Sociedade

Harley-Davidson. Mais do que um hobby, um estilo de vida

Não passaram por uma highway to hell. Pelo contrário: dezenas de milhares de motards chegaram a Cascais desejosos de aproveitar o sol, a praia e, acima de tudo, o convívio entre os fãs das Harley-Davidson.

 

Mafalda Gomes
Mafalda Gomes
Mafalda Gomes
Mafalda Gomes
Mafalda Gomes
Mafalda Gomes
Mafalda Gomes
Mafalda Gomes

Irlanda, Polónia, Estados Unidos, Irão. Basta olhar para as matrículas das milhares de Harley-Davidson que esta semana pararam em Cascais para perceber que o 28.º encontro europeu juntou dezenas de nacionalidades de todas as partes do mundo. Hoje arranca um dos momentos mais esperados deste evento: a parada de 32 quilómetros. 

Enquanto passeiam ao som de Dire Straits, as pessoas afastam-se para deixar passar seis Harleys. Uma delas traz uma grande bandeira de Marrocos. Ramal, de 36 anos, acaba de chegar a Cascais, acompanhado pelos amigos motards e pela mulher. «Ela também adora isto e sabe que a mota é a minha segunda companheira», brinca o agricultor marroquino, que faz questão de deixar algum dinheiro e tempo de parte para se dedicar a estas grandes viagens. 

Mas Ramal é dos mais novos. Bastava dar um pequeno passeio pela baía para perceber que existe um look que predomina: coletes de cabedal com, pelo menos, o nome, a bandeira do país, longas barbas e cabelo branco. «Não há muitos jovens nisto. No Reino Unido, por exemplo, quem tem entre os 20 e os 30 anos, poupa todo o dinheiro que ganha para comprar uma casa, constituir uma família e educar as crianças. Quando os miúdos já são crescidos e a casa está paga, compram uma mota e começam a entrar nestes grupos», explica ao SOL Billy. Veio com a mulher e os amigos celebrar o aniversário a Portugal e, principalmente, divertir-se neste encontro internacional. No seu grupo, todos estão reformados menos Jules, a sua mulher, que trabalha numa loja de caridade. Mike, de 76 anos, esteve em Cascais na primeira edição realizada em Portugal, em 2012. «Foi espetacular, fiquei muito contente quando soube que iria realizar-se aqui outra vez», diz o mais velho do grupo, enquanto aproveita o calor primaveril e a cerveja fresca.

Roberto - Roby, como se identifica no seu colete de motard - também ficou muito contente quando soube que o encontro iria ser novamente em Cascais. «Estivemos cá na outra edição e adorámos. Este local é maravilhoso, achei uma excelente ideia voltarem a fazer aqui», disse o italiano de 62 anos. Natural de Milão, Roberto veio acompanhado pela mulher, Patrícia. Tinham acabado de chegar a Cascais quando falaram com o SOL e estavam visivelmente cansados, mas com vontade de aproveitar tudo o que o evento tem para dar.

Mas se há quem venha de países relativamente próximos de Portugal, alguns estão dispostos a percorrer milhas sem fim só para fazerem parte desta iniciativa. Alexander, de 40 anos e Maxime, de 46, vieram da Rússia de propósito para este evento. «Viemos sempre de mota. Foram nove dias a andar. Percorremos mais de 7000 quilómetros», contaram ao SOL. «Não há nada que nos dê uma maior sensação de liberdade. Além disso, é muito divertido», acrescenta Alexander. Os dois russos vieram acompanhados pelas mulheres, que não se mostram assim tão entusiasmadas com o encontro. «Elas só querem divertir-se nas compras», dizem os motards na brincadeira. 

A verdade é que, passeando um pouco pelo centro de Cascais, dava para perceber que existem muito mais homens neste evento do que mulheres - foram poucas as que passaram a conduzir uma Harley. Mas Bebiana diz que as coisas já estão a mudar. «Já começa a haver mais mulheres a conduzir. No nosso grupo somos quatro. Mas sim, a maior parte vem a acompanhar os maridos. São motas um bocadinho pesadas e grandes e as pessoas assustam-se com a sua dimensão». Esta portuense explicou ao SOL que o gosto pelas Harley surgiu em 2003, quando decidiu oferecer uma ao marido. «Comecei a ganhar o gosto por aquilo, mas tinha medo de andar atrás. Por isso, decidi tirar a carta de mota e comecei a andar sozinha. Os meus filhos - um rapaz e uma rapariga - também já andam de mota. E são todas Harleys», reforça a empresária de 54 anos. 

Hell’s Angels? «Não me meto nisso»

Com AC/DC como música de fundo, Rob, de 53 anos, e Katie, de 44, não resistem a tirar uma selfie com a praia como pano de fundo. «Isto é lindíssimo. É a primeira vez que estamos cá e estamos a adorar», disse ao SOL. Este engenheiro norte-americano - que se reformou há uns anos e vive em Málaga há quatro - confessa que já gastou muito dinheiro neste seu hobby. Comprou a sua primeira Harley em 2002 e desde então nunca mais conseguiu ‘largar o vício’. «Nunca fiz as contas, mas acho que já gastei mais de 100 mil dólares nesta brincadeira», revelou. «Mas isto vale todo o dinheiro do mundo porque é o que ele adora fazer. E também já se está a tornar um dos meus hobbies preferidos», acrescenta Katie.

Questionado sobre o preconceito que existe em relação aos motards e à confusão em relação aos diferentes grupos que existem, Rob considera que ainda há um grande desconhecimento em relação a este assunto: «Acho que as pessoas não têm noção do que é o grupo da Harley-Davidson e e o que são as outras organizações. As pessoas que entram em atividades ilegais são menos de 1% da população de motards. A maioria só gosta de andar de mota. Nunca tive problemas com esses grupos, mas também não me juntaria a nenhum deles - perdemos muita independência quando nos juntamos aos Hell’s Angels ou aos Bandidos. Em alguns casos, até somos obrigados a partilhar a nossa mulher. É uma loucura. Na Harley, somos pessoas com trabalhos normais, com vidas normais», explica ao SOL.

Esta ideia é reforçada por Benjamim, de 63 anos. «As Harleys são um pretexto para convivermos, passarmos um bom bocado com pessoas que têm os mesmo interesses que nós e descobrirmos novos países. Não estamos ligados nem a grupos nem a atividades estranhas», reforça o vinicultor francês.

«São simpáticos e educados»

Alguns comerciantes ouvidos pelo SOL não estão contentes com a organização deste evento no centro de Cascais. «Está a condicionar o trânsito na vila e as barraquinhas montadas roubam o negócio aos comerciantes da zona. Não é este tipo de turismo que queremos», disse um empresário de Cascais, que preferiu não identificar-se. 

No entanto, a maioria dos comerciantes ouvidos pelo SOL mostra-se muito satisfeita com o facto de a vila voltar a receber o encontro de Harley-Davidson. Um dos principais pontos de encontro destes motards é o O’Neils, o mítico pub junto à Câmara de Cascais. Mark, o responsável do bar, diz que já notou um aumento nas vendas. «De manhã tirei mais cafés e à tarde saíram muitas mais cervejas do que o normal», explicou. 

O presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreira, já tinha explicado ao jornal i que, há sete anos, o retorno financeiro desta iniciativa foi de seis milhões de euros. Este ano, o valor deverá ser ultrapassado: «As taxas de ocupação dos hotéis estão praticamente a 100%. Os serviços e o comércio reforçaram as suas equipas e contrataram mais mão-de-obra. Cascais está na sua capacidade máxima».

Mas nem é tanto com o lucro que os comerciantes se entusiasmam: a simpatia dos motards impressionou os que trabalham na vila há anos. Até os mais céticos. «É um privilégio lidar com estas pessoas: são educadas, bem-dispostas e como muitos são fumadores, claro que tem um impacto positivo [no negócio]. Em 2012, tivemos algum receio porque não sabíamos o que aí vinha, mas foi uma ótima experiência», disse Maria da Assunção Seguro, gerente da Tabacaria Triunfo, a mais antiga de Cascais em atividade.

E como nem todos gostam de jantar nos bares disponibilizados no recinto do evento, os restaurantes da zona também se enchem de homens de barba rija. O senhor Morgado trabalha no John Bull - um dos restaurantes mais conhecidos de Cascais - desde 1973. Já assistiu aos altos e baixos do turismo e aos inúmero eventos organizados na vila. Em relação às Harleys, não tem dúvidas: «É só gente boa». «Isto tem sido bom para nós. Estas pessoas são impecáveis. Os motards da Harley são cinco estrelas, não vêm para arranjar confusão. Isto é ótimo para Cascais, projeta muito o nome da nossa vila lá fora», disse ao SOL.

Milhares de motas na estrada 

O evento prolonga-se até amanhã. Hoje, dezenas de milhares de motards juntam-se no Autódromo de Cascais para arrancarem na mítica parada das Harley-Davidson. Irão até Carcavelos e depois farão a Avenida Marginal em marcha lenta, rumo novamente à baía de Cascais. 

O dia de hoje termina com um concerto muito especial - uma homenagem à banda portuguesa Xutos & Pontapés. Amanhã, os motards irão aproveitar o calor, as praias e o ambiente de Cascais, antes de regressarem à estrada para fazerem milhares de quilómetros até casa e prepararem-se para o encontro do próximo ano.