Opiniao

Vercingetorix, historiador dos EUA e amigo de Tolkien

Estes factos anedóticos têm alguma importância na vida de um homem? Talvez não tenham. Mas constituem um excelente antídoto contra as aborrecidas discussões teóricas e metodológicas que são tão caras a certos historiadores. Brogan, pelo contrário, considerava-as uma perda de tempo e adorava biografias. Façamos-lhe, pois, justiça.

 

Um destes dias, passando os olhos por uma página de obituários, topei com um nome familiar - Hugh Brogan. Não foi preciso puxar muito pela cabeça para o localizar: trata-se do autor da Penguin History of the USA, um livro compacto, de 700 páginas cobertas com uma letra miudinha, que li há coisa de cinco ou seis anos. A avaliar pelas notas que tirei na altura, encontrei muita informação com interesse e a leitura fez-me bom proveito. Há um capítulo fascinante sobre a dizimação dos índios nativos e excelentes sínteses sobre os principais momentos, movimentos, instituições e protagonistas da história americana, da colonização à rebelião contra o império britânico, da independência à guerra civil, do assassínio de Lincoln à demissão de Nixon - e um pouco mais além.

Escrita ao longo de 15 anos, esta História dos Estados Unidos mereceu os mais rasgados elogios da crítica. Segundo o obituário do The Telegraph: «Notável pelo estilo elegante e antiquado e pelo humor enxuto de Brogan, oferece uma lição sobre como escrever história convincente, agradável e acessível ao leitor não especialista».

Concordo inteiramente. Ainda assim, para ser completamente honesto, devo dizer que o livro não me encheu as medidas. Porquê? Talvez porque lhe falta uma certa dimensão cultural. É sempre injusto julgar uma obra pelo que não tem, mas não encontrei qualquer referência ao jazz, ao teatro da Broadway, a Hollywood ou aos arranha-céus, para não falar de escritores como Scott Fitzgerald, Steinbeck ou Hemingway.

Mas regressemos ao obituário. A história do seu invulgar nome completo - Denis Hugh Vercingetorix Brogan - merece ser recordada. A mãe, arqueóloga, sentiu-se mal enquanto participava numa campanha de escavações no local onde se pensava que o chefe gaulês Vercingetorix (lembram-se do Asterix?) tinha sido derrotado por Júlio César. Foi chamado um médico, que examinou a senhora e concluiu que não estava doente, mas grávida. O marido ficou tão contente com a notícia que prometeu que a criança, caso fosse um rapaz, se chamaria Vercingetorix. E cumpriu.

O Telegraph conta também como, durante a infância de Denis Hugh Vercingetorix, Tolkien era visita lá de casa. «A casa dos Brogan tinha uma escadaria sinuosa e um dos talentos de Tolkien, recordava Brogan, era uma partida em que caía pelas escadas abaixo: ‘Subia ao primeiro andar e caía por ali abaixo de forma bastante espetacular - cerca de uma dúzia de degraus - com os braços e as pernas a disparar em todas as direções, e com uma enorme barulheira’».

Estes factos anedóticos têm alguma importância na vida de um homem? Talvez não tenham. Mas constituem um excelente antídoto contra as aborrecidas discussões teóricas e metodológicas que são tão caras a certos historiadores. Brogan, pelo contrário, considerava-as uma perda de tempo e adorava biografias. Façamos-lhe, pois, justiça.