Espanha. O “tsunami democrático” que quer paralisar a Catalunha

O Tsunami Democrático tomou a dianteira da luta contra a condenação dos líderes catalães, sempre comunicando através de plataformas encriptadas. Esteve na organização do bloqueio ao aeroporto de Barcelona – e o Governo já tem as secretas a investigar.

Na onda de indignação contra a condenação de 12 líderes independentistas catalães a um total de mais de 100 anos de prisão, destacou-se um novo ator. A rede Tsunami Democrático mobilizou as bases dos mais diversos setores catalães contra o que considera ser a criminalização do independentismo, prometendo “gerar uma crise generalizada no Estado espanhol”. As táticas para tal passam por bloquear aeroportos, estradas e estações de comboios, durante o “tempo que for necessário”, ao mesmo tempo que decorrem protestos e greves, convocadas por diversos partidos, associações e sindicatos.

A reação não se fez esperar, com a polícia a carregar sobre protestos por toda a Catalunha. Pelo menos 131 manifestantes que bloqueavam o aeroporto de El Prat, em Barcelona, ficaram feridos, segundo o Sistema de Emergências Médicas. Um deles ficou sem 40% da massa testicular e outro perdeu um olho devido a um ferimento que pode ter sido causado por uma bala de borracha – usadas pela polícia espanhola – ou por uma bala de esponja – usada pela polícia catalã.

Entretanto, o Governo espanhol de Pedro Sánchez já está a investigar os responsáveis pelos protestos e bloqueios. “Temos uns serviços secretos eficazes e acabaremos por saber quem está por trás destes movimentos do Tsunami Democrático”, prometeu o ministro do Interior, Fernando Grande Marlaska, que, apesar do elevado número de feridos, apelidou a atuação policial de “proporcional e necessária”.

Mas quem são de facto os impulsionadores do Tsunami Democrático? Por agora, o certo é que estão a fazer tudo para que o Estado espanhol não consiga responder a essa pergunta. Segundo o El Periódico, depois de criarem uma conta no Twitter, os ativistas começaram por se mobilizar pelo Telegram e pelo Signal – aplicações móveis com mensagens encriptadas, ideais para conteúdos sensíveis – e, em seguida, por uma aplicação própria, lançada esta semana, que exige um código QR ao utilizador – garantindo que só pessoas com a confiança dos ativistas têm acesso. O movimento não tem nem líderes visíveis nem porta-vozes – o mais próximo disso é o treinador do Manchester City, Pep Guardiola, que deu voz a um vídeo com um comunicado do grupo

“Espanha vive uma deriva autoritária em que se utiliza uma lei antiterrorista para perseguir os dissidentes”, declarou Guardiola, lembrando que “os líderes condenados representam os partidos políticos maioritários e as mais importantes entidades cívicas na Catalunha”. Em vez de “enfrentar este conflito com diálogo e respeito”, o Governo de Pedro Sánchez “escolheu a repressão como única resposta”, acusou o treinador. Guardiola prometeu que a luta não violenta dos catalães “não terminará até que acabe a repressão e o direito à autodeterminação seja respeitado, como no Quebeque ou na Escócia” – que tiveram direito a referendar a sua independência.

 

Repressão a mais ou a menos? Entretanto, o Governo autonómico catalão vê-se na difícil posição de apoiar os protestos pela liberdade dos líderes independentistas, enquanto os Mossos d’Esquadra – a polícia catalã – é acusada de excessos contra manifestantes. Os média espanhóis mencionam que a polícia catalã terá usado a polémica tática do carrossel contra bloqueios de autoestradas – ou seja, a dissolução de concentrações através da condução agressiva de camionetas –, apesar de os Mossos se terem comprometido recentemente a abandonar esta tática, devido ao risco de atropelar manifestantes.

O Executivo catalão já abriu um inquérito à atuação policial no aeroporto de Barcelona – onde uma carrinha da polícia foi filmada a arrancar com um manifestante à frente – mas, ainda assim, multiplicam-se as críticas. Aliás, o partido de esquerda Catalunya en Comú exigiu a demissão do ministro do Interior catalão, Miquel Buch, acusando o Governo de “fazer tweets convocando mobilização com uma mão e, com a outra, dar instruções para golpear manifestantes”.

À direita, apesar dos graves ferimentos registados durante a atuação policial, o líder do Partido Popular (PP), Pablo Casado, teme que as forças catalãs não tenham mão suficientemente dura. Casado apelou à aplicação da Lei de Segurança Nacional na Catalunha, que permite ao Governo central tomar o controlo das forças de segurança autonómicas. O objetivo é prevenir a “inação dos Mossos, por culpa dos seus líderes”, face a “qualquer novo corte de infraestruturas”.

Sánchez está seriamente a ponderar essa opção, segundo disseram vários dirigentes socialistas e do PP ao El Confidencial. Os dirigentes asseguraram que ambos os partidos estão preparados para aprovar a medida no Parlamento – e confiam que os deputados do Ciudadanos também votarão a favor. Quem não deverá alinhar é o líder do Unidas Podemos, Pablo Iglesias, que vê na sentença contra os líderes catalães a “desculpa perfeita” para que o PSOE se aproxime do PP após as eleições de 10 de novembro. Iglesias lamentou que na campanha eleitoral só se vá falar “da Catalunha e da múmia [de Franco]” – que deverá ser transladada do Vale dos Caídos.

Parece haver poucas soluções para impedir a crescente polarização na Catalunha. Andoni Ortuzar, líder do Partido Nacionalista Basco (PNV) – que conhece bem os riscos do confronto entre independentistas e defensores da unidade de Espanha –, apelou ao Governo para que indulte os líderes catalães – alvos da “judicialização de um problema político” – de maneira a diminuir a tensão na região.

Já o Executivo recusa essa possibilidade e quer o “cumprimento integral” da sentença, que “não deixa lugar a dúvidas de nenhum tipo”, disse Carmen Calvo, vice do Governo do PSOE. Sobre os defensores do indulto aos líderes catalães, Calvo assegurou: “Contemplamos de maneira muito diferente o que significa a separação de poderes”.