O Mundo em Calções

A nostalgia é um campo de estrelas

Recordar Archie Hunter à beira de uma pateira sem patos. A morte repetia-se nos campos de Inglaterra. Para todos os gostos

Por mais que estique a vista, por entre o lusco-fusco, não vejo patos vogarem nas águas da pateira. A noite foi caindo, plácida, sobre as mesas de madeira que ficam à beira dos juncos e das canas, narcisos à superfície. A gente vai fumando «biris» indianos, aquele cheiro forte a tabaco queimado, só folha, sem papel. Uma pateira sem patos. Águeda e o ponto mais alto das memórias. O Major discute com o David, o chef, os pratos e as guarnições e nada como um Major para discutir guarnições, quem pode perceber mais de guarnições do que um Major?, mesmo que Major só de nome, Joaquim e tudo.

Regressar a casa é regressar aos amigos e  às conversas que Lisboa interrompe, por vezes  meses a fio. Eira do Pato Ougado, eis um novo nome, com chiste, palavras atrás de palavras atrás de palavras com silêncios abruptos pelo meio que o Xauleta não deixa que se imponham porque o Xau não gosta de silêncios e tem a necessidade de os estilhaçar com gargalhadas incontroláveis e epidémicas.

Passam espanholas: «Espérame en el cielo corazón/Si es que te vas primero/Espérame que pronto yo me iré/Allí donde tú estés». Por que é que até no riso, me lembro da morte? Eu vinha para aqui, para estas letras, escrever sobre a morte, e ela não demorou a chegar. Talvez porque a cada regresso a casa, há sempre alguém que falta, algum de nós que se ficou pelo caminho, que não respeitou a chamada de uma reunião de amigos num sereno pacífico sobre o qual mandam as estrelas. Alguma delas será algum deles?

Hunter é nome de caçador. Os caçadores vinham por aí, pelas margens do Cértima e do Águeda, disparando sobre os patos e sobre as narcejas. Outros vinham para a caça à cana e à sediela, quero dizer, a pesca do achigã. «O futebol também é uma caça», dizia Hunter. Ou melhor, escreveu Hunter no seu livro Triumphs of The Football Field, Narrated by Archie Hunter, The Famous Villa Captain. «Quantos morreram nessa caçada? Queremos ganhar, batemo-nos para ganhar, mas muitos de nós caiem no campo. Jogamos nas situações mais duras. Sob o frio mais extremo, por vezes. O meu camarada Yates apanhou uma terrível constipação por jogar num terreno repleto de neve. Depois veio a pneumonia. E a morte». O próprio Hunter veio a saber do que falava. Durante um jogo sofreu um ataque cardíaco e teve de ser levado de urgência para o hospital. Morreu com 35 anos, não muito após esse episódio. Claro que isto foi há muito, muito tempo. Em 1890.

A morte rondava os campos de futebol. A sombra sinistra da senhora da gadanha entornava-se sobre os rectângulos de Inglaterra e Hunter dedicou parte da sua curta existência a alertar para um fenómeno preocupante. Jovens, praticamente crianças. James Dunlop, do St. Mirren, chocou cabeça com cabeça com um adversário. Do golpe adveio o tétano. E a morte. Joseph Powell, do Arsenal, levantou a perna para disputar uma bola e acertou no ombro de um adversário. Caiu e fez uma fractura exposta no úmero direito. O outro agarrou-se ao ombro e desmaiou. A imagem do osso de Powell perfurando a pele foi demais para a sua sensibilidade. Joseph foi amputado pela zona no omoplata. De pouco lhe serviu. Morreu dois dias depois. Tinha 26 anos.

Num artigo publicado numa revista de medicina, The Lancet, no dia 22 de Abril de 1899, surgiu uma estatística: nos oito anos anteriores, as vítimas mortais do futebol e do râguebi atingiram o número brutal de 96. Alguns especialistas insistiram que os principais motivos de tal razia assentavam na frequência dos choques cranianos._Mas havia mortes para todos os gostos. Di Jones, do Manchester City, rasgou um joelho, a rótula saltou-lhe como se impulsionada por uma mola. Septicemia. Condenado! Thomas_Blackstock, do Manchester United: simplesmente colapsou em campo. Relatório da autópsia: «Causas naturais». A naturalidade da morte.

Archie Hunter viveu depressa, morreu cedo e foi um cadáver bonito, como era prática dizer-se. Com seu bigodinho meio trocista tinha tocado num ponto doloroso. E fornecera aos detractores do futebol uma arma potente  para combaterem a imparável popularização do jogo.

Mas nem a maldita morte tinha força para acabar com uma das expressões mais entusiásticas da vida. Archie, na verdade, não morreu. Tanto assim que aqui está, como se conversasse, alegremente, entre nós. «Archie Hunter was a prince of dribblers. It was not an unusual performance of his to start at the half way mark, and dribble through the whole of the opposing team! He would not lose the ball until he had literally dribbled it between the posts», escreveram no seu epitáfio. O príncipe dos dribles. Olho para o alto. A nostalgia é um campo cintilante de estrelas pendurado no céu de Fermentelos.

afonso.melo@newsplex.pt