O mundo em calções

Sorrindo na tristeza...

A final da Taça de Inglaterra de 1915 ficou conhecida como a Final do Caqui. Nem Bob Thompson, o zarolho, fugiu à tristeza

Era uma vez um príncipe. Eu diria, o príncipe mais principesco do humor. Os príncipes têm, geralmente, nomes imensos, e este não foi exceção: Antonio Griffo Focas Flavio Angelo Ducas Comneno Porfirogenito Gagliardi De Curtis di Bisanzio. Ou Antonio de Curtis, mais simplesmente. Dele disse Umberto Eco: «Como podem as pessoas entender-se umas às outras se houver uma delas que não conheça Totò?». Ora, exatamente. Eis de quem eu queria falar.

Curiosamente, dois dos príncipes do humor da história do cinema são autores de duas canções essencialmente tristes. Tristes e belas. Charlie Chaplin escreveu Smile para Tempos Modernos e, depois, Nat King Cole cantou com aquele tom xaroposo e inconfundível: «Smile, though your heart is aching/Smile, even though it’s breaking/When there are clouds in the sky/You’ll get by...». Totò, o tal Antonio de Curtis, com aqueles nomes todos a reboque, escreveu Malaafemmena para o filme Totò, Pepino e la Malafemmina: «Femmena/Si’ doce comm’ o zzuccaro.../Peró ‘sta faccia d’angelo/Te serve pe’ ‘nganná!». Não estranhem o grafismo porque a canção é, no original, em dialeto napolitano.

Tanto Totò como Chaplin são donos de alguns dos gestos que pairam mais fundo no céu azul da minha memória. Desde a famosa pesca ao presunto feita do alto da varanda que tinha um açougue por baixo, ao movimento de dedos subindo os cantos da boca como um súplica para que a miúda órfã, Paullette Goddard, tivesse a coragem de sorrir contra a tristeza. «Sorria e talvez, amanhã...».

No dia 24 de abril de 1915, os ingleses não tinham muitos motivos para sorrir. Fora-lhes prometido que, lá pelo Natal de 1914, a guerra já teria acabado. Mal sabiam que ainda iriam ver os seus rapazes morrerem nos campos da Flandres durante mais três anos. A pouco e pouco, os espetáculos de entretenimento foram sendo proibidos ou tiveram de ser cancelados. O futebol não foi exceção. Nesse dia de abril jogou-se a mais triste de todas as finais da Taça de Inglaterra. Ficou conhecida pela Final do Caqui. Estiveram em Old Trafford, Manchester, cerca de 50 mil pessoas, na sua grande maioria soldados. As fardas davam ao ambiente um aspeto soturno. Milhares e milhares de fardas. Carne para canhão.

Smile, what’s the use of crying?/You’ll find that life is still worthwhile/If you’ll just smile»: este até poderia ser o lema de vida de Bob Thompson, não se desse o caso de Smile e Tempos Modernos só terem surgido em 1936, nas vésperas de outra Grande Guerra. Em miúdo, gostava de lançar foguetes com os amigos e de correr a apanhar as canas. Foi precisamente uma cana que lhe vazou um olho e o deixou zambaio para o resto dos seus dias. Algo que não o impediu de seguir uma carreira de avançado-centro vestindo a camisola do Chelsea por mais de dez anos consecutivos. Talvez fosse uma questão de pontaria, a sua facilidade em fazer golos. Geralmente, fecha-se um dos olhos para fixar a mira. Bob não precisava desse truque.

O jogo de Old Trafford teve lugar, precisamente, no dia que seguiu à batalha de Ypres. A canalhice alemã atingira picos de uma crueldade absurda. Os ataques com gás mostarda destruíram o futuro de centenas de jovens. A Inglaterra ficou de tal forma chocada que a revista Punch publicou um cartoon arrasador para o futebol. Um senhor bem posto dá um conselho a um rapaz de calções e chuteiras: «No doubt you can make money in this field, my friend, but there’s only one field today where you can get honour». Não admira que os jogadores do Chelsea e do Sheffield United tenham entrado em campo com uma sensação incómoda de vergonha a pesar-lhes sobre os ombros.

Há um texto formidável sobre a final da Taça de Inglaterra de 1915. Chama-se: When Football Seemed Unimportant. Doloroso como um trecho de Malaafemmena. «Femmena/Tu si’ ‘a cchiù bella femmena.../Te voglio bene e t’odio:/nun te pòzzo scurdá...». Tudo isso: futebol entre amor e ódio e impossível de esquecer.

A despeito dos esforços de Thompson, o Chelsea foi batido por 0-3. Só em 1920 é que voltaria a haver nova final. O jogo dos ingleses entrou em hibernação. A guerra tomara conta dos pensamentos dos homens e reduzira a mecânica dos seus atos. No memento da entrega das medalhas, o Earl of Derby, não poupou os jogadores a mais uma lição: «You have played with one another and against one another for the Cup; play with one another for England now».

No final da guerra, mais 670 mil soldados ingleses morreram ou desapareceram, mais de um milhão e 700 mil foram feridos. Bob Thompson continuou a jogar. Ser cego de um olho evitara a incorporação. Ia sorrindo na tristeza. É esse o segredo...

afonso.melo@newsplex.pt