O Mundo em Calções

Eléctricos cada vez mais vermelhos

Josef seguiu o caminho do pai. Não na morte, claro, que era ainda uma criança. No futebol. Era pobre e jogava descalço. Primeiro nos juniores do Hertha de Viena, depois em clubes menores como Schustek ou o Farbenlutz. E marcava golos. Marcava golos e golos e golos.

Para checo, essa língua bicuda, cheia de ângulos retos e triângulos isósceles, Bican até é um nome redondo. Tal como Huss. Um dia eu estava na velha praça de Praga, de frente para a estátua de Jan Huss, e os meninos jogavam à bola sem vaidade nem metafísica. Porque também não há metafísica numa velha praça que se chama precisamente Velha Praça, ou Staromstské nám, se quiserem encher-lhe o nome com os paralelepípedos que revestem o chão.
Nessa língua que desafia a geometria, Huss soltou um gemido à medida que as chamas iam consumindo o seu corpo e sua propagada heresia: «Svatá prostota!». Santa simplicidade! No lugar onde se ergue a sua estátua, o fogo recusava-se a devorá-lo para desespero do seu algoz, o Bispo de Lodi. Então, uma mulher do povo, movida pelo espírito prático das gentes que sentem ter sempre algo para fazer e recusam o ócio como um pecado, aproximou-se das lentas labaredas inquisitoriais e robusteceu-as com os ramos secos de azevinho que trazia às costas. Talvez nem ela mesmo soubesse porque o fez. Era apenas uma fogueira que não ardia e ela sabia como fazê-la arder. Fê-lo com a mesma santa simplicidade com que os meninos jogavam à bola nessa tarde de Dezembro em que eu estava em Praga e a neve caía do céu, branca e leve, branca e fria, há quanto tempo a não via, e não, meu Deus, não tinha saudades porque ao contrário de Augusto Gil não acredito em Ti, com maiúscula ou seu maiúscula.

Huss foi assassinado e os checos distanciaram-se desse Deus católico, apostólico e romano que mandava assar as almas que punham em causa as suas leis indubitáveis. Era um homem livre e gostaria de ter visto, em redor dos seus pés de bronze, meninos encapuzados correndo atrás de uma bola, soltando bafos de condensação à medida dos seus esforços que faziam perigar as meses das esplanadas praticamente vazias.

O filho de František e Ludmila Bican, Josef, também era checo. Nasceu quase 500 anos após a morte de Jan Huss, em Viena, no Império Áustro-Húngaro, mas a sua família era de Sedlice, na Boémia. František jogou no Hertha de Viena e combateu na IGrande Guerra. Uma vez, durante um jogo, foi atingido por um adversário com uma joelhada na zona dos rins. Desprezou a dor. Não tardou a morrer.
Josef seguiu o caminho do pai. Não na morte, claro, que era ainda uma criança. No futebol. Era pobre e jogava descalço. Primeiro nos juniores do Hertha de Viena, depois em clubes menores como Schustek ou o Farbenlutz. E marcava golos. Marcava golos e golos e golos.

Dizem que nos 406 jogos da sua carreira marcou 607 golos. Mas as contabilidades são tão fiáveis como as palavras. Também me lembrei de Bican, nessa tarde em que vi os meninos correndo atrás da bola sem metafísica na grande praça velha no centro da cidade. E, como recordo sempre um poema qualquer de um poeta qualquer, por causa de tudo o que o meu pai me ensinou acerca de poemas, lembrei-me igualmente de Oldich Mikulášek, poeta checo, que escreveu: «E os homens/Mesmo os mais tristes/Deixavam derreter a neve/Nas sombras dos seus rostos fechados...». 
Em 1925, Bican, a quem chamavam Pepi, recebia um schilling por cada golo marcado. Não tardou a ser contratado pelo famoso Rapid de Viena e a ser protagonista de uma polémica transferência para os inimigos do Admira. Era um homem bruto dentro de campo. Abusava dos seus ombros largos e do seu peito ancho, rematava com uma potência inaudita e era obcecado pelas balizas adversárias.

O tempo trouxe consigo o nazismo, e Bican era um homem que prezava muito a liberdade. Foi para Praga, para o Slávia, o seu nome foi escutado por todos os cantos da Europa. Em 11 anos jogou 217 jogos pela equipa da estrela vermelha ao peito e marcou 395 golos. Era o seu destino.

Pepi corria os 100 metros em 10,8 segundos e, por brincadeira, colocava 10 garrafas de cerveja equilibradas na trave de uma baliza deitando-as abaixo com precisão chutando um bola à distância de 25 metros.

O tempo trouxe consigo o comunismo. Antonín Zápotocký, que foi Presidente da República, nunca lhe perdoou a desfeita de ouvir o povo, nas manifestações de Maio, gritar: «Viva Zápotocký!» à mistura com «Viva Josef Bican!».
Josef deixou de ser checo para ser apenas um burguês austríaco, ele que viera da pobreza absoluta. Foi obrigado a sair do pedestal e a jogar em clubes menores como o FC Vítkovice ou o FC Hradec Králové. Nunca lhe perdoaram o espírito aberto do tamanho do seu sorriso. Viveu em Brno onde foi treinador e Mikulášek trovava: «O tempo estava tão belo/Na cidade de Brno/e o velho feiticeiro/cofiava a barba/procurando reparar as injustiças...». Envelheceu vendo passar os elétricos cada vez mais vermelhos.

afonso.melo@newsplex.pt