Opiniao

Abrindo a cortina do passado

Por raiva, Ary Barroso esculhambou Jair Rosa Pinto; por paixão, Percy e Olinda Bolsonaro acabaram por fazer o mesmo

Sobre o Rio de Janeiro o céu estava claro e límpido como os olhos da Michelle Pfeiffer. Ary Barroso conduzia o seu Buick brilhante em direcção a Jacarepaguá. No lugar do morto seguia José Lins do Rego. Hoje, estão ambos no lugar dos mortos.

«Ah! Abre a cortina do passado/Tira a mãe preta do cerrado/Bota o rei congo no congado...», talvez ouvissem no rádio do automóvel luxuoso. Ary tinha tanto orgulho nele como em Aqurela do Brasil. Era doente pelo Flamengo, conhecia treinadores e jogadores, decidira levar José Lins com ele até à concentração da equipa que jogaria, nessa tarde, frente ao Vasco da Gama, em São Januário. O episódio data de 22 de Agosto de 1949. Nessa altura, Ary já era uma figura por demais popular no Brasil e fazia de tudo um pouco, até de narrador de encontros de futebol na rádio, acompanhando os relatos com a sua inseparável cachacinha. Se o Flamengo estava em causa, borrifava-se para a requisitada imparcialidade e largava tiradas de arrepiar rinocerontes: «Meu Deus! Agora é a vez dos inimigos atacarem. Vou rezar! E não quero nem ver!».

Já o autor de Menino de Engenho era mais cordato, mas não menos fanático pelo Mengão, tal como se pode confirmar pelas crónicas que deixou escritas em O Globo e no Jornal dos Esportes. Aliás, chegou mesmo a ter cargos na direcção do clube. Por isso, apanhando o ar fresco de Copacabana, no rodar macio do Buik, os amigos já iam fazendo apostas sobre o resultado do jogo. Ary não tinha dúvidas: «Zé Lins, hoje é dia! O clube comemora 51 anos, vamos dar uma lição nesses vascaínos. Estou louco para falar com Zizinho e Jair e sentir o que estão achando. Vou meter um dinheirinho por eles».

Jair era Jair Rosa Pinto. O meia-esquerda que gostava de passarinhos. Dedicava-lhes todo o tempo livre da sua vida. Tinha muitos em gaiolas e muito mais ainda soltos, por toda a cidade. Principalmente na Praça Saénz Peña, no Bairro da Tijuca, onde depois de morrer deram o seu nome a uma esquina. Formou, no Madureira, um trio conhecido como Os Três Patetas - Jair, Lelé e Isaías -, entrou no Expresso da Vitória, um Vasco da Gama poderoso, jogou no Santos com Pagão, Pelé e Pepe, e foi titular da selecção brasileira de 1950, a que perdeu a final do Maracanã face ao Uruguai. Tinha um pontapé devastador. Havia quem lhe chamasse o Jajá de Barra Mansa.

No Flamengo não foi feliz. E, na manhã em que Ary Barroso e José Lins do Rego o encontraram na concentração da equipa, plenos de confiança, Jair parecia deprimido. Quando soube que Ary ia meter uns cobres na vitória do Fla, encolheu os ombros: «Se fosse você, gastava dinheiro em algo melhor...» Os dois amigos ficaram boquiabertos. Jajá explicou-se: era o treinador, o Kanela, e as suas tácticas. Deixava os jogadores confusos. A equipa vivia no meio da confusão. Não augurava nada de bom.

Aqui chegados, lembrei-me de uma figuras dos velhos Olivais Sul: Eduardo Neves Barroso, o Dadinho. Jogador trapaalhão nas peladas do Maracangalha e do Vale do Silêncio, desculpava-se: «Eu sou bom é no basquete!» Kanela era bom era no basquete. Mas sem desculpas amarradas. Togo Renan Soares, que era tio do gordo Jô Soares, Kanela de alcunha, acumulou por vezes as carreiras de treinador de futebol e de basquete, como nesse ano de 1949, levou o Flamengo a dez vitórias consecutivas no campeonato brasileiro do jogo do cesto e a selecção do Brasil à conquista de cinco Campeonatos Sul Americano, dois Campeonatos do Mundo e à medalha de bronze dos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960. Não é de admirar que Jair desabafasse: «Kanela é bom é no basquete!» Era mesmo.

O Vasco da Gama ganhou por 5-2. Ary Barroso perdeu dinheiro, a despeito do conselho de Jajá. Mas não atirou a sua raiva de perdedor para cima de Kanela, peferiu esculhambar Jair de tudo e mais alguma coisa, derrotista, pouco profissional, elemento pernicioso para a moral do grupo, um escafandro. O povo era sensível às suas diatribes radiofónicas. Os adeptos do Flamengo tomaram Rosa Pinto de ponta e reuniram-se em frente ao estádio da Gávea para queimarem. simbolicamente, a sua camisola nº 10. Seria o fim de Jair no Flamengo.

«Deixa cantar de novo o trovador/A merencória luz da lua/Toda canção do meu amor...» O trovador Jajá continuou a cantar sobre os relvados até aos 42 anos. Percy Geraldo e Olinda Bonturi, resolveram esculhambá-lo mais uma vez dando o seu nome ao filho de ambos: Jair Messias Bolsonaro. Vale que Jair da Rosa Pinto nunca teve medo de fumaça. Continuou matando a sua sede nas fontes murmurantes de Ary...
afonso.melo@newsplex.pt