Cultura

Banksy ou a arte de desobedecer

Banksy: Génio ou Vândalo? apresenta dezenas de obras em papel que abrem uma janela para o universo do mais controverso, subversivo e enigmático artista contemporâneo.

A sua identidade é um enigma comparável talvez ao de Jack o Estripador. E, tal como o famoso assassino em série de finais do século XIX, também Banksy vive à margem da lei, dedicando um ódio de estimação à polícia e, de forma geral, à autoridade. Como já foi notado, Banksy e a polícia vivem num permanente jogo do gato e do rato. Em 2016, um programa informático usado por criminologistas que analisa padrões de deslocação apontou para Robin Gunningham, um artista natural de Bristol, como o principal suspeito. Mas trata-se apenas de uma suposição.

Oenfant terrible da arte contemporânea, é o protagonista da exposição Banksy: Génio ou Vândalo?, patente até 27 de outubro na Cordoaria Nacional, em Lisboa. Conhecido pelo caráter subversivo das suas obras, Banksy confidenciou certa vez a fantasia de ver «o underground vir à superfície e virar a cidade do avesso». Na exposição de Lisboa isso adquire um significado quase literal, com o visitante a entrar por um buraco, ladeado por duas grandes ratazanas vestidas a rigor, como se estivesse a penetrar numa conduta de esgotos.

«O tema das ratazanas é comum em Banksy», comenta Alexander Nachkebiya, o curador russo da mostra, que já passou por Madrid e S. Petersburgo. «Banksy diz que de alguma forma somos todos ratazanas, porque acordamos de manhã, vamos a correr para o emprego, vivemos em cidades, somos ratos da cidade. Quando entrarem sintam-se assim, como ratos».

No interior, a primeira sala é ocupada por uma reconstituição do ateliê do artista. «Normalmente, quando se faz uma exposição, começa-se por contar a história da vida do artista, onde nasceu, onde estudou, o que influenciou a sua obra», explica Alexander. «Mas no caso de Banksy isso não é possível porque ninguém sabe quem ele é. Por isso tentámos reconstituir o seu ateliê».

Uma parede debaixo da cama

A esmagadora maioria das mais de 70 obras expostas são gravuras com as críticas venenosas de Banksy à sociedade de consumo, ao capitalismo, aos políticos das potências ocidentais. Mas há uma exceção de peso:Stop Esso, um grande mural contra a petrolífera que parece pintado com crude. «Em 2010 houve um grande derrame de crude no golfo do México [explosão da plataforma Deepwater Horizon] e a Greenpeace fez uma campanha contra a Esso», diz o curador. «A empresa encomendou estudos pseudocientíficos que negavam o aquecimento global». Banksy não ficou indiferente e fez um cartaz de uma menina na praia a brincar com o fogo, com uma lata de gasolina Esso por perto, enquanto os pais descansavam estirados em espreguiçadeiras. Depois transpôs o desenho para um edifício, e ofereceu-o ao proprietário, que seccionou a parede e lhe colocou uma moldura especial de ferro.

Dado estarem integradas na arquitetura – por vezes de forma magistral, usando os buracos, as rachas, a sinalização pública e até as ervas daninhas que crescem nos passeios – as obras de Banksy passam por vicissitudes várias, dando origem por vezes a episódios curiosos. Leopard and barcode (Leopardo e Código de Barras, de 2004), encontrava-se pintado num edifício que foi demolido. «Pensava-se que o graffiti se tinha perdido», conta Alexander. «Quatro anos depois voltou a aparecer. Um dos empreiteiros preservou aquele pedaço de parede, levou-o para casa e guardou-o debaixo da cama».

Doutra vez, Banksy pintou um mural numa empena de uma casa que se encontrava à venda. Com as obras do artista a atingirem já valores altíssimos, a imprensa não resistiu: ‘compre um Banksy e receba uma casa de graça’.
«Nada do que se vê aqui foi tirado da rua», esclarece o curador.  «Se tirássemos estaríamos a roubar e a cobrar às pessoas para verem. O que vemos aqui ou foi criado por Banksy propositadamente para vender ou oferecido por ele a amigos».

Arrombar o museu
Tanto quanto pelas suas imagens icónicas, o artista tornou-se celebrado pelas suas ações subversivas. Em 2004 imprimiu cerca de um milhão de libras em notas falsas em que a efígie da Rainha era substituída pela da princesa Diana, e levou-as para um festival para as atirar à multidão. No topo das notas lia-se, em letras rebuscadas, ‘Banksy of England’.

«Quando atirou o primeiro maço de notas ao público, percebeu que as pessoas não viram as notas como obras de arte», explica o curador. «Uma pessoa usou para pagar, a outra aceitou. Banksy percebeu que tinha feito dinheiro falso – e isso não é brincadeira, pode dar muito tempo de cadeia. Então deixou de espalhar as notas» e passou a usá-las para autenticar as suas obras de arte.«Se comprarem um Banksy, contactam a empresa Pest Control e eles emitem um certificado de autenticidade da peça: pegam numa destas notas de dez libras, rasgam-na ao meio. Metade da nota é colada na peça, a outra metade fica com eles. Se houver uma dúvida, pega-se no certificado, combina-se a metade da nota com a deles».

Em 2019 uma dessas notas com a efígie de Diana foi adquirido pelo British Museum, que  em 2005 havia sido alvo de uma partida do artista:numa das suas paredes, perto de artefactos pré-históricos, Banksy pendurou uma pedra com uma gravura aparentemente muito antiga, mas que representava um homem primitivo a conduzir um carrinho de supermercado. A legenda dizia tratar-se de uma exemplo de arte «da era Pós-Catatónica». «A maior parte da arte deste tipo infelizmente não sobreviveu. A maioria é destruída por empregados municipais zelosos que não reconhecem o mérito artístico e valor histórico dos gatafunhos nas paredes», acrescentava o texto.

Numa exposição convencional como a da Cordoaria, Banksy torna-se um artista mais domesticado, mas não menos corrosivo. Nas paredes há imagens perturbadoras, como a de prisioneiros do campo de concentração de Bergen Belsen com batom nos lábios (inspirada num episódio verídico) ou uma variação da célebre fotografia da ‘Menina do Napalm’, tirada na Guerra do Vietname, em 1972. Esta versão, em que a vítima aparece de mão dada com o Rato Mickey e Ronald McDonald, oferece quase uma síntese do pensamento de Banksy, que disse um dia: «Os maiores crimes não são cometidos pelas pessoas que quebram as regras mas pelas pessoas que as cumprem. São pessoas que cumprem as regras que lançam bombas e massacram aldeias».