Opiniao

Memórias e restos infecciosos da guerra

Não surpreende que haja trotskystas, estalinistas ou nazis, mas haver partidos, com expressão eleitoral, ainda que exígua, choca e atemoriza 

Memórias da Guerra, que a RTP-2 está a exibir, é, pelos três episódios que pude apanhar e ver, uma série documental muito interessante, com registos filmados da época. 

Vejam, por exemplo, o episódio que inclui intervenções de Lenine, Estaline, Trotsky e Hitler. São iguais. Irmãos desavindos. Embora só a partir de certa altura – porque antes houve elogios mútuos e alianças. 

Mas são todos filhos de Marx, todos decididos a salvar a humanidade, mesmo tendo de sacrificar metade dela a esse delírio. Passou-se na Europa e são todos europeus. Depois a guerra incendiou o mundo e houve milhões de mortos.

Hoje sabe-se tudo isto. Ou melhor: sabe quem quer e quem é capaz de saber. 

Facto que, quando se vê a série, torna ainda mais dramática a interrogação seguinte: como é possível que ainda haja hoje grupos políticos que reivindicam a inspiração de tais monstros e ideologias? 

Não surpreende que haja trotskystas, estalinistas ou nazis, porque na diversidade estelar dos seres humanos haverá sempre de tudo. Mas haver partidos, com expressão eleitoral, ainda que exígua, choca e atemoriza.

O contexto em que tais monstros se revelaram e chegaram ao poder absoluto, igualmente bem documentado na série, conduz-nos a outras interrogações e a reflexões que se impõem aos homens livres. Por exemplo: como evitar que tal se repita?

Estas dúvidas remetem para a fragilidade que a democracia liberal volta hoje a revelar, perante ameaças que vêm desse passado próximo -- restos reanimados pelos novos demónios trazidos pela pós-modernidade. 

Aquilo a que Amin Maalouf chama os «novos cavaleiros do Apocalipse», os três escolhos do nosso tempo: turbulências identitárias, islamismo radical, ultraliberalismo (termo mais apropriado do que neoliberalismo, que está a corromper o papel regulador que um verdadeiro Estado liberal deve exercer). 

Estes escolhos, se não forem vencidos, conduzirão ao «naufrágio das civilizações» (título do livro que Maalouf acaba de publicar).

E porquê a fragilidade da democracia-liberal? A esta questão tentaremos responder num próximo artigo.