Política a Sério

O Homem e a sua circunstância

Pedro Nuno Santos, que começou na extrema-esquerda, é hoje o símbolo de um governo autoritário, que não hesita em lançar mão de estratagemas para atacar grevistas. Não peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu.

Lá diz a sabedoria popular: ‘não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu’.

São incontáveis os casos de pessoas humildes que subiram na vida e, chegadas lá acima, se tornaram implacáveis para com os seus servidores.

Vem isto a propósito do ministro Pedro Nuno Santos.

Ouvi falar dele pela primeira vez quando, no tempo da troika, afirmou, tonitruante, que o país devia dizer que não pagava a dívida.

Se o fizesse, eles – os credores – até tremeriam de medo.

Nessa altura, nada distinguia Nuno Santos dos dirigentes do Bloco de Esquerda.

Mostrava o mesmo radicalismo, o mesmo voluntarismo, o mesmo ódio ao capitalismo, o mesmo ímpeto revolucionário, a mesma incompreensão da sociedade de mercado.

Portugal não tinha de cumprir as regras porque, do alto da sua importância, ia meter medo ao mundo inteiro.

Oriundo da média burguesia, com fascínio pelos bons carros – chegou a comprar um Porsche que depois vendeu por vergonha –, Pedro Nuno Santos era um bom exemplo do esquerdismo confortável.

O pai andou na juventude a distribuir O Grito do Povo, jornal da UDP, mas depois enriqueceu na indústria do calçado e esqueceu a revolução.

Quando se pôs a questão de formar a ‘geringonça’, Nuno Santos foi naturalmente chamado para a mesa das negociações com o PCP e o BE e ficou encarregado dos contactos com eles, pois falava a mesma linguagem e percebia os seus objectivos.

Só que, agora, já não estava do lado da oposição – mas do lado do poder.

Defendia as posições do Governo contra os devaneios utópicos e uma certa irresponsabilidade da extrema-esquerda.

O passar do tempo consolidou a sua posição – começando a falar-se em Pedro Nuno Santos como candidato à liderança futura do PS.

Como sucessor de António Costa.

E este acabou por lhe reconhecer o estatuto e premiar os bons serviços ao promovê-lo a ministro.

É claro que, neste papel, o homem ainda se sentiu mais importante.

Começou a surgir mais emproado.

Mais cheio de si.

Falando de queixo levantado, para parecer mais distante.

E esta greve dos camionistas mostrou um Nuno Santos já noutro papel.

Já não era o radical que queria meter medo ao mundo.

Já não era o negociador que tentava compatibilizar posições diferentes.

Era o ministro arrogante que se intrometia nas negociações entre os patrões e os trabalhadores, colocando-se ostensivamente ao lado dos patrões contra os trabalhadores.

Parecendo quase o representante dos patrões naquele conflito.

Ou um seu oficial às ordens.

A sua estratégia consistiu, primeiro, em cercar aos grevistas.

Começou por mediar a assinatura de um acordo entre a Antram e a Fectrans, que tornava os camionistas em greve mais isolados.

E depois patrocinou um entendimento entre a Antram e o SIMM que, não representando estes quase nada (apenas 2,5% dos trabalhadores), tinha a virtude de deixar totalmente sós os camionistas de matérias perigosas.

Finalmente, disse que não mediaria um acordo com os camionistas enquanto eles estivessem em greve – que era uma exigência da Antram.

Mas então não mediou a negociação com o SIMM estando ele em greve?

As regras eram umas para uns e outras para outros?

Uns eram filhos e outros enteados?

Depois vieram explicar, atabalhoadamente, que o SIMM tenha escrito um documento a comprometer-se a acabar com a greve antes de se iniciar a negociação.

Mas atenção: e se as negociações corressem mal a greve seria desconvocada?

Julgo que não.

Ou seja: as negociações tiveram lugar com os camionistas do SIMM em greve.

O objectivo foi mesmo isolar os outros, criando para o SIMM regras diferentes.

Esta greve é uma trapalhada, que vai ter efeitos devastadores num futuro acordo de esquerda.

Pedro Nuno Santos apareceu ostensivamente ao lado dos patrões – ora o PCP e o BE, por muito que esta greve lhes fosse antipática, também não pode apoiar um Governo que assume posições tão ostensivas contra trabalhadores, isolando-os, atacando-os, substituindo-os por militares.

Pedro Nuno Santos, que começou na extrema-esquerda, é hoje o símbolo de um governo autoritário, que não hesita em lançar mão de estratagemas para atacar grevistas.

Não peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu.