ronaldo? Bruno Fernandes? Dificilmente o fazem com eficácia. Se, imaginemos, e até aconteceu, forem os dois fazer essa pressão simultaneamente, pior um pouco - o adversário tem as duas laterais como opções. Ora isso provoca uma onda de assimetria de frente para trás que vai cair sobre os ombros dos defesas portugueses que fecham as alas, mantendo-os presos e sem à vontade para subirem no terreno.

Laranja não é pera

Com Van Dijk a jogar claramente recuado em relação a De Ligt, Portugal vai ter mais dificuldade em fazer esse tipo de pressão. Compensará o facto de o futebol da equipa de Koeman estar demasiado dependente de um daqueles tipos fininhos de técnica sempre em movimento que parecem ficar a matar ou com uma camisola branca cortada a meio por uma lista vermelha ou com uma de cor de laranja berrante: Frenkie de Jong. Muito raramente a bola não lhe é entregue de cada vez que os holandês entram em plano de ataque. E sendo imensa a qualidade de de Jong, não há nas movimentações dos que lhe ficam na frente grande diversidade. Isto provoca fases de inércia. Frenkie tem a bola, segura-a, amarra-a aos pés com um elástico, mas a máquina emperra e ele vai recuando na tentativa de ganhar uma visão mais periférica e solicitando aos companheiros que venham acolitá-lo mais atrás.

Não vale a pena tentar adivinhar o que se passa na cabeça do engenheiro Santos. Espera-se que seja engenhoso. Amanhã, Portugal pode conquistar o segundo troféu da sua já longa história que teve início em 1921. Veremos se com mais talento ou com mais contundência, se mais florentino como d’Artagnan ou mais selvático como Lagardère, sendo que o Lagardère estará sempre em campo, encarnado em Ronaldo, o espadachim ousado e corajoso de Paul Féval, homem dos golpes assassinos e das cavalgadas irresistíveis.

Durante muitos anos, de uma forma mais elegante - 2004, em Alvalade -, ou mais grosseira - em 2006, na Batalha de Nuremberga -, Portugal habituou-se a ganhar aos holandeses e eles têm essa espinha entalada na garganta, espinha de arenque, neste caso, porque vem mais a propósito. A derrota de Genebra serviu de aviso. Depois das desilusões terríveis do afastamento consecutivo do Europeu de França e do Mundial da Rússia, a laranja amargou e não faz tensões, como se viu frente à França, Alemanha e Inglaterra, nesta Liga das Nações, de voltar a transformar-se numa pera doce.

A caminho das Antas, enfileirar-se-ão portugueses felizes por voltarem a ter, ao fim de quinze anos, quem diria?, uma nova final em casa com a sua seleção. Se a Grécia foi a dor azul de Portugal, de que falou um dia Manuel Alegre, o povo vai em busca de uma alegria em tons de laranja. Está na hora! De ser pragmático, como Fernando Santos sempre foi, ou talvez de um golpe de asa que nos faça derramar o talento inato de que gostamos tanto de nos gabar, e oferecer ao mundo, que espreita pelos ecrãs da televisão, um futebol feliz, capaz de encantar todos aqueles que teimam em fazer deste o jogo mais belo do mundo. Já aconteceu. Por que não mais uma vez? Sobretudo, aproveitem. Tanto aqueles que estarão no estádio como os que vão seguindo os acontecimentos à distância. Ouço ecos dos Monty Phyton: «Enjoy it. It’s your last chance, anyhow/So.../Always look on the bright side of life». 

Isso. A parte mais bonita da vida...