Cultura

‘Parece que estou a viver uma vida que não é a minha’

Sérgio Variações, quase poderíamos chamar-lhe. Afinal, Variações foi sempre nome artístico de António Joaquim Rodrigues Ribeiro. Sérgio Praia dá vida ao homem que, saído de Pilar, a sua aldeia, lá no Minho, se mudou aos 12 anos para a Lisboa que haveria de ajudar a transformar a partir do final da década de 1970.

É nesses anos, aqueles anos em que não era ainda conhecido - como artista, porque em Lisboa um homem assim não passaria certamente despercebido - que João Maia se centra em Variações, o primeiro biopic dedicado ao músico que marcou um tempo, que chega aos cinemas a 22 de agosto. Os anos da tentativa, erro, tentativa. E por aí foi Sérgio Praia. Variações, quase, que ao fim de 12 anos com um papel às costas é já assim que olhamos para ele. Como uma quase reencarnação, uma possibilidade de voltar a estar perto do ícone desaparecido há 35 anos. Pela tentativa e erro foi também ele caminhando - e assim queria João Maia, que por isso mesmo fez questão que fosse a sua voz, à procura, que ouvíssemos neste filme. Para o ator, nada fácil. Como não foi aquele dia em que, há 12 anos, foi a um casting propondo a sua versão do inimitável. Tudo por Amália Rodrigues, descobriremos ao longo da conversa: «Um amigo mostrou-me um artigo em que ele falava do seu amor pela Amália e, de repente, fez-se luz: ‘Meu Deus, será que é esta a oportunidade que tenho para poder realizar o sonho de estar perto da Amália?’» E se cantava Variações «Todos nós temos Amália na voz/ E temos na sua voz/ A voz de todos nós», também em direção a ele Sérgio Praia acabou por fazer o mesmo caminho: «Comecei a perceber que António Variações há um diferente em cada um de nós.» Vamos conhecer o seu, então.

 

Recentemente, a banda com que trabalharam em Variações deixou de existir apenas no filme e saltou para um dos palcos do NOS Alive – a propósito disso, a Time Out Lisboa publicou até um artigo que tinha como título «O novo Variações». Tendo António Variações desaparecido há tantos anos já, esta forma de regresso, através de um filme pelo qual se esperou anos, está a criar mesmo esta sensação? Até para o Sérgio?

Para mim, completamente. Às vezes fico um bocadinho emocionado com esse amor – no fundo acho que é para isso que nascemos, para dar e receber, e o António para mim é muito isso. Amor na sua essência mais pura. Para mim, António Variações é muito isso. E ver esse carinho das pessoas é de facto uma coisa que me deixa muito feliz – com uma grande responsabilidade em cima também, é evidente, mas tentei esquecer um bocadinho esse lado, não queria que me bloqueasse, para poder celebrá-lo de todas as formas e poder trazer cá para fora esse carinho que também tenho por este homem e por esta busca que ele teve e esta inspiração que ele nos dá até aos dias de hoje.

Esse carinho, segundo se conta, sentiu-se muito nas filmagens, sobretudo em Amares. Como foi essa experiência de ser Variações na terra onde nasceu?

Ah, sim, foi assim... Nem sei explicar bem, porque parece que estou a viver uma vida que não é a minha, no fundo, não é? [Na rodagem] estivemos quatro semanas fechados em caves, era tudo muito escuro e, de repente, tivemos dois dias de folga e fizemos a viagem para Fiscal, em Amares. Quando chegámos, fizemos uma cena num sábado à noite, uma cena linda, eu e a Teresa Madruga, que faz a minha mãe, e tínhamos folga no dia a seguir. Foi a primeira vez em que a equipa esteve toda junta e fomos para o Rio Homem, que era onde o António ia muitas vezes sonhar, em miúdo. Estávamos lá todos, felizes da vida, um dia lindo, parecia quase um presente dele, tipo «bem-vindos à minha terra». E começo a ir para dentro de água e, de repente, e sinto uma movimentação de pessoas na minha direção e, não me interpretem mal, mas senti qualquer coisa tipo Jesus Cristo de Nazaré, com as pessoas a virem e a tocarem-me e a chamarem-me António. Nem sei dizer bem o que é que aquilo foi. E ao mesmo tempo não senti que estava a roubar nada porque tenho muito respeito por ele. Estava só a deixar o meu corpo disponível.

Como se de uma aparição de António Variações se tratasse.

Foi muito bonito. E estávamos a fazer a parte da morte dele, portanto foi bonito, e ao mesmo tempo triste e macabro, foi uma junção de sentimentos que terminaram depois num belo banho no Rio Homem, no final das filmagens, para me limpar um bocadinho daquilo tudo. Ao mesmo tempo, às vezes há assim uma certa histeria nalguns fenómenos que é quase uma necessidade. Porque o António saiu muito cedo de lá, e foi muito maltratado, e passaram-se estes anos todos e, de repente... Sei que não podemos ser rancorosos, que temos de saber esquecer para seguir em frente, mas confesso que esse lado às vezes ainda hoje encontro muito:_pessoas que o trataram muito mal e que hoje em dia vivem, de certa forma, um bocadinho à custa dele. Acho que nem tudo é assim tão verdadeiro. Que há pessoas que o amam, disso não tenho dúvida nenhuma. Mas não sei se essas pessoas estão todas na terra. Na terra, há um bocado aquela coisa do «ele é nosso», mas ele saiu com 12 anos. Não houve uma relação em miúdo e, quando ele lá voltava de vez em quando para ir ver a mãe...

Ele não ia lá muitas vezes, pois não?

Não ia muito, ia mais pela mãe. E acho que pela necessidade de não se perder em Lisboa e no mundo, essa necessidade que a gente tem, mesmo que não vá à terra, de não perder aquela raiz, porque é o primitivo, vem-se dali. Acho que muitas vezes ele sentia essa necessidade de ir beber outra vez do verde, do rio. Ir à sua fonte, à sua essência. Esquecer quem o tratou mal e ir beber ao verde, à água, à mãe, o que interessa. Acho que ele ia lá só buscar a força necessária para continuar em Lisboa, para não se desvirtuar, de certa maneira. Porque chegas a uma cidade grande e tens que te ambientar, tens que limar algumas coisas, e acho que havia aqui um confronto nele...

«Porque eu não sei se me quero polir/ Também não sei se me quero limar» [do refrão de Erva Daninha, de Dar & Receber, 1984].

É das minhas músicas favoritas. Acho isso fabuloso, porque é um jogo constante contigo próprio, porque queres crescer mas, ao mesmo tempo, há um lado muito bom da raiz que não podes perder. Acho que sempre que ele sentia que estava a perder, quando vinha de Nova Iorque, por exemplo, ia à terra recarregar baterias e, depois, voltava para Lisboa.

Hoje em dia começa a haver mais material – a biografia da Manuela Gonzaga, por exemplo, recentemente revista e reeditada – mas pesquisar António Variações não é assim tão simples. Sobretudo quando começaram a trabalhar neste filme, há 12 anos. Como é que foi fazendo a construção desta personagem que, ainda por cima, foi em Lisboa, sobretudo, contemporânea de muita gente que continua viva?

Há 12 anos, quando fui fazer o casting, havia muito pouca coisa. Havia o Passeio dos Alegres [o programa televisivo de Júlio Isidro]...

Mesmo registos dele a atuar havia muito poucos.

Tudo aquilo a que tive acesso é tudo gravado em cassete. Tive acesso a muitos concertos.

Gravações pessoais?

Sim. Para mim, das coisas mais lindas dele, essas gravações. Com a respiração, tentativa erro, tentativa erro. Tentativa erro. Nunca ouvi um desespero de respiração nas cassetes. É muito difícil quando se está a tentar não haver um «ai», e não. São aquelas cassetes que ele gravava em casa, na casa de banho, porque fazia eco e ele adorava ouvir a voz com eco. E as cassetes que gravava depois nos ensaios, com as pessoas que ia contratando, ou pedindo «por favor, venham tocar para mim». Esse é um lado que não é visível, mas acho que se houver alguma sinceridade naquilo que fazes que se consegue perceber que ele sem dúvida era um homem solitário. Mesmo. Era um homem que não se dava a conhecer muito, era muito neutro fisicamente, na maneira como se mexia. O foco dele era, de facto, a música. A sua orientação sexual não era a base da vida dele. O lado histriónico da roupa, por exemplo, era um ato político. Aquilo era tudo pensado e fazia parte de uma estratégia que ele tinha, como via lá fora outros cantores fazer, não surgiu assim do nada. Mas não há, de facto, muito material. Mesmo as pessoas com que falei que eram amigas do António, ao fim de cinco, dez minutos, percebia que...

Ninguém o conheceu assim tão bem.

Ninguém.

Senti muito isso quando vi aquele documentário televisivo feito sobre ele na década de 1990. Mesmo aqueles que eram apresentados como os amigos dele, a partir de um certo ponto, deixam de ter respostas.

É. Chega-se ali a um sítio e... Mesmo nas conversas com a Lena d’Água, com quem falei muito, porque acho que este filme sem a alma da Lena não fazia sentido, senti que se chega ali a um ponto em que ele não deixava passar. Com isso, de certa forma, identifico-me: acho que tem de haver um certo mistério nas coisas. Hoje em dia então, é tudo tão escancarado que tenho a necessidade de voltar a não mostrar tudo. Com esta coisa do Instagram perdeu-se um bocado a magia. E acho que o António tinha noção disso, que um bicho vestido daquela maneira, sem grande interação ganha uma dimensão muito grande; se houver um mistério por detrás daquilo, ganha. E a verdade é que ainda hoje as pessoas continuam a tentar sempre saber mais qualquer coisa. Se tivesse sido tudo escancarado se calhar hoje não estávamos aqui nem se tinha feito este filme sobre ele. O extraordinário disto tudo também está nesse facto mistério. Agora, como é que se faz isso num filme hoje em dia? Como é que se dá credibilidade, ou densidade, àquele homem que de facto ajudou a abrir muito caminho? Tentámos focar-nos principalmente no amor, nessa coisa que ele tinha muito que era o foco de realizar o sonho.

Porque o filme centra-se sobretudo nessa fase.

Antes de gravar os discos, antes da fase que as pessoas conhecem hoje. Mesmo ao nível de arranjos musicais, todo o lado musical não era nada como é hoje. A Canção do Engate não era o que é hoje. Havia todo um lado mais minhoto, um lado mais popular, mais de baile, que recuperámos em algumas canções para o filme, e que de facto está mais presente nas primeiras abordagens dele. E que dependia também muito dos músicos que ele contratava: havia alturas em que tinha que contratar músicos menos bons, depois, quando começou a cortar mais cabelo, começou a poder pagar músicos melhores e portanto as músicas já tinham outros arranjos, mas o foco ele nunca perdeu. Cortava cabelo, adorava cortar cabelo, mas o foco era cantar. Então tentei focar-me também nisso. Quando tens um objetivo, pelo menos é assim que vejo o António, a tua cabeça está tão focada que há uma neutralidade à tua volta, uma aura meia neutra. Mesmo a Lena dizia muito isso, que ele era uma pessoa que não se mexia muito. Que parecia um daqueles animais que estão à espera de atacar.

O que é quase difícil de imaginar, em contraste com as imagens que temos dele em palco.

Completamente. Mas aí é que acho que se percebe o extraordinário, que há ali uma diferença:_que há uma pessoa e que aquilo é o artista.

Não me recordo já de quem dizia que, nem em estúdio, quando estava a gravar, conseguia ficar quieto, virado para o microfone.

Não. Aliás, nas cassetes nota-se, ouve-se muitas vezes a voz a fugir.

Mas até isso faz parte, não é?

Faz. Faz, porque ele queria cantar. E acho que quando tens isso muito presente te esqueces do micro, se calhar se tivesses uma câmara também nem ias à câmara. Queres é passar a energia, passar a verdade, passar o amor. Ele tinha muito isso. Vejo-o como aquelas panteras que estão à espera de atacar e, quando atacam, já está:_é o espetáculo. Ele sabia perfeitamente fazer aquela mudança rápida, ele montava um espetáculo, de repente, na rua, se fosse preciso, não tinha vergonha nenhuma. Essa disponibilidade não é fácil, tens mesmo de fazer este pacto:_«A minha alma é para vocês.»

Como é que ele disse, uma vez? «Faço de um corte de cabelo um espetáculo, eu sou um espetáculo, até a...

... até a varrer as ruas....

... sou um espetáculo».

Porque é mesmo isso. E essa é uma das coisas que mais me comovem, porque lembro-me que em miúdo já queria ser ator e pensava muito nisso, pensava:_«Tenho de estar sempre pronto, porque se estiver sempre pronto, sei lá, posso conhecer...» Como ele conheceu o Júlio Isidro. Imagina que conhecia um encenador ou alguém de quem eu gostasse muito:_fazia logo ali uma rábula para essa pessoa no meio da rua. E posso ser muito tímido noutras áreas, mas nisto da profissão... nisto não. Vivo para os outros, portanto tenho de estar sempre pronto para eles. E acho que isso era das coisas mais bonitas que o António tinha dentro dele.

Voltando ao que foi a preparação deste personagem, muitas dessas ideias, como a de que ele era uma pessoa solitária, etc., são conclusões a que se vai chegando, num processo de ir reunindo muitas peças, imagino. Como é que foi sendo construído o Variações para o filme, desde o casting? Antes disso, até, como é que apareceu este casting?

Estava a trabalhar com a Fernanda Lapa, a fazer o Sétimo Céu, de Caryl Churchill, na Escola de Mulheres...

Aliás,_como é que se ganha coragem para se ir a um casting dizer «eu sinto que posso fazer o António Variações»?

Exato, só isso é já uma grande coragem. Nunca senti nada disso. O mais interessante foi que tinha acabado de fazer a mudança. Tinha vendido tudo no Porto e vindo para Lisboa.

Porque o Sérgio é de Ovar.

Ovar, Furadouro, gosto de dizer que sou do Furadouro porque é a praia onde cresci, é lá que quero ir morrer. E um amigo meu, o Daniel Pinto, que fez a escola comigo no Porto, na ACE – Academia Contemporânea do Espetáculo, mandou-me uma mensagem a dizer:_«Olha, vai haver um casting para um filme sobre o António Variações, acho que devias ir»;_«Estás maluco, eu nem canto, vou agora cantar, não nem pensar, ainda por cima estou agora a trabalhar com a Fernanda, a fazer esta peça, quero concentrar-me nisso, não quero». Entretanto, liga-me uma outra amiga a dizer:_«Olha, dei o teu nome para este casting»; «Não me façam isso». Depois, outra pessoa, até que chegaram a mim e me perguntaram se estaria interessado. Tinha acabado de vir para Lisboa, ainda não tinha sequer recebido nada, não tinha um centavo, e pensei: «É trabalho, tenho que ir fazer o casting». Não conhecia quase nada sobre a vida do António. Mas tinha amigos que eram muito ligados à música e à história dele, então falei com alguns deles e houve um que me mostrou um artigo qualquer em que ele falava do seu amor pela Amália. E ali, de repente, fez-se luz na minha cabeça: «Meu Deus, será que é esta a oportunidade que tenho para poder realizar o sonho de estar perto da Amália?»

[Risos]

Se este homem amou a Amália, esse é um sentimento que também eu tenho cá dentro, portanto essa pode ser uma maneira de, por outro lado, poder chegar lá. Isto foi dois dias antes do casting, li mais umas coisas e pensei: «Não posso ir para lá vestido normalmente, tenho de ir já com uma cena assim...», então pintei os olhos, pus uma caveada [camisa sem mangas] preta e fui. Fui, tremia por todo o lado, suava, lembro-me perfeitamente, mas fui. Fui, cheguei lá, conheci o João Maia [realizador e coargumentista, com Karen Sztajnberg], cantei...

Porque era preciso cantar.

Era preciso cantar. Perguntei logo se podia cantar primeiro que assim ficava logo despachado. Cantei o Anjo da Guarda, todo desafinado, eu sei lá, foi uma mistela de sentimentos. E depois fiz a cena com a mãe.

A cena com a mãe que se mantém no filme.

Sim. É a cena de que mais gosto no filme, é uma cena especial. E ali, de repente, pensei que mesmo que não ficasse com o papel tinha que conhecer um pouco mais deste homem. Isto passou-se, depois houve problemas com a produtora inicial, fomos para tribunal, etc., mas comecei a criar mesmo essa vontade de o conhecer melhor. Primeiro, porque era do Norte, depois porque tinha esta coisa que também me era comum de querer sair muito cedo da terra, de querer sair da zona de conforto – e a Amália, que foi também o que me guiou na minha ida para o Porto. Quando digo guiar falo daquelas pessoas a quem uma pessoa não tem que dizer «se soubesses como me ajudaste na vida». Como o Fred Astaire ajudou a Amália: a Amália não se matou por ver os filmes do Fred Astaire. A Amália ajudou-me muito a acreditar quando estava sozinho no Porto. A certa altura, comecei a perceber que entre as produtoras ninguém queria que eu fizesse o filme, porque não era conhecido.

Queriam outro ator, mais conhecido?

Sim. Então disse ao João que não comprasse essa guerra, que fizesse o filme, que bonito era que se fizesse um filme sobre ele. O João disse que não, que queria que fosse eu. Depois também se começou a perceber que já não era só isso, que também estavam a querer desvirtuar a história. E a certa altura confesso que fiquei assim: «Está aqui um homem, cansado, o João, que anda há montes de tempo para fazer isto, um filme verdadeiro sobre um artista português que ajudou tanta gente a poder ser hoje diferente, e ninguém lhe dá a mão». Isso comoveu-me mesmo.

E pode ler-se na verdade como uma continuação da incompreensão que existiu em relação ao António Variações no seu tempo.

Temos isto no nosso país e só ligamos ao que é de lá de fora? Como se os que cá estão fossem menores. Quem dera a muitos países terem um António Variações ou outros artistas que nós temos. De repente, senti o cansaço daquele homem, percebi que estava sozinho neste caminho, que toda a gente o estava a abandonar, que ninguém queria [o filme], também porque o António continuava a ser uma figura controversa para muita gente. Há muito preconceito ainda à volta do António Variações – e muita falsidade também nisto do estarmos todos muito evoluídos, a dizer «que bom que se fez este filme». Acho que isto é tudo mentira porque, na prática, percebemos que quando era para investir ou para ajudar, as pessoas não ajudavam. As pessoas saíam, fugiam, não atendiam, desapareciam, fizeram o que fizeram ao António a vida toda. E eu pensei:_«Não posso deixar este homem sozinho, não posso. Não posso e vou estar e ficar com ele.» E fiquei estes 12 anos em que fui procurando coisas sobre ele e falando com pessoas, procurando principalmente o lado mais escuro do António, a certa altura. Comecei a falar mais com pessoas que ele conheceu intimamente e deixei de lado as pessoas que tomavam um chá ou que iam a uma exposição com ele.

Quem eram essas pessoas?

Homens que ele conhecia. Homens mais novos que o António que se envolveram com ele, que claro que me pedem o anonimato. Quis perceber também a relação dele com os homens e com o ato do amor. E o que fui encontrando foi um homem muito frio, mas ao mesmo tempo com muita falta de amor.

Essa frieza que talvez não seja apenas frieza, talvez venha daquele modo dele de viver, solitário.

Ele terá pensado, a certa altura, «isto com o Ataíde» [Fernando Ataíde, interpretado por Filipe Duarte] não vai dar nada, não vou ficar aqui a ser o segundo, vou pegar nas minhas coisas e vou-me embora. E foi-se embora, foi para a Holanda, e quando voltou percebeu que há coisas das quais não vale a pena fugir. Vão perseguir-te a vida toda. Comecei a focar-me um bocado nessas pessoas porque era importante para mim perceber esse lado. Todos nós temos um lado escuro, que não mostramos a ninguém. Quis perceber como é que eram as histórias todas que se contavam do Parque Eduardo VII, etc., que existiam e que na altura eram escondidas. O António levou porrada nesses sítios, eram sítios perigosos. E aí descobre-se também que o António é um homem que gosta do risco, que gosta de se pôr à prova, que gosta de se lançar – e que isso teve consequências. E a vida levou-o, mas ele nunca deixou de viver. Foi sempre, até à última. Nesta pesquisa conheci também uma pessoa que foi muito importante, que foi a última empregada que ele teve.

A casa dele era uma coisa maravilhosa também. É muito triste pensarmos que tudo isso se perdeu, que não vamos já poder ter acesso a isso.

Era. Ele fazia coleção de tudo. Foi tudo vendido ao desbarato, basicamente. A certa altura, quando se achou que o filme não ia ser feito, fez-se um leilão e vendeu-se tudo.

Mas então quando o filme começou a ser preparado a casa ainda existia mais ou menos como ele a tinha deixado?

Já não estava como ele a tinha, já estava com outras pessoas, já tinham sido feitas obras. Para o filme reconstituímos a sala toda e o quarto exatamente como eram, pelas fotografias da Manuela Gonzaga. O que aparece nas primeiras cenas do filme, aquelas vitrinas, era tal e qual. Ele gostava muito dessas coisas. Começou a ir para a Feira da Ladra muito cedo, só a ver coisas, tentar perceber quem eram as pessoas que tinham coisas estranhas, porque ele gostava muito de comprar coisas estranhas, e esta empregada contou-me histórias muito engraçadas. Contou-me uma linda: ele teve muitas empregadas ao longo da vida e, nos primeiros dias, quando contratava uma empregada, fechava todas as divisões da casa.

Fechava tudo?

Sim. Deixava o quarto, a cozinha e a sala, que não davam para fechar. Os quartos onde tinha as relíquias todas, ele fechava. Depois, havia um dia em que ele abria um desses quartos e metia, imagina, dinheiro lá dentro. Umas moeditas. E esperava para ver se elas diziam «olhe, senhor António, encontrei aqui estas moedas». Quando percebia que elas não diziam nada, eram logo despedidas [risos]. Esta última, que lhe devolveu o dinheiro, ficou, foi a última, foi até quem o foi reconhecer à morgue e foi quem lhe fez companhia nos últimos dias de vida.

A empregada?

Sim. Ela contou-me, a chorar, que estava já ele muito magrinho, já numa fase terminal, e lhe pedia para lhe levar cozido à portuguesa e ervilhas com ovos escalfados. Só para cheirar, só para sentir, porque já não podia comer. Ela diz que ele sofreu muito nos últimos dias, que foram muito dolorosos. A minha busca foi muito isto: uma malga minhota com pedaços de pessoas e pedaços de carinho de muita gente que conheci. Ouvi muita música, muita da música que ele ouvia – Joy Division, David Bowie, Amália Rodrigues –, a empregada contava que ele ouvia muita música em casa, muito alto. O_lado físico, claro, a gente vê nos vídeos mas não é assim tão fácil de reproduzir, porque aquilo são impulsos interiores para trazer a voz de uma certa maneira. Portanto houve todo um trabalho físico que fiz para chegar a esse impulso de dentro para fora. Fui apoiado pelo Rui Baeta que me ajudou muito ao nível do timbre e de ter segurança para acreditar que podia cantar as músicas do António.

Pois, porque isso foi sempre uma questão e foi sempre importante para o João Maia: que fosse o ator que o interpretasse a cantar.

Sim, e eu nunca quis. Achei sempre que o João ia desistir dessa ideia, achava que quando ele percebesse que eu não tenho nem metade da densidade do António a cantar ia dizer «não, tenho que pôr aqui a voz do António», que ainda por cima é uma voz muito característica.

Pois, o problema é esse.

E para mim é esse também. Só que a certa altura comecei a perceber que António Variações há um diferente em cada um de nós. E que a ideia do João era que no filme estivesse aquela busca da tentativa, erro, do desafinar, do não conseguir, do «corta, vamos fazer outra vez a cena do Trumps», que tivemos de fazer várias vezes porque não estava ali no sítio certo [ocasião em que João Pina tirou a fotografia que faz a capa deste b,i.]. Ou o concerto da Costa da Caparica, que depois acabou por sair [do filme]. Mas essa tentativa do erro e do live, o não saberes o que é que poderia acontecer naquele momento, porque eu nunca tinha tido essa experiência de estar a cantar ao vivo para as pessoas...

Porque o som foi gravado direto.

Nós fizemos todo o trabalho musical quatro meses antes de começarmos a filmar.

Com o Armando Teixeira.

Com o Armando Teixeira a trabalhar a parte toda musical e com o Rui Baeta a parte vocal. Gravámos tudo para depois, nas filmagens, termos guias para fazer as cenas dos concertos. Só que à medida que fui treinando, nesses quatro meses, fui ganhando alguma agilidade a cantar e, quando começámos a fazer as cenas ao vivo, eles perceberam que eu estava a cantar melhor [risos]. Então disseram:_«A gente tem que experimentar isto». Eu achava que estavam malucos, mas o João dizia:_«Prefiro ter-te a errar, e nervoso, e à procura do que ter os playbacks». E eu consigo perceber isto. É uma visão. Outro realizador, se calhar, se fizer um filme sobre o António, há de ter outra visão. A certa altura tive que me render e dizer «tudo bem, se vocês acham...»

É aquela altura em que é preciso confiar também.

«Vou confiar e vou dar o meu melhor.» Toda a pesquisa foi também sempre muito nesse sentido de acreditar que poderia passar alguma coisa às pessoas, porque há muita coisa que de facto ninguém sabe como é que era. Também não quis estar a inventar porque sentia que ia estar a enganar as pessoas, portanto o que fiz foi criar um António minimamente simples e verdadeiro para deixar espaço às pessoas para poderem fazer o António delas, que é o que acho que vai acontecer sempre.

No início estava a pensar nisso e acabei por não chegar lá:_há muito poucos registos e a verdade é que há muita gente que se lembra dele. E o Sérgio não é uma delas.

Não sou. E há mesmo. Com a peça [Variações, de António, um monólogo interpretado por Sérgio Praia em 2016, escrito e encenado por Vicente Alves do Ó] senti muito isso. Andei pelo país e era uma coisa... Estás a ver o Dia de Ramos? Foi isso que senti, que as pessoas iam lá deixar o seu amor. Era um «eu vim cá, mesmo sabendo que este ator não é o António, estive perto de qualquer coisa, voltei a lembrar-me».

Como é que surgiu a peça, no meio deste processo?

Fiz a peça porque a certa altura já não aguentava mais. Porque amo mesmo o que faço, então mal fiz o primeiro casting, mesmo ainda antes de saber se ia fazer o filme, comecei a pesquisar, a tentar perceber. E depois como houve muito esta coisa do «é, afinal não é», e eu disse «tenho, com muita pena, que o matar» – ou pelo menos trazê-lo cá para fora. Falei com o João, expliquei-lhe essa necessidade, disse que sentia que aquilo não era o fim e que até poderia ser o princípio de qualquer coisa. Então convidei uma pessoa completamente diferente deste meio a fazer este projeto, «vamos fazer uma coisa bonita sobre ele e pode ser que isto nos ajude também». Convidei o Vicente Alves do Ó para escrever um monólogo e foi maravilhoso trabalhar com ele. Fiz-lhe só alguns pedidos [risos]: para falar um bocadinho da Amália, da mãe e desta coisa que acho que é comum a todos nós, a busca do sonho. Acho que a vida se resume um bocadinho a isso. Mas o que sinto, mesmo, é que, independentemente deste filme ou o que quer que seja, o António é uma massa que vive por ela. Como a Amália. Há assim uns seres... que se prolongam. Acho que é daí que vem aquela ideia da eternidade. Tenho a sensação de que é porque aquelas pessoas deram mesmo a alma àquela arte e deixaram a delas um bocadinho de lado.