Opiniao

30 anos depois

Trinta anos depois da queda do Muro de Berlim, o saldo não é brilhante para a Europa: a unificação na Alemanha não passa de uma humilhante ocupação do leste empobrecido; a Europa passou a ser irrelevante no mundo e está em desintegração com o Brexit à porta; os países do sul da Europa a braços com a queda do mercado interno por razões demográficas, foram ocupados financeiramente pela China, depois de guerras europeias – quem não se lembra de Sarajevo!; a Espanha está em desagregação e incapaz de formar governo ao fim de quatro eleições em quatro anos.

Na Alemanha, com a economia já débil, a reforma dos baby boomers e a ascensão dos Millennials dentro de dois anos, faz com que a poupança desapareça e sem poupança não haverá recursos para investir, ou seja, o inverno económico e talvez mais um desastre demográfico com muitos alemães a terem que emigrar, nos próximos anos, como aconteceu no século XIX.

O populismo é a resposta inevitável a esta Grande Crise – com o seu ataque às elites e aos partidos moderados, acusados de corrupção, com a exaltação dos costumes vitorianos, o nacionalismo contra os imigrantes e o protecionismo comercial.

Aliás, as três grandes crises do capitalismo resultaram sempre em populismo, em políticas anti-imigração, em protecionismo e em conservadorismo nos comportamentos. Essa tendência é marcante depois da Grande Depressão da década de 1870, depois da Grande Depressão dos anos 1929/1930 ou ainda depois da Grande Crise de 2008.

A crise dos anos de 1870 tem origem na expansão do crédito na Europa e nos EUA, na sequência da Guerra Franco-Prussiana. Depois da derrota, a França foi obrigada a fazer pagamentos ao recém-unificado Império Alemão a título de reparações de guerra, o que lhe deu liquidez, utilizada para lançar politicas desenvolvimentista e sociais com base, para além da despesa pública, no crédito bancário.

A Áustria replicou o modelo. A liberalização da banca vai criar uma bolha imobiliária, que aumentaria os capitais que serviram para financiar a febre dos caminhos-de-ferro nos EUA. Durante dois anos tudo correu bem até que, em 1873, começaram as dificuldades de pagamentos de hipotecas e a Bolsa de Viena teve um ‘crash’, que provocou a crise bancária. Os bancos não foram salvos com o dinheiro dos contribuintes, pois essa moda só foi instituída depois da criação da FED no final de 1913.

Quem tinha adotado políticas livre-cambistas, regressa então ao protecionismo, ao mesmo tempo que lançam a exploração dos seus impérios coloniais. A crise duraria toda a década (a geração de 70 reflete o seu tempo!), por causa da austeridade.

A crise dos anos 1930 foi a maior que o capitalismo conheceu. Na origem está a I Guerra Mundial. A guerra destruiu o sistema de cooperação económica internacional do padrão-ouro e depois dela tenta-se a sua recuperação, mas as taxas fixas escolhidas revelaram-se inadequadas para as diferentes economias. Antes da guerra comercial, nos anos 1920, começa uma guerra cambial, com os vários países manipulando os câmbios para ganhos de curto prazo.

A escassez de recursos na Alemanha – a pagar as indemnizações de guerra à França – era suprida pelo crédito americano, o que criou uma súbita riqueza que inflacionaria os preços e a bolsa, e que terminará na famosa quinta-feira negra de 24 de outubro de 1929. A contração do crédito retira os EUA do mercado internacional, o que provoca, em 1930, uma nova crise bancária na Alemanha. Falhada a desvalorização, os alemães apostaram no protecionismo. A falta de coordenação nestes passos não permitiu a nenhuma das economias conhecer retomas económicas sólidas e duradouras durante a década. Quando, em 1939, começou a II Guerra Mundial, a situação económica internacional era ainda crítica: os EUA conheciam mesmo uma segunda depressão desde 1937. A reconstrução da Europa, depois da destruição na II Grande Guerra – provocada pelo populismo nazi – e o crescimento da população resolvem finalmente a crise nos anos 50.

A crise de 2008, também nascida do excesso de crédito e da desonestidade do subprime nos EUA, leva à crise bancária e à crise das dívidas soberanas que afundaram os países numa crise económica agravada pela política de austeridade – que não fez as reformas estruturais necessárias e aumentou as desigualdades. É esta crise nunca resolvida que leva agora também a uma nova onda populista, conservadora nos costumes, nacionalista, protecionista, anti-imigrantes e também contra as elites – mais uma vez acusadas de corrupção – e que provavelmente levará a um novo ciclo de anarquia, que só se resolverá depois, com uma nova guerra.

Enfim, o ciclo habitual: crise financeira, populismo, anarquia e guerra, que não resolverão os problemas de desigualdade, demografia, segurança nuclear, terrorismo, crise climática ou inteligência artificial que nos ameaçam.

Provavelmente só depois perceberemos que para sermos bons nacionalistas teremos antes que ser bons globalistas.

Professor Universitário