À Esquerda e à Direita

Hospitais transformados em ringues de boxe

É preciso criar centros de saúde que estejam abertos 24 horas por dia para atenderem os casos menos graves. Se uma pessoa tem uma dor forte ou está com suores frios e fraca, como não é médico, dirige-se às urgências, já que os centros de saúde não estão abertos ou estão a rebentar pelas costuras. Enquanto não se conseguir estancar os doentes não urgentes o caos vai continuar.

A discussão já tem muitos anos e imagino que daqui a uma década ainda persista. Como tirar das urgências hospitalares os doentes que não estão assim tão doentes para lá estarem?

O problema é estrutural e não vai ser fácil resolvê-lo, mas as notícias das agressões a médicos pioraram e muito a situação. Em primeiro lugar, há um problema de pobreza, pois muitos doentes acabam por se refugiar nas salas de espera para não estarem na rua; muitos são alcoólicos e acabam por se magoar, ou porque caíram ou porque foram agredidos sem gravidade e os médicos que os atendem, alguns, por compaixão, acabam por os deixar ficar mais tempo para poderem usufruir do pequeno-almoço ou de uma refeição. Falo do que já assisti em várias idas às urgências.

Mas a questão central passa por as urgências só tratarem de casos graves e para que isso aconteça é preciso criar centros de saúde que estejam abertos 24 horas por dia para atenderem os casos menos graves. Se uma pessoa tem uma dor forte ou está com suores frios e fraca, como não é médico, dirige-se às urgências, já que os centros de saúde não estão abertos ou estão a rebentar pelas costuras. Enquanto não se conseguir estancar os doentes não urgentes o caos vai continuar.

Mas o que me surpreendeu mais nas notícias que dão conta das agressões, é o facto de os profissionais agredidos precisarem de ajuda psiquiátrica e de se recusarem a voltar a trabalhar nas urgências. Aqui surgem os pedidos da classe para que se castiguem os agressores, mas se estes, supostamente, estão doentes como se fará? Em vez de serem vistos por um médico serão ouvidos por um polícia? Independentemente destas questões éticas que se colocam, parece óbvio que é preciso dar um sinal bem claro de que quem agride médicos – ou professores, já agora – sofrerá as consequências graves desse seu ato. Mais uma vez os relatos dos profissionais de saúde nos dizem que o caos alimenta o caos. Se há doentes que começam a protestar e agredir médicos e enfermeiros por estarem há horas à espera de serem atendidos, logo outros tendem a adotar a mesma atitude agressiva.

O cenário é mesmo de filme, pois é de esperar que as pessoas vão ao hospital para serem tratadas e não para assistirem a atos de violência. Por fim, a questão da falta de profissionais. Como há poucos médicos e enfermeiros é natural que o tempo de espera para se ser atendido, quando os casos não são graves, seja maior. Mas, curiosamente, quando se vai a um hospital particular à noite e não se encontram lá especialistas nunca vi ninguém a querer agredir os médicos que estão de serviço, pois a atmosfera é diferente, já que se respira um ar menos doentio. E mesmo que o oftalmologista, por exemplo, esteja a dormir e apareça duas horas depois, os doentes ainda fazem um ar de submissão... É a diferença do particular para o público. 

P. S. Saddam Hussein era uma figura sinistra, que matou milhares de curdos, mas sabia-se quem mandava naquela confusão no Iraque. Na Líbia, Muamar Kadafi, recebia os líderes mundiais na suas tendas, e era recebido na Europa com pompa e circunstância. Ambos foram mortos, ou pelas forças ocidentais ou com o seu consentimento. Hoje, esses dois países e a região estão muito mais perigosos. O poder está espalhado por várias fações e ninguém sabe quem manda no quê. Ontem, os EUA deram mais um contributo para a confusão na região, mas enquanto não existir um ditador que se sobreponha a todos os outros não haverá paz na região e o resto do mundo não poderá dormir descansado.

vitor.rainho@sol.pt