O Mundo em Calções

A viagem de Nils Holgersson

Håkan Söderstjerna ergueu o seu único braço ao céu por onde os patos bravos voavam em V na companhia de um ganso branco

Por causa do meu pai, que é um homem de uma curiosidade insaciável e de uma cultura infinita, sabia quase tudo sobre a Suécia antes de saber ler e escrever e de saber, até, mesmo ao de leve, onde ficava a Suécia. Por causa do meu avô Joaquim, esse anjo que vive pousado no meu ombro, cuja erudição ultrapassava todos os limites impostos a um ser humano, fiquei a saber exatamente onde era Kebnekaise, na Lapónia sueca, montanha mais alta do país, dois mil e noventa e nove metros de altitude, por extenso, 150 quilómetros para lá do Círculo Polar Ártico.

De repente, à medida que escrevo, lembrei-me de Nelson Rodrigues, um poço sem fundo de belíssimas frases para enfeitar crónicas por mais medíocres que as crónicas sejam. Ele dizia: «Comecei a ler Zola antes de saber o que queria dizer a palavra nádega». Vendo bem também não é uma palavra nada má para se construir uma crónica em redor, mas deixemos para já a nádega de lado e voltemos a Kebnekaise. 

Åka, com a rodinha a fazer de chapéu sobre o A (lê-se ôca), é um nome vulgar entre suecos. Tem um significado, como quase todos os nomes: aquele que conduz, que lidera. Åka de Kebnekaise conduzia patos. Isto no livro que eu li antes de saber ler. Quero dizer, o livro que o meu pai me lia, noite após noite, na sua voz mansa que tem uma melodia que traz consigo uma calma por dentro e a certeza de que o mundo continua a ser um lugar seguro para continuarmos a viver. 

Aka de Kebnekaise comandava os patos em V através dos céus e gritava no seu grasnar de pata: «Vamos, vamos para norte onde não há dor nem sofrimento». E eu via o norte e a neve e o frio nas palavras do meu pai que lia as palavras de Selma Lagerlöf, e sentia, já nessa altura, que não seria nunca possível fugir da dor e do sofrimento procurando o lugar dos gelos apesar de ter aprendido, muitos, muitos anos mais tarde, que afinal era a sul que fica a tristeza, era a sul que ficavas tu.

Nils Holgersson, mau filho e mau rapaz, que se encantava com o sofrimento dos animais, castigado por um duende que resolveu aprisionar só por brincadeira, numa vontade daninha de lhe espinafrar a existência, viu-se, por sua vez, reduzido ao tamanho de um gnomo como o que enfiara numa gaiola. E à mercê da vontade de um ganso branco de ambições desmedidas, farto da sua vida-vidinha de esgravatar galinheiros e picar grãos de milho que lhe atiravam ao desprezo, e se lançou no voo magnífico da liberdade bravia dos patos como se fosse apenas mais um deles, empurrado também ele para norte pela voz de Aka de Kebnekaise que ia, a pouco e pouco, misturando-se com a voz meiga do meu pai enquanto eu adormecia no conforto de lençóis lavados e secados ao sol, num lugar branco onde nunca, nunca, mas nunca haveria nem dor nem sofrimento.

A Suécia é um país que aprendi a amar, amando mesmo, com o amor dos homens e a paixão dos incómodos. Estocolmo é, para mim, a cidade mais bonita da Europa, de Humlegorden à quase-ilha de Blasieholmen a bodejar Nybroviken, da Kungsgatan que corre para Stureplan, os telhados verdes dos edifícios antigas, os troncos brancos dos abetos ao longo de Karlavägen, de Gamla Stan a Marten Trotzigs que alguns dizem ser a rua mais estreita do mundo. Nils Holgersson voou nas costas de um ganso branco sobre Estocolmo e Estocolmo tem uma luz enigmática que eu nunca fui capaz de explicar por palavras e Selma simplificou em forma de poesia: «A luz que existe no interior das conchas».

Tenho escrito recentemente muito sobre a Suécia, vida e morte, e à medida que me tornei homem e imperfeito sinto a falta de Aka de Kebnekaise que nunca se perdia nos caminhos tortuosos do céu.

Håkan Söderstjerna, também com a bolinha por cima do a, nasceu em Teckomatorp, no condado de Skåne (ainda com bolinha), uma cidadezinha que fica entre Malmö e Helsingborg, mais conhecida por ser um dos maiores cemitérios tóxicos da Suécia do que por ter dado ao mundo, em 1975, um rapazinho que veio ao mundo sem metade do braço esquerdo e que, mesmo assim, com a teimosia própria de um ganso branco que resolveu seguir patos bravos, decidiu ser jogador de futebol enquanto estudava economia na Universidade de Lund. A sua carreira não durou mais do que doze anos, esteve no Fredrikstadt da Noruega, no Tajong Pagar, de Singapura, mas o seu clube foi o Landskrona onde o conheciam por Bandido-de-um-Braço-Só. Certa vez para a Taça da Suécia marcou um golo inesquecível: de cabeça ao Helsingborg, saltando bem mais alto do que o central Nilsson. Nas bancadas, os adeptos começaram a cantar: «Håkan, Håkan, Håkan/Estás em grande/Fizeste de Roland Nilsson um simples hot-dog/E ele bem merece/Håkan, Håkan, Håkan Söderstjerna/Estás mesmo bem!». Håkan sorriu e ergueu o seu único braço para o céu onde os patos bravos voavam em V.

afonso.melo@newsplex.pt