Cultura

O até já de Carlos do Carmo

Uma das mais icónicas vozes da música portuguesa vai retirar-se dos palcos. Em conversa com Stereossauro, recordamos a versatilidade que o distinguiu dentro do género.

 

Um breve exercício de imaginação. Se pedisse para apontar as vozes mais icónicas e reconhecíveis que alguma vez gracejaram a língua portuguesa, a omissão de Carlos do Carmo contava como derrota imediata. 

O primeiro português a ser laureado com o Grammy Latino de Carreira (este ano, José Cid recebeu a mesma distinção), o fadista lisboeta aos 79 anos anunciou que hoje, no Coliseu dos Recreios, vai-se despedir dos palcos e efectuar o seu último concerto.

«Tomei [esta decisão] no ano passado. São 57 anos a cantar, quase no mundo inteiro», contou à Lusa. «São poucos os países onde não cantei. Foi muita viagem, [foram] muitos hotéis, muitos palcos, é muita coisa e é uma altura boa de acalmar. E como gosto muito de ouvir cantar bem, ainda me vou desforrar a ouvir quem canta bem».

A sua longa e ilustre carreira teve início em 1964, ano em que, juntamente com Mário Simões, gravou uma interpretação da música Loucura, fado de Júlio de Sousa. Apesar de por diversas vezes ter confessado que escolheu esta faixa porque era a única que sabia cantar na época, este fado adquire conotações mais pessoais porque era também interpretado pela sua mãe, Lucília do Carmo.

Esta música valeu-lhe as suas primeiras distinções enquanto artista, nomeadamente o prémio Melhor Intérprete (1967) entregue pela Casa da Imprensa, mas também como um músico ousado que pretendia romper com as convenções do fado tradicional. 

« À época editavam-se discos de 45 rotações com quatro faixas e eu gravei um fado de minha mãe acompanhado, imagine, por piano, guitarra elétrica, bateria, baixo e um coro vocal», afirmou em entrevista à Agenda Cultural de Lisboa. «Uma autêntica loucura… mas que passava na rádio de manhã, à tarde e à noite».

Um artista sem medo de experimentar 

«Um artista transversal, sempre com um pé na tradição, mas sem medo (…) de arriscar pelos mais diversos territórios musicais», segundo Miguel Judas, da revista Visão, Carlos do Carmo, autor de faixas como Lisboa, Menina e Moça, Os Putos ou Por Morrer Uma Andorinha, distinguiu-se pela sua versatilidade e por ir buscar influências fora do fado, desde o ídolo Frank Sinatra à bossa nova. 

A sua música viria a figurar em contextos tão inesperados como em álbuns de José Cid, Pedro Abrunhosa, Amor Electro ou Sam the Kid. Mais recentemente, Carlos do Carmo participou no álbum Bairro da Ponte de Stereossauro, nome artístico de Tiago Norte, produtor e DJ português que neste trabalho quis quebrar as barreiras entre fado, hip-hop, rap e música electrónica. Acompanhado pela guitarra eléctrica de The Legendary Tigerman, o fadista interpretou a música Cacilheiro, uma sugestão de Becas do Carmo, filho e agente de Carlos.

«Estava a mostrar-lhe temas para o Camané [de quem também é agente] e um deles tinha samples de uma música do Carlos do Carmo e ele reconheceu logo o tema. Umas semanas depois disse-me que o seu pai gostou muito do que eu estava a fazer. Pedi-lhe desculpa pela minha ignorância, não sabia quem era o pai dele. Foi aí que ele me disse que era o Carlos», confessou ao i. «Quando ele me disse que o seu pai queria participar no disco caiu-me tudo. Foi muito inesperado. Foi ele que gravitou para o disco, eu se calhar nem tinha coragem para o convidar».

O produtor estava preocupado que os diferentes backgrounds musicais dos músicos tornassem a colaboração incompatível. «Quando fiz a minha versão da musica e lhe enviei estava receoso porque não conheço bem os seus gostos musicais para além do fado. Enviei-lhe o email, com a hipótese do não sempre presente, mas ele disse que gostou muito e que queria ir para estúdio gravar».

As diferenças que preocupavam Stereossauro acabaram por ser o que despertou o interesse de Carlos. «Falámos sobre o tema, foi composto pelo Paulo Carvalho e a letra era do Ary dos Santos, e que na altura era para ter sido uma bossa nova, mas eles decididiram adaptar para um fado para ser cantada pelo Carlos. Como a minha versão tinha muitas precursões sul americanas, tinha sido umas das coisas que ele mais tinha gostado da minha abordagem, era como se a música tivesse voltado ao início».

Apesar de reconhecer que não era um grande ouvinte de fado antes de começar a trabalhar este género musical e a utilizá-lo em samples, Tiago Norte admite que ganhou um carinho especial pelo fadista, não resistindo a comprar, sempre que pode, os seus discos para completar a sua colecção. 

«Foi incrível trabalhar com o Carlos. Ele é daquelas pessoas que quando entra numa sala tem uma aura especial e fica tudo calado e virado para ele. Foi sempre simpático e acessível», recordou. «Ele é um tesouro de histórias, mal chegou ao estúdio disse ‘vamos gravar [o Cacilheiro] 40 anos depois no mesmo estúdio onde o gravei pela primeira vez».

A tour intitulada Carlos do Carmo: Obrigado!, começou no sábado passado no Coliseu do Porto e passa hoje, no Coliseu dos Recreios, naquele que será o último concerto do fadista. 

Apesar de estar a despedir-se dos palcos, Carlos do Carmo sublinhou que irá continuar a sua carreira e a trabalhar em estúdio. Se já fizemos um exercício de imaginação, vamos agora para o segundo, tentado conceber qual será a próxima aventura do camaleónico fadista?