Cultura

Marcello Duarte Mathias: ‘Não sei se correspondi ao muito que a vida me deu’

Diz que teve ‘uma sorte imerecida’. Membro de uma dinastia de diplomatas fundada pelo seu pai, foi promovido depois do 25 de Abril e passou pelos dois postos com que sonhava. O gosto pela escrita levou-o a escrever ao longo dos anos vários diários que acabam de ser reunidos num único volume.

Nasceu numa família muito ligada ao regime – o seu pai, um homem de personalidade «irradiante» e «terrivelmente pessimista», foi diplomata e ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar. Marcello Duarte Mathias seguiu-lhe as pisadas e entrou para o MNE aos 31 anos. Hoje, fazendo o balanço, acha que teve pelo pai «uma admiração talvez excessiva» que o impediu de libertar-se e afirmar-se. Ainda assim, fez uma carreira brilhante que passou por Brasília, Bruxelas, Nova Iorque, Nova Deli e Paris (UNESCO), e cuja síntese se encontra em No Devagar Depressa dos Tempos, uma antologia dos seus diários, que acaba de ser publicada pela D. Quixote.

Por que sentiu esta necessidade de escrever um diário? Para agarrar o tempo, por ter medo de que as coisas que ia vivendo se perdessem?

Sem dúvida por essas motivações, mas também pelo simples gosto de escrever, e a ilusão de que as coisas escritas adquirem logo outra realidade, outro peso, se assim se pode dizer. Escrever é a gente redimir-se, é a gente encontrar-se. É a gente inventar-se, colmatar certas lacunas, certas insuficiências – ou pelo menos dá essa ilusão. Escrever um diário é a necessidade a certa altura de a gente encontrar um balanço da nossa vida, ou criar âncoras no tempo.

Lembra-se das circunstâncias em que começou o diário?

Comecei-o aqui, em Portugal. Vivia sozinho, o meu pai estava lá fora. Devo ter começado a escrever num momento de neura [sorri].

Que idade tinha?

23, 24 anos. Mas o diário teve grandes intermitências, grandes intervalos, grandes ausências. Quando vou para Buenos Aires não escrevo nada. Depois quando fui colocado em Paris pensei que ia escrever. Depois parei – chego [a Portugal] em 2003 e recomeço em 2007. O que me surpreendeu, porque não sou nada metódico, é que quando se olha para esse livro há uma continuidade na maneira de olhar para o mundo – no fundo o homem é o mesmo, as circunstâncias é que diferem.

Há uma passagem em que diz qualquer como ‘quando se vive não se escreve diários’... 

Isso é uma frase do Lúcio Cardoso sobre este tipo de diários intimistas que eu cito. A ideia é mais ou menos esta: ‘Um diário é feito da ausência de acontecimentos’. O diário é uma introspeção. Você não vai escrever no meio de um ciclone... o diário é um momento de repouso, um no man’s land – nessa terra de ninguém é que se vai exumar aquilo que nos dilacera, aquilo que nos comove, aquilo que nos cativa. O fator fundamental neste tipo de escrita é a ausência de acontecimentos: o tipo está no quarto sozinho perante ele próprio.

Para a publicação teve de expurgar muitas passagens do texto original, fosse por revelarem muito de si ou da sua intimidade, fosse por comprometerem outras pessoas? Se bem que o que diz sobre o Bernard-Henri Lévy não é simpático…

É natural que relendo o que se escreveu, sobretudo com o fito de o publicar, se elimine ou se corrija certas passagens. A minha preocupação, porém, em tudo o que escrevo, não é tanto expurgar o texto por esta ou aquela razão, mas, sim, torná-lo sempre que possível mais legível, mais leve. Em relação a essa alusão a Bernard-Henri Lévy, há nele – a par do brilho típico do escol intelectual francês – um lado cabotino que não me convence e é um tudo-nada irritante. É só isto.

Disse que um diário ‘é a gente inventar-se’. Esta síntese dos seus diários corresponde à imagem que gostava que ficasse de si?

Não se pode fazer uma coisa destas sendo artificial ou presunçoso – salta logo aos olhos. Há que ser autêntico. Não quer dizer que um tipo se ponha a nu... Em livros deste tipo, muitas vezes vê-se ‘este tipo está a armar ao pingarelho, isto é falso’. Em relação àquilo que você diz de construir uma imagem... não tenho bem essa noção, porque sou muito crítico de mim mesmo. Seja por causa dos meus pânicos e ausências, seja pela sensação de desperdício que tenho da minha vida. Se fosse uma coisa para me elogiar e vangloriar acho que teria escolhido outras páginas.

Gostava que me falasse um pouco da sua casa da Abuxarda, onde escreveu algumas destas páginas. Tem uma ligação especial a essa casa? É um lugar impregnado com muitas memórias?

Esta casa da Abuxarda – tem aliás por nome Sabará, em homenagem às cidades históricas de Minas, no Brasil, Ouro Preto, Mariana, Congonhas – foi feita de raiz em 1973/74, pouco antes de partirmos para Brasília, que foi o meu primeiro posto diplomático. O arquiteto, ‘Tojé’ Brito e Cunha, era nosso conhecido e tínhamos apreço por muitos dos seus trabalhos. Para lá do terreno em volta, a casa beneficia também de uma excelente biblioteca, que já não chega infelizmente, pois já tenho várias estantes na garagem pejadas de livros! Por outro lado, uma casa também envelhece e esta foi envelhecendo connosco. No entanto, as minhas memórias ficarão sempre ligadas à casa que os meus pais tinham aqui no Estoril, na rua Câmara Pestana, onde passei anos e anos e que, infelizmente, já foi vendida. Essa, sim, estava repleta de afetividades e de memórias.

Que tipo de livros tem a sua biblioteca?

Tem muitas memórias, muitas biografias, muitas autobiografias, muitos diários. Não quer dizer que não tenha romances, mas a partir de certa idade a ficção – acho que é uma regra – interessa pouco. E há de facto documentos pouco conhecidos, autobiografias às vezes de gente pouco conhecida, absolutamente extraordinários. Depois, por razões de ordem profissional tenho imensos livros de História. Falo aí, por exemplo, do Livro Branco do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Achei piada ter escrito a propósito de certo episódio: ‘basta ler os 14 volumes do Livro Branco do Ministério dos Negócios Estrangeiros’, como se fosse a coisa mais simples do mundo!

[risos] E têm interesse desigual. Agora, há ali uma coisa importante, que é o confronto político e psicológico entre Salazar e o Armindo Monteiro. A certa altura houve um desentendimento e o Armindo Monteiro saiu. Era um homem extraordinário, muito senhor de si, muito cheio de si e falava de igual para igual com o Salazar. Infelizmente morreu muito novo e a casa dele em Loures, que tinha uma biblioteca fantástica, ardeu.

Esteve como cônsul em Nova Iorque, passou por Brasília, foi embaixador na Índia e em Buenos Aires.

E na UNESCO.

E na UNESCO. Deu-se bem com esta vida nómada?

Entrei muito tarde para o Ministério [dos Negócios Estrangeiros], com 31 anos. E isso é muito mau, porque os bons postos é no fim da carreira que a gente os obtém. Mas gostei de todos. Cada posto é diferente e nós temos de ser também diferentes no posto. Um diplomata no Zimbabué ou em Pequim não é a mesma coisa que em Nova Iorque ou em Quebeque. E tem de haver um grande interesse em conhecer os povos e a cultura. O que acontece com muita frequência é que...

... quando começa a habituar-se tem de se ir embora?

O primeiro ano é de adaptação. Passados dois, três anos, quando a gente começa a falar a língua, começa a perceber, a conhecer as pessoas... pás! – vai embora. Isso é um pouco frustrante, mas a carreira é feita disso.

O que andou a fazer até lá para só aos 31 anos entrar no MNE?

Fui um estudante muito intermitente, digamos assim. Sempre preferi as Selinas às sebentas [Selina é uma inglesa de 18 anos referida no diário, que o autor conheceu quando estudou em Oxford]. Para mal dos meus pecados, preferi sempre as Selinas às sebentas e isso paga-se caro.

Uma das fotografias reproduzidas no livro mostra-o na companhia da Madre Teresa de Calcutá. Também refere, de passagem, um encontro com Anthony Burgess. As suas funções permitiram-lhe conhecer muitas pessoas extraordinárias?

A pessoa que mais me marcou foi o meu pai, mas tive a sorte ao longo da minha vida de conviver e trabalhar com gente de valor. A personalidade que mais me seduziu foi o Ernesto Guerra Da Cal, poeta e ensaísta, o mais português dos galegos e certamente um dos maiores especialistas do Eça de Queiroz e da sua obra. Era aquilo que os ingleses designam por colourful character. Há gente assim, maior do que a vida, o Ernesto era desses! Esse encontro com Anthony Burgess foi numa esplanada em Londres, num dia de Verão. Eu estava sozinho e acabara de comprar três livros de escritores ingleses que me pus a folhear, e o Burgess estava na mesita ao lado, acompanhado por sua mulher, italiana, salvo erro. Não sei por que bulas, começámos a conversar sobre os ditos autores que ele conhecia pessoalmente, eu acabara de ler um estudo dele sobre Hemingway, e ficámos ali um bom pedaço a trocar impressões sobre tudo e nada como velhos amigos que finalmente se reencontram! O acaso tem destas coisas gratificantes.

O seu pai, Marcello Mathias, foi também diplomata, embaixador, e ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar. Dado o seu estatuto e as suas responsabilidades, era um pai distante?

O meu pai era um homem muito independente de caráter. Bem sei que isto fará sorrir certas pessoas – como se pode ser independente sendo ministro de Salazar? Mas era. Nunca pertenceu a nada, nunca pertenceu a uma confraria, a nenhum partido. Foi uma pessoa por quem eu tive uma admiração talvez excessiva. Hoje chego ao fim da vida e tenho a impressão de que tinha uma admiração tão grande por ele que não me libertei. Isto é uma coisa muito difícil de assumir, mas acho que essa admiração me inibiu de me afirmar.

O seu pai falava de trabalho em casa?

Falava. Contava muitas histórias. O grande período da carreira do meu pai é quando ele vem do Brasil, em 45. O Teixeira de Sampaio, o homem que mandava em todo o Ministério [dos Negócios Estrangeiros], morre em maio de 45, a beijar aliás a mão da Rainha D. Amélia – ele era muito monárquico. E subitamente não há ninguém no Ministério dos Estrangeiros – estou a simplificar muito. Pela força das circunstâncias, o meu pai começa a trabalhar com o Salazar de manhã, à tarde e à noite, a receber os embaixadores e a dirigir o Ministério dos Estrangeiros. Houve o problema de Macau, o problema de Timor, o problema dos Açores – imensos problemas – e em 45, 46, 47, o meu pai tem uma carreira fulgurante por causa disso. O Salazar apoiou-se nele, ele era o interlocutor de Salazar nas embaixadas, e teve uma promoção-relâmpago. Passados dois anos e meio é colocado como chefe de missão em Paris. Se o Teixeira de Sampaio não tivesse morrido as coisas ter-se-iam passado de maneira diferente.

A sua opinião sobre Salazar, tanto quanto podemos perceber neste livro, é matizada, reconhecendo-lhe importantes qualidades e «um sonhar grandeza». O que acha da forma complexada e maniqueísta como os portugueses lidam com Salazar e o seu legado?

Tem toda a razão em sublinhar ‘a forma complexada e maniqueísta’ como a figura de Salazar é hoje referida na comunicação social. Para lá das convicções pessoais deste ou daquele, há de tudo um pouco: sectarismo ideológico, o receio de pisar o risco (não vá o diabo tecê-las e ser-se apodado de ‘fascista’, não há pior insulto!), não levantar ondas, nadar com a corrente, tudo isto e muito mais à mistura com uma boa dose de pusilanimidade. Inconformismo, sim, mas só encartado, com diploma e selo branco! Nisto tudo, o que mais impressiona é precisamente a falta de independência de espírito, a pouca autonomia mental de que uns e outros dão provas. Neste como noutros domínios afins. É curioso notar que Portugal é talvez hoje o único país da Europa onde a predomínio cultural das esquerdas seja tão omnipresente. 

Esse predomínio é uma especificidade portuguesa?

Isso não existe em França, não existe na Inglaterra, não existe na Itália. Forças de esquerda há em toda a parte. Agora, este predomínio... O medo que as pessoas têm de ir contra a corrente, de navegar contra a corrente, de se afirmar contra o Bloco de Esquerda ou contra outra dessas forças é impressionante.

Mas qual é a sua opinião sobre Salazar?

É preciso inseri-lo na sua época. Dizê-lo e repeti-lo constitui uma enorme banalidade, mas as banalidades, não raro, são verdades comprovadas. Quanto ao mais, com as suas sombras e daltonismos, foi um português dos quatro costados e um político de invulgar bom senso e inteligência. E um estadista de envergadura internacional pela intuição que tinha das grandes coordenadas externas. De resto, em muitos aspetos, a personalidade Salazar toda ela impregnada de cultura histórica bem como a paixão que tinha por Portugal fazem dele – antevejo já nos espíritos superiores que nos estarão agora a ler um sorriso de indulgência – um português de Quinhentos! George Ball, o emissário que o Presidente Kennedy enviou ao nosso país para discutir a questão do Ultramar, desabafou no fim das muitas conversações que teve com ele: ‘É muito difícil dialogar com um contemporâneo de Vasco da Gama’!

Estando a sua família muito ligada ao regime, como viveu o 25 de Abril?

A História é sempre pendular. Era natural que após décadas de um regime de cariz autoritário e conservador emergisse qualquer coisa de sinal contrário. Dito isto, no período conturbado de 1974/75, mais conhecido pelo de ‘manicómio em auto-gestão’, cheguei a convencer-me que um confronto violento era inevitável, incluindo a possibilidade de uma intervenção estrangeira, o que teria sido desastroso para o nosso país. Felizmente que me enganei. Deu-se o 25 de Novembro de 75 que veio repor as coisas no seu devido lugar.

No 25 de Abril não se sentiu de alguma forma acossado?

Não, não. Até lhe devo uma promoção. Fui colocado em Bruxelas, onde fui trabalhar com o embaixador Siqueira Freire e com o embaixador Ernâni Lopes naquela equipa que preparou a nossa adesão à então CEE – Comunidade Económica Europeia.

Não foi ostracizado, portanto.

Nada. Pegaram em mim, promoveram-me, puseram-me em Bruxelas, que é um posto magnífico. Agora, vim cá em agosto de 75 e face à atmosfera que encontrei aqui pensei – erradamente – que o confronto era inevitável. Felizmente resolveu-se tudo à portuguesa.

E na sua família?

Como sabe, o meu pai negociou e trouxe todo o espólio artístico do Gulbenkian, inclusive obras que estavam proibidas de sair de França. O livro que este senhor escreveu [Jonathan Conlin, O Homem Mais Rico do Mundo] nem menciona o nome do meu pai. Quando terminou a carreira, o meu pai foi administrador da Gulbenkian e houve uns sujeitos que já morreram – e é pena que não os possa encontrar – que o sanearam, uma coisa mesquinha. O meu pai foi para Paris, onde viveu dois ou três anos numa espécie de quartito alugado. Mas como era uma pessoa terrivelmente pessimista, tudo de mau que lhe acontecia ele já estava psicologicamente preparado.

Associamos sempre a diplomacia a um certo requinte e boas maneiras. Isso notava-se em casa dos seus pais?

O ambiente era de gente bem-educada, mais nada. Discutia-se tudo, falava-se de tudo.

Não havia uma certa formalidade?

Não, não. De todo. O meu pai fazia sempre uns almoços ao domingo aqui na rua Câmara Pestana, onde ele tinha uma casa, connosco, com os nossos filhos, os netos, um ambiente muito agradável, muito descontraído, não havia nenhumas etiquetas. Nem o meu pai tinha esse feitio nem a minha mãe.

A sua mãe era grega, não era?

Sim. O meu pai toda a vida quis ir para Paris e acabou por ir como cônsul. Na altura havia um problema com os judeus de Salónica, alguns deles eram de origem portuguesa, tinham avós portugueses, outros não tinham documentação, e o meu pai, que tinha grande experiência consular e jurídica, foi mandado em comissão de serviço para pôr aquilo na ordem. Ficou lá um ano, conheceu a minha mãe e casou-se. Depois voltou para Portugal e mais tarde regressa a Paris já numa posição muito melhor.

Dizia-me que lá em casa não havia etiquetas, que era descontraído. Em todo dava-se conta de que pertencia a uma família privilegiada?

Em que sentido?

Estudou em Oxford, por exemplo...

Nesse sentido sim. Tive e tenho absoluta convicção de que tive uma sorte imerecida. Isso é quase um complexo moral em relação a coisas que me foram dadas e que nada fiz para as obter. Não sei se correspondi ao muito que a vida me deu.

A páginas tantas fala no livro sobre o filme O Grande Silêncio, o que lhe merece uma reflexão acerca do isolamento dos cartuxos, e de umas freiras a sul de Luanda que cuidavam de uma leprosaria. Isso levou-me a questionar se também viveu ‘numa redoma’ (que é a imagem que as pessoas têm de os diplomatas) ou também tomou contacto com realidades mais duras.

Essa da redoma pertence ao século XIX! Os diplomatas são funcionários como quaisquer outros e, quando necessário, estão no terreno seja ele qual for! Nos últimos anos, como sabe, não têm sido poucos – estou-me a lembrar de alguns diplomatas estrangeiros – aqueles que foram vítimas de raptos ou de assassínios. No caso que cita dos Cartuxos e das freiras da leprosaria em Angola, o ponto que me interessava era apreender as diferentes expressões da fé religiosa: nuns, a opção pelo isolamento monacal; noutras, o sofrimento em partilha.

Dos postos por onde passou qual foi o que lhe deixou mais saudades?

Estive pouco tempo mas gostei muito de Nova Iorque. Tive um amigo que me desafiou a definir Nova Iorque numa palavra. Como não fui capaz de responder, ele antecipou-se e disse-me: ‘A energia’. E é de facto a palavra. As exposições, o New York Times ao domingo – uma bíblia! É uma cidade onde a gente faz o que quer. Se gosta de jogar xadrez joga xadrez, se gosta de pingue-pongue joga um campeonato de pingue-pongue. Há uma história que se conta de um tipo que disse a meio da noite: ‘Vou comprar um elefante’. Foi ao circo, ofereceu dez vezes o valor e trouxe o elefante. É uma cidade que oferece toda a espécie de possibilidades.

‘Oferece’ a quem tem dinheiro...

Mas toda a vida americana é isso. Se a gente pensa na democracia americana, é eleito o candidato que tem mais dinheiro, que tem mais base financeira. É a negação da democracia. Eles acham isso normal, eu não acho. Outro posto de que gostei foi Nova Deli. Mas para a Índia não são precisos quatro anos, são precisos quatro séculos. É uma imensidão. A gente tem um glimpse, um vislumbre. É engraçado que tive esses dois postos que queria ter – Nova Iorque e Nova Deli. Sempre me interessou mais a Índia do que a China – os meus colegas que estiveram na China e no Japão vieram todos muito marcados. Eu não fiquei marcado pela Índia. Acho que desde muito novo fechei-me sobre mim mesmo.

Isso para um diplomata é importante, proteger a sua personalidade para não se deixar moldar demasiado pelos lugares por onde passa?

Tem de ser, se não é-se um tonto. É-se chinês na China, argentino na Argentina... Não dá.

Uma última questão. Acha que esta conversa vai merecer uma referência no seu diário?

[Ri-se com gosto] Por simpatia para consigo digo que sim.